Essa libanesa que mora em Paris não liga para tendências de moda

Conheça o estilo e a história da libanesa Léa Maleh.

A libanesa Léa Maleh tem 34 anos, é artista e designer. Ela saiu de Beirute em 2011 e hoje já está completamente acostumada com o lifestyle parisiense. A decisão de se mudar para Paris, uma cidade completamente diferente para uma jovem mulher como ela, teve vários fatores determinantes: o amor foi uma delas, mas não apenas ele. Apesar de ter um namorado aqui, Léa veio para conquistar seu espaço, trabalhar e, também para amar. Hoje, já casada, ela segue com seu discurso feminista de liberdade e realiza um belo trabalho como designer de joias. “Meu maior desafio como mulher, quaisquer sejam minhas origens é, antes de tudo, existir como ser humano”.  Acompanhe as fotos do estilo parisiense bem incorporado por Léa e também a entrevista que ela concedeu durante nosso encontro pelas ruas de Paris!

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Como você considera o seu estilo de vestir?

Confortável e elegante. Prático para correr de um ponto a outro entre as ruas parisienses!

Como é viver aqui?

Eu vivo há sete anos em Paris. Eu decidi de sair do Líbano por que eu precisava de uma nova abertura de vida. Meu trabalho lá era repetitivo e eu precisava de novas inspirações artísticas e humanas. Posso dizer que encontrei! Hoje sou realizada no meu trabalho e muito feliz de encontrar novas pessoas.

Como mulher e libanesa, quais são os seus desafios?

Eu procuro defender minha cultura, sem ser totalmente invadida por ela. Amar minhas origens, mas assim mesmo avançar e me abrir para as outras. Eu cresci em um ambiente onde as diferentes religiões conviviam de maneira harmoniosa, mas também onde havia um clima tenso e cheio de raiva. Vindo para Paris, encontrei momentos da mesma cólera e raiva. Tudo isso fruto da falta de comunicação, de lavagem cerebral e manipulação politica (Léa se refere aos ataques terroristas que vitimaram Paris em janeiro e novembro de 2015, respectivamente). E, portanto, estamos na Europa, em um dos países mais lindos do mundo, terra historicamente acolhedora. Meu maior desafio, independente das minhas origens é, antes de tudo existir como ser humano e como mulher, ser livre, forte, independente e, se possível, criar um impacto a meu redor através do meu trabalho para colaborar na evolução de uma sociedade mais tolerante.

Moda real parisiense

 (Ana Garmendia/ELLE)

Como a cidade de Paris influenciou seu estilo de vestir já que as libanesas são bem mais extravagantes no vestir e a parisiense é mais contida?

Vamos dizer que eu reaprendi a definir as palavras chique e elegante. As mulheres parisienses não usam as mesmas doses de maquiagem que as libanesas, nem a altura dos saltos e tampouco o número de idas aos salões de beleza e esteticistas. Atenção! Eu não estou criticando, por que eu vivi isso! Com o passar dos anos fui, pouco a pouco, reequilibrando e refazendo meu closet de uma maneira mais adaptada ao meu modo de vida parisiense. Em resumo, minha fórmula é a do “less is more”. Chique e elegante com um toque de suavidade.

Quais são, dentro da sua classe social, as maiores diferenças na liberdade das mulheres francesas e libanesas?

Depende das regiões. Em Beirute, por exemplo, não existem grandes diferenças.

As mulheres libanesas são fortes e independentes. Já as mulheres de regiões mais distantes, infelizmente, estão mais sujeitas às pressões familiares, como por exemplo, escolher a idade de casar e ter filhos e também na escolha de estudar e seguirem suas carreiras. O reconhecimento social acontece graças ao fato dela ser casada e também, se estudou, a carreira escolhida. Ainda restam como os melhores meios de ascensão as carreiras de medicina e advocacia. Um clichê como o que encontramos em outras sociedades. A grande diferença da mulher parisiense é que ela, aos 18 anos, geralmente, sai de casa e já é muito mais independente financeiramente. Ela já trabalha meio turno, por exemplo. Contrariamente à libanesa que só sai de casa para casar. Isso explica bem a influencia que os pais exercem sobre as decisões pessoais que cada uma deve tomar.

Qual a sua relação com a moda?

Tenho uma relação bem equilibrada. Eu sempre me divirto com alguns princípios da moda como as tendências do momento ou imposição de certas escolhas do que devemos usar! Eu acho meio triste encontrar em todas as boutiques quase as mesmas roupas e também de ouvir “é bonito por que está na moda”. Tenho a impressão que é um assunto onde ainda não refletimos muito sobre o quanto isso nos faz vestirmos escolhas impostas pelo medo de não sermos aceitas pela sociedade. Então, vamos dizer que eu adoro a moda quando ela me oferece cores, materiais e eu sou livre para colocar tudo junto segundo a minha própria vontade, sem parecer um clone de uma outra mulher.

Quais são os seus indispensáveis de moda e beleza?

Primeira coisa: uma bolsa, seja ela de marca ou não, pouco importa. Um belo par de tênis ou botas e um belo casaco ou blusão, depende da estação. Com isso, todo o resto deve funcionar. Como indispensável de beleza, uma base iluminadora e algo para realçar o olhar, uma sombra discreta, lápis e máscara. Cabelos bem cortados e unhas impecavelmente feitas e pintadas. Eu mudo raramente de perfume, quando encontro algum que gosto ele me acompanha durante anos. Atualmente é o Le Jardin De Monsieur Li da Hermès.

Moda real parisiense

 (Ana Garmendia/ELLE)

Quais as suas marcas favoritas?

Carven, Maison Margiela, MM6 Maison Margiela, MSGM, Yohji Yamamoto etc. Recentemente, descobri a marca brasileira Sonia Pinto, eu adoro! São alguns nomes conhecidos, mas eu gosto também de comprar marcas desconhecidas quando viajo.

Você pode dividir com a gente alguns bons endereços de moda em Paris?

O bairro Marais. Claramente é lá que a gente pode encontrar algumas lojas-conceito realmente legais. Em termos de boas compras (preço e qualidade) temos a La Piscine como outlet de marcas, tanto masculinas quanto femininas.  E na rue de Sévigné tem vários outlets interessantes. Mas, francamente? Não sei se eu posso ser uma boa conselheira por que eu faço minhas compras normalmente quando eu viajo ou em lojas descoladas, onde eu encontro peças de novos criadores.

Qual a sua posição sobre o feminismo?

Eu penso muito profunda e claramente sobre ele. Quando olhamos tudo que o feminismo nos trouxe ao longo dos anos. É formidável. Igualdade política, cultural, econômica, pessoal, social e jurídica entre mulheres e homens. Não estamos ainda com 100% de igualdade, mas chegaremos lá. Temos que continuar a lutar, cada uma de nós deve avançar e continuar a transcender os hábitos de nossas ancestrais. Nada está gravado no mármore, podemos continuar a evoluir. Meu desejo maior é de que o termo feminismo desapareça por que já teremos alcançado a igualdade perfeita. Mas, como em todos os movimentos, tenho minhas reservas com algumas feministas, para mim, a mentalidade extremista de algumas acaba sendo como a dos machistas e misóginos, mas no senso contrário. Finalmente, por um mundo melhor, tudo é uma questão de equilíbrio e podemos atingi-lo com uma grande abertura de espirito, mais tolerância e empatia com os outros. Lembrar-nos que somos todos seres humanos e, qualquer que seja o nosso sexo, cor de pele ou religião é importante apreciarmos uns aos outros pelo que somos e não dentro de um contexto que leva em consideração o meio em que crescemos.

Moda real parisiense

 (Ana Garmendia/ELLE)

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