Esperando Galliano como quem espera Godot

Na estreia do masculino couture da Margiela, Galliano prova que a linguagem de moda ainda existe e tem poder.

Vou começar confessando… Essa coluna nasceu, é claro, de um desejo de compartilhar com vocês as razões pelas quais eu me apaixonei por moda há muito tempo. No entanto, ela tem, para mim, uma outra função: a de me reconectar com essa paixão. Quem olha para o que está sendo desfilado nas semanas de moda atualmente já não tem mais o mesmo brilho no olhar de quem estava descobrindo tudo há dez anos.

Leia mais: O primeiro passo se chama Miuccia Prada

Em geral, eu detesto esse discurso saudosista. “Ai, como era melhor antes! Como os desfiles eram melhores, os estilistas mais criativos, as roupas mais interessantes…” Balela. Não queria fazer parte desse “mimimi” fashion. A moda muda todos os dias e a gente tem que aprender a enxergá-la com outros olhos. Os parâmetros da crítica de moda precisam ser atualizados temporada após temporada. Do contrário, tudo, para sempre, será uma grande porcaria.

Maison Margiela

 (Maison Margiela/Divulgação)

Por outro lado, estava conversando com Vivian Whiteman — nossa editora sênior de moda — recentemente a respeito do que aconteceu com as semanas de moda. Qual o sentido delas nesse momento? Por que as marcas ainda querem fazer desfile e por que as pessoas ainda querem assistir a esse tipo de performance? “O que está acontecendo hoje é que a gente vê muita roupa bonita, mas vê pouco desfile bom“, me explicou Vivi. “Por mais que o sistema tenha mudado, tem certas coisas que, olhando para trás, não dá para negar que eram muito mais interessantes”.

Veja também

Para exemplificar, ela falava de Alexander McQueen e John Galliano. Basicamente, estilistas que não pensavam só na roupa que ia chegar na loja na hora de montar uma apresentação. Um dos desfiles mais impactantes que já assisti, inclusive, era o verão 2003 do Galliano. Hoje, possivelmente, ele acenderia debates inflamados a respeito de apropriação cultural. Na época, viram como homenagem à cultura indiana. O fato é que o espetáculo em questão era visto pelo estilista natural de Gibraltar como a possibilidade de mostrar toda extensão da sua capacidade criativa e técnica. Foi um choque. Moda de tirar o fôlego, de fazer chorar. Ninguém necessariamente iria vestir aquilo, mas esse — como vimos — nem era o intuito.

Maison Margiela

 (Maison Margiela/Divulgação)

O desfile tinha uma magia que, hoje, encontramos com mais raridade e, na maioria das vezes, pelas mãos daqueles que já inscreveram seu nome na história da moda. Foi exatamente isso o que aconteceu durante a temporada de moda masculina de Paris quando a Maison Margiela de John Galliano decidiu dar um passo a mais ao estrear a sua linha Artisanal (sob medida, feito à mão, tipo Alta-Costura) para meninos. Coisa que nunca tínhamos visto. Pelo menos, não desse jeito.

Eu estava bem tranquilo em casa, não tinha nada para fazer, abri o YouTube despretensiosamente e dei play no vídeo do desfile. De cara, já tomei um susto quando apareceu “Artisanal” no primeiro frame. Pensei comigo: “Galliano não dorme, mesmo”. Depois, fui descobrir o motivo da nova investida. E descobri do jeito mais divertido possível: não é que ele fez um podcast explicando todo o processo criativo por trás da coleção? Recomendo fortemente, vale muito a pena ouvir cada detalhe do que ele tem a dizer. Um aulão daqueles.

Para entender essa magia, vamos do começo. Existe uma diferença no modus operandi da moda feminina e da moda masculina. Em tempos meio “genderless” como os nossos, essas coisas fazem menos sentido, mas ainda assim, não são absolutamente descartáveis. Afinal de contas, o mercado ainda não abraçou 100% essa novidade. De qualquer forma, a moda feminina (principalmente quando se fala de desfile) sempre se permitiu trabalhar com uma gama maior de possibilidades em roupa e, por isso, acabou se tornando muito mais interessante: combina mais símbolos, constrói mais conceitos, desafia mais o olhar. A moda masculina, por sua vez, se restringe a um guarda-roupa nem tão complexo e que, por medidas mercadológicas, nem se propõe a grandes ousadias. (Talvez por isso, ela tenha conquistado tanta gente nos últimos anos. Mas, isso é assunto para outro texto).

Maison Margiela

 (Maison Margiela/Divulgação)

A proposta de John Galliano nesse desfile da Margiela é exatamente a de aplicar o modus operandi da moda feminina, na moda masculina. Como? Pelo corte em viés, ou seja, pela estrutura. “É um tipo de roupa que estou querendo explorar faz tempo. Talvez a ideia seja a de reconstruir o que é a masculinidade através do corte”, revela no podcast. Essa técnica — que trata-se de cortar o tecido no sentido diagonal da trama — aflora uma elasticidade natural dos materiais. Em geral, ele é muito usado para criar vestidos de cetim. Nas mãos de Galliano, ela serve para fazer alfaiataria. “É divertido porque cada tecido responde de uma maneira. É um diálogo que demanda atenção e intuição. Não existe um livro, por exemplo, que catalogue o resultado de experiências como essa no qual poderíamos nos basear.”

“Essa elasticidade natural é a coisa mais moderna que um garoto pode usar atualmente”, diz sem medo do statement. Não sou eu quem vai discordar. Eu acredito que é precisamente essa postura — de adaptar uma técnica da moda feminina para a masculina — que legitima a visão “genderless” de Galliano. Ao contrário de boa parte dos estilistas que se aventuram por esse universo, ele não está simplesmente fazendo um vestido para meninos. Ele está repensando a roupa desde sua base. O resultado parece natural, nada forçado. É uma moda que dos pés à cabeça e do avesso para fora concorda com sua nova visão de sensualidade.

E é aí que entra a sua humildade. Se na técnica e na elaboração dos símbolos, o couturier não tem vergonha de assegurar o seu talento, essa noção de um mundo com menos definições categóricas entre homem e mulher, formal e informal, rua e baile, vem do contato com as novas gerações. “Enquanto o casamento gay é um acontecimento histórico para nós, ele é coisa do passado para os millennials. A maneira como eles enxergam o mundo é completamente diferente. Não dá para acompanhar, mas acho que a gente nem precisa, não é? O que eu faço é conversar diariamente com os estagiários incríveis que temos no nosso ateliê. Eu sou obcecado pela cabeça deles e eles são obcecados pelo meu trabalho. É uma troca extraordinária“.

Maison Margiela

 (Maison Margiela/Divulgação)

Acho que o que eu aprendi de mais sagrado com essa coleção é a maneira como o poder se constitui na moda. John Galliano está sempre dialogando — com os tecidos, com as ideias, com seus estagiários, com o mundo da moda — sem deixar de lado a sua pretensão de fazer um trabalho singular. Mesmo sem saber para onde o mundo vai andar, ele sabe que por meio da moda está ajudando a definir um caminho que, sem dúvida, aponta para a mudança, para o novo e não para o retrocesso.

Como em Esperando Godot (1952) — peça do irlandês Samuel Beckett em que os personagens da trama sentam e aguardam a chegada de um terceiro que nunca vem enquanto conversam sem parar — Galliano, na Margiela, continua conversando obsessivamente com tudo o que está a sua volta. Afinal de contas, a linguagem é uma das maiores ferramentas de poder a favor da humanidade na nossa eterna briga contra a realidade e na busca de sentido na vida. Eu também estou na peça: escrevo sobre Galliano, mas sigo esperando, esperando, esperando que alguém retome as lições que já aprendemos com ele para seguir rumo a um futuro que seja mais humano, verdadeiro e volátil como um bom desfile e não tão robótico e triste como uma série de roupas em movimento.

Comentários
Deixe um comentário

Olá, ( log out )

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s