Sim, Janelle Monáe está usando uma calça de vagina. Não, isso não é vulgar

Você se sentiu desconfortável assistindo ao clipe de PYNK, da Janelle Monaé?

Minha quarta-feira da semana passada foi embalada por “PYNK“, novo single da Janelle Monaé, que junto com “Make Me Fell” (a outra música que já foi divulgada do seu próximo álbum), conseguiu animar meu caminho rumo ao trabalho. Queria que as pessoas se sentissem mais alegres no meio da semana assim como eu estava me sentindo, então escolhi que o primeiro post do nosso Instagram naquele dia seria um pedacinho do clipe de PYNK, que havia sido divulgado na terça depois de muita expectativa, principalmente por Janelle ser uma artista excepcional. Um vídeo lindo, em tons de rosa, dirigido por uma garota, com várias mulheres dançando e se divertindo. Me lembrou eu e minhas amigas na adolescência quando a gente se encontrava na casa uma da outra para ficar conversando, ouvindo música, dançando e provando combinações de roupas meio loucas. Na minha cabeça, não tinha como ser melhor.

Mas os comentários chegaram e alguns deles abriram meus olhos para algo que hoje me entusiasma e não mais me repele. Janelle e sua dançarinas estavam usando uma calça que representava uma vagina.

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“Por que fazer isso?”, questionaram algumas pessoas. Fiquei com vontade de responder ali na hora a minha visão sobre o assunto. Os caracteres do Instagram, no entanto, não iam comportar tudo o que eu tinha para falar, e daí veio a ideia de criar esta coluna. Um canal de comunicação para debatermos com mais calma o que está rolando nas nossas redes sociais — uma forma de nos afastarmos também daquele ímpeto de agressividade pelo qual somos dominados muitas vezes nas seções de comentários na internet.

Para começar, então, proponho voltarmos à pergunta: “Por que fazer isso?“. Acredito que primeiramente podemos chegar a um ponto comum nesse debate: o corpo feminino em comparação ao corpo masculino continua sendo um tabu. Vamos refletir rapidamente aqui. Já pararam para pensar que ao passo que homens são induzidos a louvarem o tamanho de seus órgãos genitais desde pequenos, as mulheres, por sua vez, são aconselhadas a esconderem até o mais natural dos fenômenos de seus corpos, a menstruação? (Isso sem nem trazer ao debate que, para mulheres, usar roupas curtas ou decotadas é visto como um erro tão grande que muitas vezes é usado até como justificativa para assédio). Se em um mundo ideal, esses assuntos seriam tratados de forma espontânea, sem que fossemos validados por qualquer característica dos nossos corpos, estamos em 2018, e infelizmente ainda não chegamos lá. E já que eu não consigo pensar em uma forma mais eficiente de se eliminar o tabu de algo a não ser falando sobre ele, vamos conversar sobre o corpo feminino.

Mas continuemos nos questionando — isso também é um exercício para mim. Por que fazer isso? Por que queremos tirar o tabu do corpo feminino? Quando entrevistei uma garota espanhola chamada María Rufilanchas, criadora de um projeto sobre amamentação em lugares públicos chamado Teta & Teta, que também questiona a censura de mamilos femininos nas redes sociais e faz camisetas divertidas com seios desenhados, ela me deu uma pista. “Nos conectarmos com a nossa anatomia é importante para nos libertarmos. Libertar o mamilo também significa a libertação de crenças, complexos e pressões por causa de estereótipos de beleza. Você deixa de resistir ao seu corpo, de querer mudá-lo, e passa a gostar dele. Começa libertando o mamilo e acaba se libertando”. Sim, sim, sim!

Vou admitir que, no começo, ver camisetas com ovários, úteros e mamilos desenhados também me causava desconforto — imagine então uma calça gigante em formato de vagina. Foi só quando percebi que esse desconforto estava conectado a tantas outras inseguranças sobre meu corpo que as coisas começaram a se desenrolar. E devo dizer que eu até comecei a enxergar beleza nesses desenhos. Ainda mais quando lembro que graças a esses órgãos muitas mulheres são capazes de gerar novas vidas, e que eles não as fazem mais fracas ou incapazes, mas também fortes.

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Um ps: essa conversa me trouxe à cabeça uma cena da série Anne With An E, da Netflix, uma adaptação do livro Anne of Green Gables, que mostra uma menina de 13 anos do fim dos anos 1800. No quinto episódio, ela fica menstruada pela primeira vez e enquanto sua tutora tenta acalmá-la, dizendo que isso é algo normal, quando ela chega à escola para contar às suas amigas, ouve frases como “ninguém pode saber, o ciclo menstrual é uma coisa vergonhosa”. “É algo imencionável”. “É um segredo, as coisas são assim e pronto”. “Teve uma menina, anos atrás, cujo sangue vazou atrás do vestido. Eu teria morrido de vergonha”. Estamos nos referindo a 1800, mas aposto que você se identificou com o papo.

Não estou falando aqui que já cheguei a um ponto de desconstrução total em que se minha roupa manchasse de sangue eu ficaria tranquila e feliz. Mas o trauma e a vergonha que isso traria para minha vida é totalmente desproporcional. E essa vergonha do natural do nosso corpo, como apontou María, traz muitas desconexões. Faz com que não nos conheçamos, não conversemos com outras mulheres sobre nossos corpos, e absorvamos passivamente o que nos é passado pela mídia no geral: um único tipo de corpo, com peitos empinados e parecidos, barrigas negativas e menstruações com líquidos azuis. Se apenas esse tipo de imagem nos é passada, como fazer para não odiar esse corpo que, vez ou outra, nos permitimos ver refletido no espelho?

Por isso, finalmente, e voltando para Janelle, é tão legal ver clipes como o dela — e iniciativas como a Teta & Teta, comerciais de tevê que mostram um líquido vermelho, e até aquela polêmica galeria de vaginas, que serve como uma resistência ao aumento de cirurgias íntimas femininas que são feitas esteticamente. No vídeo, há ainda calcinhas em que os pelos das meninas aparecem, escritos como “I Grab Back” e boas doses de humor em um clima 100% female gaze (para quem não está familiarizada, o termo significa algo como um olhar feminino sobre as mulheres, em contraponto ao olhar masculino que objetifica e que é muito usado em publicidades). Afinal, o vídeo foi dirigido por uma garota, a Emma Westenberg. Tudo isso, é claro, para fazer jus à música, que é uma celebração do “pussy power” de uma forma diversa, como a própria Janelle falou, “tendo você uma vagina ou não”, em referência às mulheres trans (no clipe há diversos tipos de calças e dançarinas sem elas também). No fim, é uma homenagem ao amor entre garotas, de todas as formas existentes.

Janelle, de fato, não é uma artista que gosta de ficar na zona de conforto, e sua trajetória visual em clipes e até em escolhas no tapete vermelho provam isso. Ao decidir falar do feminino nesta música já imaginávamos que ela não cairia no lugar comum. A letra é sutil, com diversas frases de duplo significado. O vídeo, por sua vez, é explícito, mas ainda assim muito, muito delicado. Por isso, achei estranho ver comentários que apontavam que ele era vulgar, menor, e que ao postá-lo estaríamos deixando os cérebros de lado como mulheres. Que “aquilo era nojento já que existem mulheres poderosíssimas que se cobrem dos pés à cabeça”. E sim, isso é absolutamente possível. Assim como é possível unir as duas coisas. Assim como é possível só mostrar o corpo e também ser respeitada. E também é possível, por fim, parar de se sentir desconfortável vendo mulheres falando sobre seus corpos. Afinal, ao atacar Janelle não estamos, no fundo, nos atacando?

Que deixemos de enxergar esse movimento como algo vulgar e que isso melhore a relação que temos com nossos corpos. Se no começo nos perguntamos “Por que fazer isso?”, termino com um: “Por que não fazer isso?”.

Os caracteres do Instagram realmente não dariam conta, né? Espero ter aberto o debate depois desse longo textão, e me contem o que vocês acharam do clipe nos comentários ou até por inbox no Instagram: @nathalialevy.

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