Para entender Givenchy, observe sua musa

O estilista Hubert de Givenchy morreu no último sábado (10.3) e sua relação com Audrey Hepburn continua sendo inspiração para o mundo da moda.

Muitos designers passam a vida à procura de uma musa. Em geral ela já existe em seus sonhos, nas imagens nascentes de suas criações, mas nem sempre consegue fazer a travessia do mundo das ideias para as calçadas do mundo. Para Hubert de Givenchy foi diferente. O estilista, cuja morte foi anunciada hoje, teve essa felicidade. E é por isso que, para entender seu legado bastante especial para a moda, é preciso olhar para sua musa, Audrey Hepburn.

Quando Hubert começou a vender suas criações, por volta de seus 20 anos, em 1952, tinha uma visão em mente. Peças intercambiáveis, com certa facilidade no vestir, que podiam formar vários looks sem a necessidade de um guarda-roupas enorme. Ainda reinavam os conjuntinhos e vestidos difíceis, e sua proposta chegou como uma brisa anunciando a Primavera em Paris. As mulheres mais atentas, ajudadas pelas editoras de revista, logo descobriram o novato e aqueceram as vendas.

Givenchy, na esteira do olhar de Chanel, era um apreciador do movimento das mulheres, suas ações, gostava de observar a extensão de seus braços, de ver como tecidos bonitos e com a densidade certa podiam abraçá-las confortavelmente ou oferecer segurança sem jamais sufocá-las.

O designer vestiu Grace Kelly, Elizabeth Taylor, Jackie Kennedy, socialites, duquesas e afins. Mas algo aconteceu quando Audrey entrou em seu ateliê pedindo que ele desenhasse os figurinos para um filme que ela estrelaria. O filme era Sabrina.

audrey hepburn hubert de givenchy Retrato de Audrey Hepburn com Hubert de Givenchy nos anos 1980.

Retrato de Audrey Hepburn com Hubert de Givenchy nos anos 1980. (Hulton Archive/Getty Images)

Givenchy estava atolado de pedidos, trabalhando em novas peças, e disse que não poderia pegar o trabalho. Foi quando Audrey pediu pra ver as roupas que já existiam. Como na história de Cinderela e o sapatinho de cristal, as criações do designer caíram como uma luva, tanto para o roteiro, sobre a moça pobre que retorna à casa do pai chic e sofisticada após uma temporada de estudos em Paris, quanto para o corpo e a elegância de Audrey.

Ela mesma escolheu três looks que se tornaram icônicos. Um vestido, usado com paletó ajustado e turbante logo no começo do filme, o inesquecível pretinho básico acinturado com alças presas nos ombros e um longo de festa. Edith Head, a poderosa figurinista, levou o Oscar pelo filme, mas os méritos foram mesmo da dupla Audrey e Givenchy. O encontro foi tão poderoso que só mesmo a morte de Audrey décadas depois, em 1993, conseguiu separá-los.

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Enquanto as celebridades e mulheres ricas em geral buscavam brilho e produções rebuscadas, Audrey queria a sofisticação da simplicidade. E esse era o espírito da maison Givenchy. Looks monocromáticos, pretos, brancos. O decote perfeito, o melhor dos recortes, a gola ideal para acomodar uma linda joia. Os desejos de Audrey eram importantes para Givenchy, e vice-versa, porque de alguma maneira ao mesmo tempo mágica e racional, como acontece nos grandes amores, eles estavam conectados.

A amizade evolouiu e Givenchy chegou a dizer que o relacionamento era como um casamento. Para Audrey ele fez outros figurinos que fizeram sua fama: Cinderela em Paris e, o mais incensado de todos, Bonequinha de Luxo.

Divulgação/ Filme "Bonequinha de Luxo"

 (Bonequinha de Luxo/Reprodução)

Quando Holly Golightly está de costas diante da vitrine da Tiffany & Co., Givenchy faz mais do que vestir a personagem. Ele faz com que a roupa seja a personagem. A construção em forma de lua junto com as pérolas repetem o formato dos lustres dentro da loja, lugar onde Holly encontra a segurança que procura no mundo. Mas também deixa pele à mostra porque ela é uma mulher livre, forte em sua vulnerabilidade. Braços soltos no mundo.

A colaboração se estendeu pela vida pessoal de Audrey, que usou as peças do amigo em seu dia a dia, nas festas e em seu casamento. Além de tudo, suas imagens serviam como vitrine das peças, que atraíam clientes interessadas naquele tipo de elegância clássica e esperta.

Já avançando na casa dos 80, quando ficou doente, Givenchy passou alguns dias no seu quarto de hospital desenhando modelos pensando em Audrey, a mulher que tinha trazido a essência de seu talento à vida. Disso saiu um livro de croquis chamado To Audrey With Love. Tantos outros dão conta da importância desse encontro.

Givenchy estava aposentado. Sua marca foi comprada pelo grupo LVMH em 1988, e em 1995 ele se afastou. Entre uma coisa e outra, em 1991, ganhou uma linda retrospectiva no Palais Galiera, o mesmo museu que atualmente apresenta uma expo sobre Martin Margiela. Os gênios da moda, sabe-se, vêm em vários formatos, mas há algo neles de reconhecível.

Audrey Hepburn

 (Hulton Archive/Getty Images)

Hubert de Givenchy morreu tranquilo durante o sono, quem sabe durante um sonho bom. Talvez nele Audrey tenha vindo buscá-lo, mãos estendidas, sapatos de salto leve, prontos para o desconhecido. Deve ter usado um dos modelos feitos por ele, um daqueles que ficou escondido nas cortinas do inconsciente, e que só poderia mesmo ser encontrado e vestido por uma musa que flutuasse acima do chão.

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