Fogo e paixão: siga o cortejo da Gucci entre mortos e vivos

A etiqueta italiana apresentou seu Cruise 2019 em Arles, na França e o luto é o que pauta a coleção.

A cidade francesa de Arles é um lugar de muitas encarnações. Gregos, fenícios e celtas passaram por ali antes que ela fosse anexada ao Império Romano pelo imperador Júlio Cesar. Séculos depois um romano contemporâneo atrai atenções para a cidade, e escolhe um de seus cenários mais interessantes para um desfile bastante especial.

À frente da Gucci, o designer decidiu ambientar sua coleção Cruise 2019 na necrópole chamada Alyscamps.

Do lado de fora dos antigos muros da cidade, o local, assim como toda a região, ela também guarda camadas de história. Tem construções da Idade Média, reparos posteriores e ruínas de sua criação na Antiguidade, com sarcófagos e espaços rituais. Entre os romanos, a cremação era o processo de preferência para lidar com os mortos, de forma que enterros aconteceram ali apenas posteriormente. Para os primeiros administradores de Alyscamps a partida de alguém não era algo discreto e, em certos casos, os protocolos envolviam cerimônias longas, grandiosas e carregadas de simbolismos.

Não seria desrespeitoso dizer, portanto, que aqueles que ali deixaram seus mortos e aqueles que ali ficaram acreditavam na importância do reconhecimento da morte, no ato de lidar presencialmente com ela. Até porque suas concepções do além-vida eram também fantásticas e incluíam desde moradas divinas e prazerosas a lugares de penitência eterna. A cerimônia de entrada nessa nova vida tinha de ser babado.

Gucci Cruise 2019

 (Vittorio Zunino Celotto/Getty Images)

Alessandro Michele também é um designer de camadas. Sua moda é o reino da sobreposição, ele trabalha como um historiador, um arqueólogo que escava e descobre preciosidades.

Michele sobrepõe peças, referências, tempos, estilos. E, assim como na história ou nas camadas geológicas, em suas criações o novo se organiza em relação ao antigo. A repetição convive com a mudança. A novidade se apóia em modelagens de outras épocas e  os contextos movimentam símbolos que deslizam de um tema a outro. E ainda assim a noção de conjunto permanece, há algo de constante que se reconhece.

O cenário

No caminho de entrada de Alyscamps, candelabros de ferro e velas colocadas em vasos de barro poderiam passar como decoração local não fosse a multidão de convidados, seus celulares e tacinhas de rosé. Na parte em que as ruínas mostram o fundamento de uma construção, o desnível foi preenchido com luzes e nuvens de fumaça que não deixavam ver o fundo. Entrada para os Campos Elíseos, morada final de mortais com parentescos divinos ou escolhidos dos deuses, ou acesso ao reino de Hades, a imaginação de cada um dos presentes pôde viajar nesse sentido.

Falta pouco para o desfile e, sentado em um banco espera pacientemente sir Elton John, como se imerso em seus próprios pensamentos, quieto e alheio ao burburinho.

Todos por fim tomam seus lugares, a fumaça se espessa, sinos tocam, ouve-se um canto religioso, pios de coruja e respirações ansiosas. Ao longo de toda passarela, bem ao centro, uma trilha de fogo abre caminho para a cerimônia fashionista. Ela não pertence a nenhuma religião específica mas pode falar delas. Ela encontra o respeito na excelência de sua realização. Ela é intensa, visual e conceitualmente sofisticada, cortada pelas chamas, símbolo incontornável de transformação.

O cortejo dos dois mundos

A morte para Alessandro é maximalista, kitsch, luxuosa e tem muitas caras. Assim como a vida, mas com certos sinais invertidos, dois lados de uma só moeda. Talvez porque a morte seja do plano do irrepresentável. Para nos aproximarmos dela, temos que partir do que a vida nos ensinou, da experiência viva da finitude, de se saber mortal.

A vida nos ensina que grandes passagens devem ser celebradas, marcadas no tempo e no espaço.

Assim fazemos com casamentos, aniversários e também com a morte, embora os sentimentos envolvidos sejam diferentes. E assim Alessandro põe em cena um cortejo entre dois mundos, o de mortos e vivos. As roupas e adereços dirão quem é quem, mas há espaço para fantasmas que representam o próprio momento da passagem.

Os mortos atravessam dimensões, ou ao menos acreditamos nisso de várias maneiras diferentes. Os vivos também atravessam, um pouco deles se vai na memória dos mortos. E no entanto permanecemos. A travessia dos vivos nesse contexto é o luto.

Gucci Cruise 2019

 (Vittorio Zunino Celotto/Getty Images)

Luto que está no desfile e de certa forma na própria trajetória de Michele na marca. Seu trabalho como criador das bolsas da casa, sua promoção acertada, sua quebra brutal com a estética de sua antecessora Frida Giannini, sua transformação em um dos estilistas mais importantes da moda nesse momento.

O luto pode ser simbólico, nesse sentido, um momento de síntese que elabora o fim de um relacionamento, de uma fase de vida, de uma história, de um império, de um ideal de beleza, de uma ideia dominante.

O luto não pode ser pulado, precisa ser vivido. Ele contém em seu processo a ideia de cura mas também a matéria necessária para que haja um renascimento. Ele reconta a história até aquele ponto e reorganiza as camadas da vida para que elas se sustentem, agora sem a parte que se foi.

Não pensem que isso não estava dito no desfile porque estava. Foi um daqueles momentos em que pessoas se apaixonam pela moda porque, de repente, ela fala. É um momento de comunicação. Reconhecemos o abismo entre mortos e vivos mas às vezes nos esquecemos que cada ser humano é um mundo e que só criamos relações verdadeiras quando nos comunicamos.

Góticas Suaves & Góticas Intensas

Michele também trabalha com camadas de palavras e seus significados. Sua inspiração gótica pode significar do cantor Billy Idol e da banda Lacrimosa a uma lady vitoriana. Pode ter morcegos ou ser representada por flores. Tem looks de viúva e de rockstar dark. Tem Hollywood fantasmagórica e trechos da Divina Comédia de Dante. Tem papetes e sapatos freak-fetichistas e chokers, broches e colares de crucifixo, bem Lacroix 80. Tem um look preto de luto adornado por uma costela, os ossos decorados com riqueza de detalhes, como se a moça fosse a um só tempo aquela que se foi e quem lamenta a partida.

Desta vez a mistura estava ainda mais rebuscada, o styling ainda mais interessante, a alquimia de tecidos menos recortada e mais cheia de sentido. O look total verde já icônico em coleções anteriores volta agora com volume dramático e romântico. Entre os looks novíssimos há tênis velhos e produtos que já estão nas lojas. Tudo se conecta.

Na web alguns leitores se referiram à coleção como macabra, com uma conotação crítica. O que mostra de certa perspectiva o quanto somos ensinados a não pensar sobre a maior certeza que temos ao nascer: a de que morreremos. Somos levados a nos afastar da questão, ignorando-a ou a preenchendo imediatamente com promessas de novas vidas.

Se essas promessas são verdadeiras não sabemos, mas uma coisa é certa. O que fomos marcará os que ficaram e os que virão, assim como o que somos tem as marcas dos que aqui estão e dos que vieram antes ou já partiram. Nossas camadas, quando escavadas propriamente, revelam tesouros, ruínas e sobretudo a presença ancestral da vida.

No after show, o afterlife foi representado por Elton John cantando lindamente no piano com sua voz digna dos deuses. Mandou Your Song e muita gente chorou. Ele dedicou essa canção à sua mãe no primeiro show que fez após a morte dela, em 2017.

Por um momento pensei no funeral da princesa Diana e em como ele havia sido capaz de demonstrar a profundidade das emoções ali envolvidas por conta de uma grande amizade. Mas logo me concentrei nos hits lindos: Tiny Dancer, Rocket Man e I’m still standing. Naquele contexto as letras ganhavam novos sentidos.

Antes de começar, em tom de piada, Elton disse que estava lá apenas porque Lana Del Rey não tinha agenda. Ela, sabe-se, é uma grande amiga de Michele. Na hora pensei que ela teria cantado Born to Die.

De fato nascemos para morrer mas isso implica que nascemos para viver. O caminho é o verdadeiro sentido do destino. E choramos não apenas pelo fim, mas pela saudade do que fizemos na estrada.

Aí Elton John canta I Guess that’s Why They Call it the Blues, em que lamenta o tempo que não pode ser passado com quem se ama fazendo as melhores coisas da vida: “laughing like children, living like lovers, rolling like thunder under the covers”.

Mas mesmo no lamento e na perda está a marca da felicidade e da presença. Podemos até pensar que melhor seria nunca ter para nunca perder. Só que sabemos que isso é mentira.

Indo embora de Alyscamps pensei que Alessandro Michele talvez tenha feito um gesto significativo para pessoas que estavam ali e que de alguma forma se deixaram afetar pelo tema para além do post e da selfie na cripta.

No caminho da festa, pensando nas voltas da vida, no espírito criativo que ali havia feito seu discurso visual, olhando os convidados e observando as risadas dos modelos fofos, as dancinhas charmosas de Saorsie Ronan e a beleza segura de Asap Rocky, como um recado soprado no vento, me veio mais uma música, desta vez a da deusa musa brasileira chamada Gal  (que por acaso tem vestido Gucci nos shows): “É preciso estar atento e forte. Não temos tempo de temer a morte”. A coleção, penso eu, é sobre a força sobrenatural da vida.

*Dedico esse texto a Maria Helena, que recentemente partiu deixando inscritos no tempo saudades, looks icônicos e lindas lembranças.

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