A última coleção de Raf Simons é um voto de simpatia aos jovens

"Juventude em Movimento" fala sobre drogas e escapismo.

Poucos estilistas se arriscariam hoje em dia a fazer uma coleção sobre drogas. Raf Simons fez. Em sua marca própria, o designer resgatou dois livros: Eu, Christiane F., 13 Anos, Drogada e Prostituída, no qual foi inspirado o filme Christiane F., e Drugs, peça tragicômica cujo casal de protagonistas se envolve com uma série de drogas, criada por Cookie Miller e Glenn O’Brien na década de 1980, mas que teve sua primeira impressão em 2016.

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Se o trabalho de Raf tem sido considerado um dos mais importantes da atualidade, a inteligência desse desfile também coloca seu olhar entre os mais sensíveis. O que ele faz com o tema é realmente algo raro.

Nos anos 1990, a moda, de forma absolutamente irresponsável, perversa e cruel, fez do heroin chic uma espécie de culto fashionista à heroína, fazendo uso de referências de glamour bastante focadas na magreza, nas noitadas e nos excessos.

Por outro lado, os moralistas e suas cruzadas contra as drogas colecionam mais de um século de fracasso sem nenhuma autocrítica (não confundi-los com os que de fato ajudam pessoas a superar vícios nem com os que lutam de verdade para equacionar a questão no âmbito político-social). Em paralelo, usam a figura do usuário que deve ser salvo para empreender avanços repressivos e militarizados com uma agenda bastante controversa.

Raf Simons Desfile masculino Nova York

 (Fotosite/Agência Fotosite)

Raf escapa dessa escolha empobrecida. Seu desfile contempla os evidentes atrativos das drogas, sua capacidade de criar prazer e ilusões. Também fala do perigo dos excessos e da fuga, da ruína e até da morte – os livros que escolheu são conhecidos por abordar abertamente a gravidade dessas questões. E o estilista segue sem cair no melodrama moral.

O cenário é montado como um banquete com uvas, romãs, vinho e queijos, como um quadro de natureza-morta (ele lembra também um dos piqueniques em frente ao túmulo de Jim Morrisson em Paris). Os convidados são chamados a comer e beber o que já cobiçavam com os olhos. Está no ar a ideia de satisfazer os sentidos, de encontrar o prazer.

As luzes são de pista, referência aos clubs e raves, sempre tão ligados ao consumo de químicos. As drogas ilícitas, aliás, levam toda a fama, mas a compulsão alimentar e o vício em álcool e em remédios de farmácia causam juntos um número alarmante de problemas de saúde e mesmo de mortes.

Raf trabalha com o elementos de repetição e acumulação nos looks. O discurso da roupa, assim como algumas alucinações químicas, é fragmentado. Uma blusa vista talvez num flash é registrada apenas como uma gola com tecido pendurada no pescoço. A capa do livro Drugs vira uma espécie de hoodie-abadá, como se o usuário fosse um homem-placa da droga que consome, reduzido em sua humanidade e complexidade.

Por outro lado, cria uma estampa com o rosto de Christiane F. no filme e patches com nomes de drogas. Interessante ver como elas aparecem como bolsos, na altura do estômago, em cachecóis apertados e depois nos joelhos, algo que sugere a dominação.

Raf Simons Desfile masculino Nova York

 (Fotosite/Agência Fotosite)

O que em outras mãos poderia ser uma apologia desonesta, no olhar de Raf fala sobre apetites humanos, dor, fervo, escapismo e juventude. Fala também da hipocrisia dos adultos e seu mundo triste, seu discurso derrotista e suas exigências de que a juventude escute tudo isso, lide com essa realidade cruel e ainda encare a vida com obediência, otimismo e submissão às normas. Ironicamente, as drogas, mesmo que pela porta dos fundos, são uma das poucas promessas de satisfação, mesmo que momentânea, oferecidas por esse mundo “dono da verdade”.

A coleção, que se chama Juventude em Movimento, e o desfile de Raf não são uma ode às drogas nem um marketing vazio, como alguns apontaram. São antes um alerta combinado a um bonito voto de simpatia aos jovens e aos seus legítimos desejos por diversão, paixão e transcendência.

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