Beychella: looks, enigmas, causas e closes no show do ano

Fizemos um guia de roupas e simbologias pra você mergulhar mais fundo no show de Beyoncé no Coachella.

A essa altura você já deve ter visto uma série de fotos e lido uma penca de textos sobre a monumental apresentação de Beyoncé no Coachella. E provavelmente já sabe que o show foi uma grande celebração da cultura negra, que teve Jay-Z, Solange e surra de hits com as Destiny´s  Child reunidas. Na verdade, foi mais do que isso. Foi um grande afronte artístico à história segregacionista dos Estados Unidos e de seus braços que ainda seguem ativos e mortais. Bey apoia movimentos como o Black Lives Matter e, com sua música, não tem deixado margem para que ninguém se faça de desentendido sobre sua mensagem. Lemonade está aí para bater o martelo quanto a isso.

Mas a apresentação foi tão cheia de detalhes e imagens que merece uma leitura visual, como se fosse um grande desfile musical. Para além de dar os parabéns a Olivier Rousteing, da Balmain, que assinou o figurino, vamos dar uma olhada em tudo:

1. A entrada: Queen Bey e a banda da Esfinge

Beyoncé no Coachella 2018

 (Larry Busacca/Getty Images)

Para começar, vamos pensar em duas referências históricas que estão em jogo na primeira parte do show: a cultura egípcia e a Greek Letter Organization, sistema de fraternidades e sororidades das universidades americanas, identificados pelas letras e símbolos gregos. Completando o pacote, evidentemente, está a cultura afrodescendente nos EUA. O tambor de uma banda marcial tocado por uma mulher negra começa o espetáculo. Membros da banda levantam bandeiras revelando mulheres vestidas de esfinge e boinas Black Panther, que se deslocam uma a uma para revelar a rainha. Vestida com uma capa longa, brincos e chapéu, Beyoncé encarna uma versão moderna da rainha egípcia Nefertiti. Nas costas da capa dourada e preta está bordado um busto de Nefertiti, e as inicias BAK, em que o A está desenhado como a letra grega Delta. 

  • Nefertiti – a rainha egípcia que junto com o marido estabeleceu um culto único ao Sol, e, em seu mito de poder, era tida como aquela capaz de garantir que o disco solar desaparecesse e retornasse todos os dias. Ainda na primeira porção do show o disco solar aparecerá atrás da arquibancada, só que durante um eclipse.
  • Fraternidades “gregas” – Tudo é organizado como uma festa das fraternidades gregas formadas nas grandes universidades americanas, que começaram como sociedades secretas entre os alunos. Bey se refere nesse caso às HBCUs, liga de faculdades e universidades negras, formadas no período de segregação, quando pessoas eram barradas nas seleções tão somente por não serem brancas.
  • Movimento – Preto e dourado, talvez não por coincidência, era as cores da Alpha Phi Alpha, primeira fraternidade intercolegial do sistema grego criada por homens negros, em 1906. Por ela, passaram nomes como Martin Luther King, W.E.B. Dubois e Duke Ellington. O símbolo do grupo era a esfinge de Gizé.

A referência aos Panteras Negras também não deve ficar de lado: na década de 70, o Partido criou a Intercomunal Youth Institute, uma escola para crianças que não só lutava contra a evasão escolar, bem maior entre as famílias negras, como abrigava filhos de militantes que já não encontravam mais segurança em suas casas por conta das investidas da polícia. O projeto de educação era uma das bases sólidas do movimento negro nos EUA.

2. Squad em formação: o enigma

Beyoncé no Coachella 2018

 (Larry Busacca/Getty Images)

Na primeira troca de roupa Beyoncé reaparece de shorts jeans, moletom e botas de plumas (feitas sob medida por Christian Louboutin). Se antes era a esfinge egípcia, talvez agora a ref seja a esfinge grega, que tinha rosto de mulher, pernas de leão e asas. Enquanto a egípcia estava ligada aos ritos do sol, a grega é aquela famosa que lançava enigmas mortais e que foi derrotada por Édipo. Muita informação? Na Beyuniversity é assim, mores, o giz canta no quadro negro e as refs não param de chegar.

O look da banda marcial troca o dourado pelo amarelo e preto, com as boinas.

As bailarinas, a dança, a libertação dos corpos fica muito evidente em toda a linguagem visual. Mas a arquibancada organizada, obviamente, também fala de conjunto, de esforço comum. Em determinado momento ela pergunta: “Ladies, have we had enough?”. Seria esse o enigma da esfinge? Um deles, certamente.

Bey se refere a todas as mulheres, mas o contexto, do show e do mundo, direciona essa pergunta à situação das mulheres negras. As coisas melhoraram nos últimos, o movimento feminista que inclui, ouve e reconhece o protagonismo necessário da mulher negra nas discussões está mais forte. Mas o suficiente? Tudo indica que não. Por outro lado, não é verdade indiscutível de que o sofrimento já passou de qualquer conta? “The most disrespected person in America is the black woman. The most unprotected person in America is the black woman. The most neglected person in America is the black woman.” A fala é de Malcom X, está em Lemonade e também no show do Coachella.

3. A Paixão segundo Beyoncé Knowles (- Carter)

A inteligência desse show está muito no fato de ele ser um jogo de analogias, não um panfleto raso. Beyoncé consegue buscar ligação entre o pessoal e o coletivo, desliza em seus deslocamentos, não quer uma tese fechada e impenetrável às particularidades de sua história pessoal. Em Drunk in Love ela sobe numa plataforma e flutua acima da platéia. Pensar que ali de cima ela fala como rainha não só é errado nesse caso como deixa escapar o brilho do momento: essa passagem anuncia exatamente a porção do show em que Bey é mais Beyoncé Giselle, filha de seus pais, mulher de Jay-Z, irmã de Solange, amiga de Kelly e Michelle.

When I think more than I want to think  Do things I never should doI drink much more that I ought to drink Because It brings me back you

Canta Nina Simone em um trechinho de Lilac Wine. Bey aparece deitada na arquibancada. Alguns bailarinos sem camisa também. Eles usam calças de plástico preto, bandanas gangsta, tem algo de fúnebre na cena toda. Vaidades, violência, autodepreciação, relações destrutivas, amor misturado com preconceito, coisas que derrubam.

Em Don´t Hurt Yourself Bey também está vestindo preto, um collant com um casaco preto por cima, na mesma textura plástica. Ela rasgou a mortalha, escapou da cena do crime e sobreviveu, contrariando as estatísticas.

Por baixo do casaquinho, o collant tem mangas de uniforme, conectadas ao design do casaco da banda marcial. Ela sobreviveu, mas não foi sozinha. Ela tem uma formação, com tudo que isso pode significar. Família, raízes, amigos, educação, carreira, causa política, amor. Sim, porque amor também é coisa que se aprende. Jay-Z canta Deja Vu com ela: com sua bomber college parece um namorado apaixonado perto dela. Apesar dos tropeços (nas pedras jogadas pelo próprio criador da Roc-A-fella e pelas estruturas), eles escolheram ficar juntos.

 4. Support your local girl gang

Com o refrão levanta-multidão de Girls! as bailarinas retornam com um extra no look: camisetas verde-militar bem rasgadas. Bey vai voltar também com seu look brilhante camuflado.  Talvez alguém se pergunte: mas isso não passa uma mensagem violenta?

Bem, os Panteras Negras surgiram como movimento de auto-defesa. Sim, porque os negros americanos eram (ainda são, junto com os hispânicos) as maiores vítimas de assassinatos por armas de fogo. Já que o porte de armas era, e em grande parte ainda é, considerado uma das bases da liberdade individual na sociedade americana, eles resolveram se armar e guardar lugares violentos onde o Estado não fazia a menor questão de atuar, deixando a população negra totalmente desamparada.  Na sequência, uma série de movimentos anti-armamentos começaram a atacá-los, acusá-los de incitar violência. Procure na web ou na Netflix documentários sobre o tema, que hoje em dia é amplamente estudado.

Nos últimos anos, aliás, movimentos como o Black Lives Matter trouxeram de volta essa reflexão. Enquanto Trump exalta a sanha armamentista, um grande número de pessoas negras e DESARMADAS foram assassinadas, muitas delas pela polícia. O motivo? Os policiais “acharam” que elas estivessem armadas. Mas andar armado não é um direito amplo nos EUA? Então porque pessoas brancas armadas são capazes de entrar em escolas e promover massacres enquanto pessoas negras desarmadas são mortas em seus próprios jardins por engano? Em 2016, por conta dos casos de Philando Castile e Alton Sterling, Bey escreveu uma carta aberta à polícia, na qual reproduzia o coro “stop killing us” e falava sobre impunidade. Ela também usou seus shows para prestar tributo a mortos nesse tipo de situação.

Bey, é claro, não está defendendo nenhum tipo de violência. Mas está dizendo que existe um “exército” de pessoas que não estão mais dispostas a aceitar as mortes causadas pelo racismo

Em um discurso corporal poderoso, ela e sua irmã Solange, aquela de letras maravilhosas como Cranes in the Sky, aquela que diz Don´t Touch my Hair e que tem uma fala firme, dançam Get me Bodied. Uma música sobre sexo, sobre beleza, sobre estar viva e aproveitar. “Wanna be myself tonight”, unapologetic, como diria Rihanna. Aliás, os posts de Riri na plateia e da cantora Adele assistindo Bey na TV são muito legais.

A gangue não estaria completa sem as Soldier Michelle Williams e Kelly Rowland. As Crianças do Destino reunidas. Vários tiros de hits das Destiny´s Child na sequência. E o retorno da trinca de looks combinando entre si. Unidade de irmandade e unidade visual (mas não roupas idênticas porque, como eu disse antes, há um mix saudável de comum e pessoal).

5. Love on Top

O show ainda teve refs a Fela Kuti, Chimamanda Ngodzie, Bey cantou Lift Every Voice and Sing (chamada de Hino Nacional negro devido à sua história ligada à luta e à libertação dos afro-americanos nos EUA) mixada com sua Freedom.

Evidentemente, foi um show de exaltação da cultura negra da qual Bey faz parte. Um show rico, que nada deixa a dever àqueles de megatours consagradas, de Madonna a Rolling Stones. Não porque seja necessário entrar em piras comparativas, mas porque Beyoncé tem se superado em suas apresentações de forma extraordinária. Desde que vi o show dela no Brasil não me canso de me impressionar com seu profissionalismo, talento, inteligência e beleza.

Aos que acham que o show foi “para negros”, deixo uma provocação. Bom, o show foi feito por uma mulher negra e seu time majoritariamente negro, tratando de problemas e exaltando qualidades em um contexto da vivência negra nos EUA. É claro que a audiência negra tem prioridade. Mas isso não é excludente. Não seria uma grande chance para todos os não-negros aprenderem? Não é interessante ver como ela trata de temas universais a partir dessa experiência? Não é importante ouvir o que ela tem a dizer? Não é maravilhoso ver o quanto ela é artisticamente vitoriosa ao realizar um trabalho criativo dessa maneira? Sim! Os momentos de escuta, em você apenas ouve o que outra pessoa tem a dizer sem poder se identificar pessoalmente ou deslegitimar o que ela diz, não são essenciais para construir diálogos de união verdadeira

Beyoncé termina com Love on Top porque essa é sua mensagem. O amor é importante e está no topo. Os Panteras Negras também lutaram por amor. Amor às suas vidas, às vidas de seus filhos e amigos. As feministas lutam também por amor. Amor à liberdade, à igualdade de direitos que abre tantas portas para momentos alegres. Amor à diversidade, que, afinal, é a base da natureza. Tudo bem organizado e intenso, porque ela é virginiana com Lua em Escorpião, e o amor não é bagunça.

#Beychella

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