Abra suas asas, solte a sua Donatella!

Em tempos confusos, o minimalismo higienista perde o status e dá espaço para o exagero acolhedor de uma boa Medusa dourada.

O tempo do exagero está de volta. Maximalismo para todos, depois de anos de  doutrinação minimalista – não a de simplicidade comunitária, mas a que ostenta sucesso e muito dinheiro em ambientes assépticos, looks monásticos e objetos simplesmente caríssimos. Nada contra a linda e criativa moda minimalista dos belgas, dos japonistas (esses gênios do estilo, que sabem ser máxi e minimal ao mesmo tempo). Muito menos contra a praticidade dos clássicos. Mas o ranço contra a estética da superioridade representada por esse “simplezinho” do truque e pelo purismo de vitrine está por toda parte.

Leia mais: Donatella Versace: “não quero matar animais para fazer moda”

E das cinzas do cinza emerge com força um retorno de casas como a Versace, home da Medusa e de Donatella, herdeira artística e de business do império fashion deixado por seu irmão Gianni. Em uma mágica feita pelos magos da TV, ela aparece novamente jovem, ocupando o corpo de Penélope Cruz na nova temporada de American Crime Story. Sua figura platinada e fashionista deixa em segundo plano a trama que conta o trágico assassinato do estilista.

american-crime-story-donatella-versace-penelope-cruz Impossível não se impressionar com o sotaque italiano criado pela atriz espanhola Penélope Cruz para dar vida a sua Donatella Versace na série.

Impossível não se impressionar com o sotaque italiano criado pela atriz espanhola Penélope Cruz para dar vida a sua Donatella Versace na série. (FX/Divulgação)

A nova e a velha Donatella, fake e real, tomaram as redes, juntas, separadas, inseridas em memes que misturam ficção e realidade, passado e presente. O meme, essa linguagem que ganhou a internet, mas não se resume a ela, trabalha de fato com dois elementos: repetição e mutação. Está aí talvez uma de suas grandes semelhanças com a moda.

Para que um meme funcione, ele precisa se repetir e, no caminho, ser modificado. Uma mesma imagem com diferentes frases de efeito, por exemplo, ou então uma mesma tirada aplicada a diferentes fotos. A chave está no reconhecimento: o meme muda e se transforma, recorre à repetição, escala em exageros, mas conserva algo que o faz ser reconhecido sempre.

Versace Supermodels reunidas no desfile-tributo da Versace à Gianni no verão 2018.

Supermodels reunidas no desfile-tributo da Versace à Gianni no verão 2018. (FOTOSITE/Agência Fotosite)

Assim, o novo maximalismo (como a maioria dos “novos” quando se trata de tendências) é um pouco antigo. É repetido. E também sofreu mutações. Mas dentro de sua estrutura específica comunica algo dito aqui e agora. Algo que faz sentido nesse momento.

O meme não é só aquele com imagens. Pode ser um som, como uma série de áudios que viralizaram com brasileiras falando um italiano divertido e exagerado. A Itália dos Versace, aliás, é também divertida e exagerada. O mesmo exagero maximalista está na Gucci, por exemplo, embora com outro mood (assim como dentro da própria Gucci ele esteve presente de diferentes maneiras nos trabalhos de Tom Ford e Frida Giannini, antes de Alessandro Michele). Como se esse aspecto do estilo italiano fosse o coração de um mesmo meme que se reafirma em suas diversas encarnações e cópias.

versace Anúncio vintage da Versace.

Anúncio vintage da Versace. (Versace/Divulgação)

O minimalismo de vitrine fala de uma utopia de simplicidade enquanto a destrói. A pureza de formas e a beleza de uma vida de medidas mais justas, nesse contexto, parece ter o efeito contrário do desejado. Em vez de comunicar desapego, soa arrogante. Quem sabe em sua próxima encarnação o meme minimal reapareça melhorado e mais conectado à sua origem.

Já o maximalismo, embora associado a uma ideia de consumo e desperdício, parece mais alinhado com a realidade. O maximalismo, embora atualmente seja mais contido, é confuso como estamos. Encontra certa harmonia caótica, mas não esconde sua dificuldade em balancear elementos. É desigual, valoriza muito os enfeites, tem problemas com a discrição, muitas vezes desafia a elegância-padrão.

Mas existe nele algo de otimista, de democrático e de acolhedor. O maximalismo pelo menos não se faz de limpinho, superior e inocente, enquanto se alimenta dos venenos do mundo. E, análises à parte, ele é bem mais divertido. Libere as onças, os brilhos e a montação sem medo de errar. The heat is on, amica mia. Pelo menos até o próximo fashion meme estourar.

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