O primeiro passo se chama Miuccia Prada

Se o mundo da moda te parece confuso, dedique-se a entender a obra da italiana. Depois dela, eu prometo, tudo fica mais simples.

Nos anos 2000, eu era um adolescente obcecado por moda. Como tal, (in)felizmente, tive dezenas de blogs para catalogar meus pensamentos a respeito dos desfiles que, ao meu olhar, se destacavam — seja para o bem ou para o mal. Tinha ânsia de ir para São Paulo, começar a faculdade e um dia me tornar crítico de moda como meus ídolos na época: Cathy Horyn, Suzy Menkes e toda a turma que soltava o verbo sem medo em seus textos. Conferia as fotos de todos (ou da maioria) dos desfiles e lia as resenhas como quem quer entender os critérios de cada argumento dos autores. Na lista de melhores da temporada de 10 entre 10 sites de moda, lá estava a Prada. Para mim ainda como um mistério, mas sempre no topo. Hoje, com o mistério desvendado, estou estreando essa coluna na ELLE para recuperar a sensação do primeiro amor à moda e compartilhar esse sentimento com quem estiver aberto para isso.

Leia mais: A “obsessão pelo corpo” pauta o trabalho de Miuccia Prada agora

Naquele momento, entre as minhas análises pouco elaboradas, cheguei à conclusão de que a moda tinha desejos antagônicos. Que os estilistas, de certa forma, eram até injustiçados pela crítica. A roupa tinha que ser usável e conceitual, desafiadora e prática, artística e comercial… Diziam que o belga Dries Van Noten sabia fazer isso muito bem. Quem duvida pode ler também a coluna de Vivian Whiteman – nossa editora-sênior de reportagem de moda – na edição de abril da ELLE Brasil. Porém, ao que tudo indicava, Miuccia Prada parecia ser a grande mestre no assunto. Eu olhava para aquilo e me perguntava: por quê?

Prada Inverno 2017

Inverno 2017 (FOTOSITE/Agência Fotosite)

Motivado pelos não-saberes, fui atrás da história da marca. Descobri então que o avô de Miuccia se chamava Mario e que o italiano foi o fundador de uma empresa especializada em bolsas e outros acessórios de couro – bem como pede a cultura do Made in Italy. Muito tempo depois, sua neta – apelidada de Miu Miu pelos seus familiares – com todo um jeitinho rebelde inconformada (exatamente como eu na época dessa pesquisa) tomou as rédeas do negócio e o transformou num império do prêt-à-porter. Isso tudo com um background, de certa forma, contraditório: Miuccia era comunista, feminista e tinha se formado em Ciências Sociais, em Milão.

Nos almoços de família, esse era um questionamento constante dos meus parentes: “Como você pode ser de esquerda se você gosta de moda?”. Assim, imediatamente, qualquer opinião que eu tivesse a respeito de política ou outro “assunto sério” era desvalidado. O pior era que nem eu mesmo entendia como uma coisa poderia casar com a outra. Ficava mudo, mas continuava assistindo aos desfiles da Prada para ver como a diretora criativa (e CEO) da casa trabalhava essa suposta ambiguidade.

O primeiro deles que realmente me marcou – aliás, marcou o mundo ao ser recordista de capas de revistas ao redor do globo naquela temporada – foi o verão 2011. De cara, o primeiro look já me deixou 100% no mood “WTF?”. Uma roupa que parecia fazer uma releitura dos jalecos hospitalares, tão banal, laranja, combinada com acessórios – estes, sim – completamente fora do comum: um sapato híbrido de couro, corda e tênis, e um óculos com adornos barrocos desenhados de maneira gráfica e colorida. Interessante, mas, à primeira vista, não tinha a loucura de um Alexander McQueen, o drama de um John Galliano, a abstração de uma Rei Kawakubo na Comme des Garçons. Havia ali uma roupa, não uma obra de arte. No limite, esquisita.

As pessoas assistem ao O Diabo Veste Prada (2006) e, assim como eu, imaginam que Miuccia cria roupas cheias de glamour como as usadas pela personagem de Meryl Streep na trama: a editora dominatrix Miranda Priestly que, ao sair do carro, na sua primeira aparição no filme, deixa aparecer o logo da grife inscrito em sua bolsa imponente.

Há, sim, poder nas peças da Prada. Mas, o segredo – fui descobrir mais tardiamente – é a maneira como esse poder é construído. E, quando aprendi, logo escrevi um texto meio bobo, mas muito sincero no meu blog, cujo título era “Miuccia Prada é a melhor estilista do mundo”.

Para começar a falar desse processo criativo, é preciso entender a maneira como a estilista se relaciona com aquilo que está cristalizado na sociedade enquanto “feio”. Se para os meros mortais que somos o termo tem uma conotação negativa, para Miuccia, ele se apresenta como um universo a ser explorado – como a possibilidade, na verdade, de rever o belo e encontrar o mesmo valor que ele tem em outras esferas menos convencionais. “Por definição, o ‘bom gosto’ é um péssimo gosto. Eu tenho, inclusive, um desrespeito saudável por esses preceitos. (…) No fim das contas, o feio é mais humano. Ele toca no lado mau e sujo das pessoas. Isso pode até parecer uma loucura quando se fala de moda, mas em outros ramos da cultura, isso é muito comum: nos livros e no cinema, por exemplo, a feiura é amplamente explorada”, disparou em entrevista à T Magazine, revista associada ao jornal The New York Times.

Essa costura entre “o bem e o mal” do guarda-roupa fica mais fácil de entender quando se descobre que, para além de vender bolsas a preços estratosféricos, Miuccia também usa o seu business como uma oportunidade de se autoconhecer. Em outra entrevista, ela explica que os desfiles da Prada são uma representação de quem ela é em dado momento da vida. Isso posto, é de se esperar que alguém com um perfil tão complexo não seja capaz de se resumir a uma série de vestidos enviesados (peça que ela detesta), ou a qualquer representação clássica da beleza burguesa.

Prada Verao 2018

Verao 2018 (FOTOSITE/Agência Fotosite)

Além disso, nos abrimos também para a possibilidade da mudança. Ninguém continua o mesmo para o resto da vida. Há quem insista em não se transformar, há quem tente manter a mesma personalidade para sempre, mas a visita do tempo não é só cruel, é também inevitável. Na passarela da Prada, uma Miuccia consciente disso se permite viradas radicais entre uma temporada e outra. Assim como reconhece as continuidades, aquilo que permanece, que ainda não precisa ir embora. Tudo com a destreza de quem sabe que mudar de opinião, sair da caixinha, reformar-se não é deixar de ser quem se é, mas sim reafirmar a sua humanidade.

A estratégia

Ainda nessa entrevista para a T Magazine, o jornalista na ocasião pergunta para Miuccia qual é a razão dela não colocar mulheres mais velhas na passarela. O questionamento vem logo depois da estilista afirmar que a relação da sociedade com a velhice ainda vai mudar muito e que é isso que vai definir as pautas de comportamento do futuro. “Digamos que eu não seja corajosa o suficiente para isso”, responde com a mesma ironia fina que permeia seus desfiles.

Conforme o bate-papo se desenrola, o que se percebe é que Miuccia quer atingir o maior número de pessoas possível com suas criações. Ela tem algo a dizer e quer ser ouvida. “Ninguém te escuta se você não gritar”, explica. Para isso, ela opta por seguir algumas regras do jogo. Afinal de contas, como o próprio jornalista aponta, caso ela fizesse isso, todos os outros designers correriam atrás da líder.

Se por um lado essa atitude não é ideal quando se fala de representatividade, é dessa validação que uma experiência tão peculiar como a de seus desfiles precisa. Do contrário, ela seria colocada como “a esquisita”, “a maluca”, como é comum às mentes estreitas rotular as mulheres geniais que propõem ideias expansivas. É o “feminismo de trincheira”, como aprendemos com Mirian Bottan no especial Body Neutrality: a noção de que o contexto ou a maneira como uma mensagem revolucionária é passada pode definir o seu efeito na sociedade.

É uma escolha. Que, inclusive, está aí para ser criticada como qualquer outra. Mas, o que não se pode negar é que entender a lógica de Miuccia é saber que abrir-se para a experiência do humano é prioridade, que o feio tem seu espaço no mundo, que a mudança é quase sempre bem-vinda e que para se fazer claro é preciso ter jogo de cintura. Um primeiro passo perfeito para mergulhar na moda e ama-la verdadeiramente.

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