Por uma nova ética do amor

Djamila Ribeiro fala sobre a construção histórica do amor.

Discutir uma nova ética do amor envolve dar um passo para trás e entender como as relações foram historicamente construídas. E como se apresentam atualmente quando há inúmeras possibilidades de distração com o outro e falta de amor e cuidado entre as pessoas. Nesse sentido, vale dizer que a sociedade de consumo é aquela que consegue transformar tudo em objeto para servir como uso. Como nos ensina bell hooks, feminista negra norte-americana, a lógica do uso é aplicada, inclusive, nas relações humanas. É fácil perceber: basta notar os aplicativos de relacionamento, como o Tinder, que dispõem fotos de pessoas como um grande cardápio. Não estou fazendo julgamento de quem usa, diversas histórias começaram por ele, mas discuto aqui como muitas vezes passamos para a próxima pessoa de maneira superficial, observando somente características físicas.

Leia também: Ninguém precisa ser Mulher Maravilha, já basta ser mulher

Outros exemplos são possíveis: quem não conhece alguém que tratou uma pessoa amiga como descartável, transformando-a em mero meio para obtenção de um fim qualquer? Penso também que liberdade sexual é o direito de dizer sim e não. Porém, mesmo num caso fortuito, há uma pessoa ali. Ninguém precisa abrir mão de se relacionar com quem queira, meu ponto é: independentemente se é algo de um dia ou 15 anos, há um ser humano ali, não deveríamos tratar com descaso ou como mera mercadoria. É preciso ter consciência disso e quebrar essa lógica de uso, resgatar os ensinamentos das mais velhas, bem como ressignificar histórias de amor que muitas vezes esconderam violências e renúncias.

Por uma nova ética do amor

 (Victor Aguiar Magalhães/ELLE)

O amor que escrevemos aqui não tem aquela visão que se tornou mais conhecida, de mulheres em posição de serem salvas ou infantilizadas, no sentido de que só um homem as completariam, negando sua existência enquanto sujeito. Para atingirmos o que se pretende por amor, vale lutar pela quebra da hierarquização dos papéis que foram historicamente destinados na construção desse suposto amor. O amor que discutimos aqui envolve lealdade, trato, cuidado.

O primeiro passo para uma nova ética do amor é desnaturalizar essa lógica de consumo atual, para praticar o que tem se mostrado um grande desafio: enxergar pessoas como seres humanos, sem hierarquias. Às vezes, ir à casa de sua amiga lavar uma louça, trançar seu cabelo e permitir que ela tenha tempo de qualidade para se cuidar e ser cuidada pode ser a grande mostra de amor em tempos tão corridos.

Em uma sociedade com tantos problemas quanto a nossa, discutir e rever o amor é tarefa coletiva que atinge cada qual à sua maneira. Para os homens, por exemplo, discutir masculinidade enquanto sensível, fora da aparente obrigatória truculência, envolve também se aprofundar e por vezes rever a educação sexual fundada na pornografia e na consequente lógica da objetificação da mulher. Fazer isso é aproximar-se de um mundo com uma nova ética do amor.

Audre Lorde (1934-1992), feminista negra caribenha-americana, desenvolveu trabalhos importantes sobre a discussão e diferenciação entre o erótico e o pornográfico. Diz ela que o erótico envolve o reconhecimento da alteridade, da humanidade do outro e que não está ligado somente ao prazer sexual, mas ao prazer e entrega com o trabalho, lazer, enfim, com o mundo. Ao passo que o pornográfico ficou ligado ao consumo de corpos, de pessoas. Interessante a no ção do erótico e a dimensão do prazer em vários aspectos do cotidiano, despertando a vivacidade necessária para desfrutar diferentes formas de amor. Porque é isso: quando se internaliza uma nova ética nas relações, permite-se viver intensamente em um mundo tão duro.

Comentários
Deixe um comentário

Olá, ( log out )

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s