Dries Van Noten merece mais atenção do que recebe

Vivian Whiteman explica as razões pelas quais o belga é um dos maiores designers da atualidade. Mesmo que nem todo mundo perceba.

Dries Van Noten não será o nome mais comentado da temporada. Mas deveria. Sua visão de moda, os elementos formadores de seu estilo, de seu trabalho tão singular, estão presentes em tantas coleções e têm influenciado tantos designers que é estranho os fashionistas quase não abordarem o tema.

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Dries é belga e fez parte do lendário grupo Antwerp Six, os Seis de Antuérpia. Um squad de estudantes de moda que saiu de sua cidade com um caminhão cheio de roupas, dirigindo até Londres. Eles ganharam o mundo e apresentaram o design belga às capitais fashionistas antes de Raf Simons e mesmo de Martin Margiela.

dries inverno 2018 Fila final do desfile de inverno 2018 apresentado em Paris por Dries Van Noten.

Fila final do desfile de inverno 2018 apresentado em Paris por Dries Van Noten. (FOTOSITE/Agência Fotosite)

Um recente documentário sobre Dries faz dessa história algo ainda mais interessante. Difícil imaginar o criador regrado, metódico, continuamente envolvido em seu fluxo criativo, em uma aventura. Mas, olhando bem, também esse impulso estava nos planos do designer, talvez como um primeiro risco necessário.

O trabalho de Dries é o clássico que se renova de forma legítima. É o processo vivo num mundo que segue estrangulado pelas ilusões do mecanismo.

O documentário se destaca entre o bacião de títulos da Netflix. É sofisticado e sóbrio, como o próprio Dries. Respeita e consegue transmitir seu tempo e, sua maior qualidade, se demora nos detalhes do dia a dia da criação. Isso inclui pedaços de tecido, desenhos e ideias organizados no chão como um moodboard artístico. Inclui provas constantes, um processo longo e focado de edições. É realmente uma joia de aprendizado e zero preocupada com o hype.

A vida de Dries ecoa seu trabalho, e vice-versa. São como uma grande paixão única. Seu companheiro é também seu colega e sócio de trabalho. Sua casa é decorada e editada como uma coleção. Até seu jardim é uma extensão criativa, com canteiros recortados, formas que se misturam e um olhar extraordinário para a cor.

Todas as roupas híbridas dessa temporada, que misturam uma série de tecidos num look, feito quebra-cabeça, bebem desse trabalho. Natacha Ramsey Levy, da Chloé, também. Assim como seu mentor, Nicolas Ghesquière. Antes deles, lá nos anos 1990, houve Dries. E felizmente ainda há.

O business de Dries Van Noten é um dos últimos independentes do high fashion. E o trabalho que ele pode desenvolver tem tudo a ver com a liberdade e o compromisso consigo mesmo. E ele não opta pelo fácil. Sua pesquisa do kitsch e do cafona, conceitos que não raro são carregados por um olhar ocidental preconceituoso e colonialista, é exemplar. Por meio de seu rigor antropológico, ele descobriu as cores da Índia e seus lindos exageros, tantas vezes caricaturados pela moda. Ele não só desfez essa caricatura como também firmou um pacto com uma equipe de bordado naquele país.

No filme, ele ainda diz que sempre inclui os bordados nas coleções, mesmo quando não estão no centro de seu pensamento, para manter o trabalho dos artesãos. Assim, ele faz de um olhar e de uma parceria humana uma de suas mais conhecidas marcas de estilo.

Dries é ímpar e é coletivo. É a tendência que não é modinha. É o clássico que se renova de forma legítima. Seu trabalho é processo vivo num mundo que segue estrangulado pelas ilusões do mecanismo.

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