O futuro segundo a Balenciaga de Nicolas Ghesquière

A era do estilista francês na direção criativa da marca prova que para criar o amanhã basta entender o hoje.

São poucas as crianças apaixonadas por moda por aí. No entanto, quem fazia parte desse grupinho e nasceu no começo dos anos 1990, sem dúvida, assistia ao reality show Project Runway. Apresentado pela supertop alemã Heidi Klum, o programa que fez muito sucesso na época promovia uma competição entre jovens designers de moda norte-americanos. Eu me lembro com muita clareza de uma participante que, apesar de partir de uma premissa vintage com o olhar voltado aos anos 1940 e 1950, sempre acabava copiando alguma coisa que já tinha sido desfilada na passarela de alguma grande grife na última temporada de moda.

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Dei um Google aqui e redescobri seu nome: Kenley Collins. Em um dos desafios, ela pintou um vestido à mão, fez umas mangas de princesa bem estruturadas e texturizadas e colocou a peça para jogo. O júri — composto por nomes divertidos e ácidos do mundo fashion como o estilista estadunidense Michael Kors e a atual editora-chefe da ELLE americana Nina Garcia — elogiou o acabamento, mas acusou a jovem de plágio.

Balenciaga verão 2008 Minivestidos estruturados e pintados à mão marcaram o verão 2008 da Balenciaga.

Minivestidos estruturados e pintados à mão marcaram o verão 2008 da Balenciaga. (Chris Moore/Getty Images)

“É muito parecido com o verão 2008 da Balenciaga“, diziam. Ela sempre retrucava dizendo que não assistia desfiles e não sabia de nada do que grandes designers estavam fazendo por aí. “Não posso confiar em uma estilista que não faz pesquisa”, rebatia Kors. Se não me engano, mesmo copiando — depois também rolou um ctrl c + ctrl v de Alexander McQueen — ela chegou à final. Mas isso não vem ao caso. A questão é que foi aí que eu parei para, realmente, não decepcionar Michael Kors e entender o que a Balenciaga de Nicolas Ghesquière significava para a moda naquele momento.

Hoje, o designer francês dirige a Louis Vuitton, uma das marcas de luxo mais desejadas do mundo. A sua trajetória até esse pico, no entanto, pode até ser mais interessante do que o trabalho que ele vem fazendo atualmente. Claro, Ghesquière continua sendo um dos maiores nomes da moda contemporânea, mas quem conheceu a sua Balenciaga — assim como eu — talvez ainda não tenha superado 100% o luto após sua saída. Aplaudo os esforços e entendo o valor do que o russo Demna Gvasalia está fazendo na direção da etiqueta fundada pelo espanhol Cristóbal Balenciaga em 1919, mesmo assim, a saudade bate forte.

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No meu caso, tudo começa pelo sonho vendido pelo designer por meio do universo estético criado para a grife. Na camada mais superficial, dá para dizer que Ghesquière foi o maior futurista dos anos 2000. O estilista que, de alguma forma, aludiu ao futuro de um jeito inteligente sem cair na obviedade que o tema sugere. Isso porque, apesar do rótulo, ele nunca abraçou de fato essa causa. Em uma entrevista recente, já na Louis Vuitton, o editor do Business of Fashion Tim Blanks pergunta para o designer se ele tinha o amanhã em mente na hora de desenhar sua coleção. A resposta foi: “na verdade, acima de qualquer coisa, eu tento fazer o que há de mais novo hoje. Meu intuito é me relacionar com o agora, fazer sentido no mundo de alguma maneira.”

Em outras conversas, ele admite que era viciado em filmes sci-fi dos anos 1980 quando criança. Só que, em vez de emprestar elementos plásticos dos longa-metragens, é a figura feminina das personagens que o inspira. “Elas são heroínas completamente independentes e, de certa forma, eu crio pensando nelas. Quero que quem vista minha roupa se sinta uma heroína”, explicou. Essa viagem futuro-passado-presente chegava até mim como a possibilidade de um mundo novo, ou melhor, de vários novos mundos possíveis. Enclausurado na cidade interiorana em que nasci, essa esperança me ajudou muito a entender que a minha cabeça louca tem seu espaço, pode existir, mesmo que não tenha nada a ver com quem está por perto.

Hoje, para escrever essa coluna, descobri que o próprio Ghesquière também se apaixonou por moda porque, para vivê-la em sua máxima potência, ele teria que se mudar, sair da pequena (e entediante) comuna de Loudun, no oeste da França. Imagina se meu coração não derreteu…

“A Balenciaga corresponde à arte abstrata, à arquitetura, a uma moda intelectual que mistura qualidade gráfica à austeridade.” – Nicolas Ghesquière

Não à toa, aos 18 anos de idade, o adolescente já estava trabalhando no ateliê de Jean Paul Gaultier, um dos mais respeitados estilistas de alta-costura na França. Ghesquière, apesar de ser taxado como um intelectual da moda, exageradamente conceitual, não tem formação acadêmica na área. Tudo que ele aprendeu foi colocando a mão na massa e mantendo os olhos sempre bem abertos. Mesmo apresentando peças complexas na passarela da Balenciaga, o ponto de partida para a criação delas não era necessariamente a obra de um artista desconhecido ou a ideia de algum filósofo muito cabeçudo. O inverno 2010 — uma das minhas coleções favoritas — era inspirada em objetos completamente banais: biscoitos, embalagens descartáveis de comida e sacos de dormir estavam na lista.

Balenciaga inverno 2010 Biscoitos, uniformes de astronautas, cerâmicas para a cozinha e embalagens descartáveis de alimentos eram algumas das inspirações do inverno 2010 da Balenciaga de Ghesquière.

Biscoitos, uniformes de astronautas, cerâmicas para a cozinha e embalagens descartáveis de alimentos eram algumas das inspirações do inverno 2010 da Balenciaga de Ghesquière. (Chris Moore/Getty Images)

São sacadas como essas que fazem a saudade aparecer vez ou outra. A Louis Vuitton de Ghesquière é muito interessante, mas a Balenciaga dava mais espaço para a poesia de fazer moda. Até porque essa era a premissa da marca quando ela foi fundada. Segundo o estilista em entrevista para a O32c, “Se Christian Dior trouxe o romantismo e o exagero para a moda e Gabrielle Chanel libertou as mulheres e abriu caminho para o sportswear se encontrar com a alta-costura, a Balenciaga corresponde à arte abstrata, à arquitetura, a uma moda intelectual que mistura qualidade gráfica à austeridade.”

Cristóbal é o pai dos “puristas”, uma escola de estilistas do século 20 — da qual surgiu Hubert de Givenchy (inclusive, vale analisar as semelhanças entre a Givenchy de Riccardo Tisci e a Balenciaga de Ghesquière) — que priorizava a forma acima de tudo. A construção dos vestidos era muito mais importante do que os bordados intrincados nos quais a alta-costura costuma se apoiar. Em seus 15 anos à frente da etiqueta criada pelo espanhol, Ghesquière fez valer a sua voz. Não ficou preso ao passado e aos códigos mais clássicos da maison. Eu tenho para mim que ele jamais seria capaz de fazer isso (e que bom!). Ele criou outros prédios em forma de roupa: a calça reta que virou sua marca registrada, as jaquetas parrudas com recortes de tecido, os acessórios hit que alavancaram as vendas da grife…

Balenciaga verão 2013 Liya Kebede, nossa capa de março, desfilou na última coleção do estilista para a Balenciaga: o verão 2013.

Liya Kebede, nossa capa de março, desfilou na última coleção do estilista para a Balenciaga: o verão 2013. (Chris Moore/Getty Images)

Para a nossa sorte, Ghesquière não consegue fugir de si mesmo. Ainda na Louis Vuitton, os respingos do que ele fazia na Balenciaga são nítidos. Há certas coisas que não mudam e há quem critique essa posicionamento tão assertivo do criativo nas casas para as quais trabalha. De minha parte, sigo bem feliz na esperança de que mais estilistas tenham a mesma coragem de não abrir mão de um estilo rigoroso, inteligente e inovador. Mesmo que isso signifique nadar contra a maré.

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