Na aula de hoje, vamos estudar uma das maiores grifes atuais: Beyoncé

A House of Beyoncé começou a ser construída publicamente nos anos 1990, ainda quando a cantora estava no Destiny’s Child.

Quer entender como construir uma imagem de moda? Pergunte-me como. Na aula de hoje, vamos estudar uma das maiores maisons contemporâneas: a House of Beyoncé. Ok, ela não existe de fato. Mas a primeira lição é entender isto: toda grande marca de moda precisa de imagens que a representem, mas nem toda grande imagem de moda necessariamente pertence a uma label.

Beyoncé tem criado imagens mais fortes do que boa parte dos estilistas. E posso dizer que elas também são imagens de moda por alguns motivos. Envolvem grifes, mas também roupas criadas com certo propósito artístico, cujos desdobramentos têm dado origem a produtos de moda. Ou seja, os looks da cantora, inclusive os feitos exclusivamente para os shows, inspiram e movimentam o mercado de roupas e acessórios. Além disso, ela lida com símbolos da cultura pop, da história e de discussões relevantes na atualidade. Ou seja, ela lê o mundo com a ajuda de roupas e imagens – coisa que a moda faz, ou deveria estar fazendo.

A House of Beyoncé começou a ser construída publicamente nos anos 1990, ainda quando a cantora estava no Destiny’s Child. Havia no trio um senso de coordenação, mas também de identidade própria. Aos poucos, ela se destacava das demais. Podia ser numa pose, num look inteiro, quando todas estavam de cropped, num acessório de cor diferente. Quando finalmente Bey resolveu lançar seu primeiro disco solo, estava pronta. A capa de Dangerously in Love, com uma mulher poderosa, coberta de cristais e jeans, é tão icônica quanto seu conteúdo.

Dangerously in Love

 (Reprodução/Reprodução)

Nos anos seguintes, com paciência, trabalho e obstinação, ela trabalhou na construção de sua estética. Enquanto stylists, empresários e palpiteiros afobados tentaram ligar seu nome a grifes de luxo de forma mais evidente, ela insistia em usar as roupas feitas por sua mãe, Tina Knowles, dona da House of Deréon. Sabe a história de heritage que todas as labels se orgulham em ter? Pois ela também sabia o valor disso e não se deixou envergonhar pelo estilo que vinha de outras gerações de sua família, ignorando os comentários maldosos dos fashionistas. Pelo contrário, fez com que as pessoas se acostumassem e se afeiçoassem ao que apresentava.

Enquanto isso, fazia parcerias pontuais com marcas, escolhendo looks icônicos, mas não necessariamente novos, como o vestido motocicleta de Sasha Fierce, assinado por Thierry Mugler e inspirado em um desfile apresentado por ele em 1992.

A mensagem era mais ou menos assim: sim, eu manjo de moda, sim, eu conheço as grifes e seu poder, mas vou usá-lo de acordo com a minha própria estratégia e meus valores. É lindo ver como, por exemplo, em Formation, Beyoncé pôde, enfim, cantar o orgulho de sua origem, falar de sua mãe, de seu pai, de seus avós, que o público então já conhecia inclusive graças aos looks da Deréon (a família tinha uma tradição de habilidades para a costura), que tantos criticavam. Ampliou inclusive o alcance de sua marca pessoal ao falar da filha, das amigas e das jovens cantoras e ativistas que colocou em seu filme de Lemonade.

E aí Beyoncé foi mais fundo. Pesquisou países africanos, Cuba e a história dos EUA em busca de mais raízes.

Ampliou a questão de heritage de sua árvore genealógica para gerações inteiras. Pessoas aproximadas pela música, pela cultura e também pelos mesmos traumas. Pessoas que de repente passaram a enxergar ou puderam expressar amor por suas trajetórias, por seus antepassados, por suas roupas com ou sem label, por seus corpos, por seus cabelos. A tudo isso, ela juntou as referências a rainhas, a heróis da luta contra o racismo e conectou-as às novas gerações não de forma artificial, mas com realidade e sentido.

Sua mais recente cartada foi pegar a imagem universitária, historicamente ligada à juventude branca e rica norte-americana, e recriá-la com estudantes negros. Falando de mérito, de excelência, sem esquecer que esse mérito foi alcançado em condições de extrema desigualde, que precisam desaparecer.

Beyoncé percorreu todo esse caminho, assim como muitas marcas estão construindo sua trajetória passo a passo, dando o devido valor à construção de imagens. É claro que há diferenças de contexto, mas muitas lições de processo estão aí. Looks do dia e influencers fazem parte do processo, mas não se sustenta uma indústria sem pessoas de fato comprometidas em criar experiências visuais significativas. Nas páginas, na web ou nas passarelas, queremos ver paixão.

beyonce-knowles

 (Reprodução/Reprodução)

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