Por que a internet está tão interessada em grávidas e bebês?

As redes amam o baby boom das celebs, mas os motivos não são tão fofos assim

“Aguardaremos, brincaremos no regato

Até que nos tragam frutos teu amor, teu coração

Gilberto Gil, Refazenda

Era uma vez Perséfone, filha de Zeus e de Deméter. Foi raptada por Hades e, depois de muita luta entre os deuses, empreendida por sua mãe, dividiu sua vida entre as profundezas da terra e um soturno amor por seu marido, rei do mundo dos mortos, e a vida solar. Era uma jetsetter entre a luz e a escuridão. Representa a fertilidade, as estações do ano e o processo de fecundar o solo escuro e fundo e dele colher. Era uma vez Iemanjá, a mãe cujos filhos são peixes. A dona das cabeças, que prepara as pessoas para enfrentar o oceano da vida. Representa a fertilidade e o arquétipo da mãe, juntamente com Oxum, a mamãe jovem, a mãe da criança. Nenhuma das duas é santa; têm seu amor, sua generosidade, mas também suas vaidades, amores, amantes, sua ira explosiva. Era uma vez Gaia, a filha do Caos, que de si mesma gerou um marido e com ele pariu sete Titãs. Representa a fertilidade e a força geradora, a vida que nunca cessa de se renovar.

Foi só com as autoridades das religiões judaico-cristãs que a fertilidade e, por consequência, a maternidade ficaram associadas a mulheres plácidas, calmas, submissas e totalmente devotadas aos outros e aos afazeres do lar. Mas mesmo nelas existem muitas outras visões, vejam só a Virgem Maria, que já na velhice se tornou o que todos chamariam hoje de ativista e propagadora das ideias de seu filho subversivo, que contrariava ricos e poderosos e andava entre os pobres.

O certo é que a figura da mãe enquanto mulher fértil santificada sempre serviu bem a certas opressões. Fique em casa, limpe, cozinhe, cuide de todos primeiro e de você se der um dia. Amélia não tinha a menor vaidade, e provavelmente passou a vida sem dar vazão às suas vontades, presa em um comercial de margarina e com a garganta entalada de gordura trans e frustração. A nova versão dela incorpora trabalho externo e alguns estereótipos de feminilidade, mas também é perversa e cruel. Tenha jornada tripla, acorde às 4h, recupere a barriga chapada logo após o parto, tenha grana para babá, cadê essa unha pintada, e o cabelo arrumado? 

E a mãe pobre, e a mãe sem nenhuma ajuda? Essa é a que mais se entrega, e também a que fica invisível nos pacotes comerciais sobre maternidade. Não que o sacrifício total deva ser louvado, inclusive deveria desaparecer, ser desnecessário. Essas mulheres porém existem, e se estão tão sobrecarregadas é porque levam nas costas as faltas de pessoas e instituições que não cumpriram sua responsabilidade.

Cuidar de um ser humano desde o seu nascimento pode ser uma das experiências mais lindas e transformadoras da vida. Exige esforço, forja um novo amor, traz felicidade, profundo aprendizado, alegria, mas também cansaço. Dependendo das condições, pode ser maravilhoso ou muito doloroso. Em sociedades machistas como as nossas a participação masculina é insuficiente nesse processo, o que joga ainda mais carga sobre as mulheres. Isso muitas vezes tira delas a chance de ter momentos mais leves com seus filhos, de se divertirem com eles, de serem a mãe que brinca, que sorri, que pode enfim relaxar e aproveitar momentos bacanas.

Diz o ditado que é preciso toda uma vila para criar uma criança. O dia em que ele for seguido, muita coisa vai mudar.

Mas, então, mesmo com toda essa treta por resolver, vocês notaram que no momento a maternidade está mais trendy do que nunca? Os noticiários comuns parecem sites especializados em bebês e crianças. Os bebês reais. Os bebês Kardashian. Os bebês reis do Instagram. As modelos grávidas. As influencers, atrizes, cantoras grávidas ou com filhos pequenos. Os álbuns de barriga. Até bem pouco tempo atrás publicidade e marcas ligadas ao luxo não gostavam sequer de lembrar que sua consumidora tinha filhos. Quando uma mulher considerada sexy posava grávida era um acontecimento. Foi o que rolou com a icônica capa de Demi Moore na revista Vanity Fair, em 1991, um hit, um escândalo para muitos. Antes dela, a maravilhosa Leila Diniz também foi duramente criticada por suas fotos pleníssimas, grávida e de biquíni. Mãe, glamour e mulheres sexy não andavam juntos, não dava match.

Mas a coisa mudou. Estamos numa fase de exaltar essas imagens e ligá-las a uma certa visão de fertilidade e de prosperidade. A mãe linda, rica, gostosa, fit, fashionista, que pode dar ao filho “do bom e do melhor” e vesti-lo com baby labels. Vejam que não estou questionando essas mulheres e seus bebês lindos e certamente muito amados, que estão vivendo suas vidas como bem entendem, não tem nada a ver com isso. Não é pessoal. Estou pensando em como suas imagens são apresentadas, no que se diz sobre elas, em que tipo de propaganda que se faz através delas. 

Claro, devemos considerar que tudo tem a ver com consumo hoje em dia. Pais gastam pencas de dinheiro com seus filhos, por bons e péssimos motivos. Tem os likes, a grana que celebs movimentam, etc. Mas não se trata apenas disso.

Por que será que a mídia está nessa onda de amor às mães quando, na realidade, o mundo continua dificultando a vida delas diariamente? Escolas caríssimas, déficit de creches públicas, pais que muitas vezes desaparecem ou não participam, planos de saúde mercenários, violência doméstica, preconceito no mercado de trabalho, empregadores que exploram com jornadas exaustivas, exigências a respeito do corpo, julgamentos a respeito da vida sexual, da idade, a lista é longa. Isso sem contar a carga extra e brutal acrescentada pelo racismo. E não me venham dizer que é mimimi, amores, as estatísticas e a realidade estão aí para confirmar esses dados, infelizmente. Essa pode não ser a minha ou a sua realidade, mas é a de milhões.

Então, o que será esse espírito de campanha do Dia das Mães estendido na mídia?

Será uma nova ode careta à obrigatoriedade da maternidade, a esse papo furado de que toda mulher quer necessariamente ser mãe, que está destinada a isso? Será o jeito da mídia de enquadrar a fertilidade em sua faceta mais conhecida, a da mãe? Terá lá no fundo a ver com as taxas de natalidade, que estão caindo nos países ricos, o que pode ser um problema econômico? Um pouco de tudo.

Sim, porque, podem ir por mim, a fertilidade está mesmo no ar. Estudo tendências há uns bons 15 anos, fora minha intuição natural para a coisa, e posso dizer com todas as letras: tem algo crescendo no forninho do mundo. Não necessariamente são bebês. A fertilidade é uma criança, mas também é uma flor, uma manga, uma ideia que se espalha por aí nas asas de um passarinho, nos beijos de um beija-flor.

A fertilidade é feminina mas também masculina, e é uma pena que os homens sejam ensinados a se distanciar de uma visão mais ampla disso. Muitos ainda se enxergam como uma espécie de touro inseminador, o que é um ponto de vista extremamente limitado e primitivo. Essa perspectiva, aliás, torna mais fácil que eles evitem relações mais intensas e amorosas e se afastem ou abandonem suas famílias. A carga pesada nesses casos vai para a mulher, mas os próprios homens têm de perceber que eles também sofrem, perdem e diminuem a riqueza de suas experiências de vida com isso. Aliás, o quanto a exploração no trabalho afasta os homens de seus sentimentos e relações é assunto ainda pouco comentado, embora urgente.    

A fertilidade é algo muito maior do que gerar filhos. O que é fértil prospera, distribui abundância, é generoso em um milhão de sentidos e ações.

Duas pessoas podem não gerar um filho, mas podem criar tantas outras coisas maravilhosas. Podem adotar um filho, cuidar de uma horta, ajudar uma comunidade, escrever livros, inspirar pessoas. Uma mulher seca, árida não é uma mulher que não tem filhos, seja porque não quer (e não querer é direito inegociável) seja porque não pode. Uma mulher seca e árida é aquela capaz de dizer algo tão mentiroso e cruel sobre uma sua semelhante, aquela capaz de reduzir um corpo poderoso a uma só função. O mesmo vale para os homens. Eles não são secos ou menos machos porque não espalharam seus espermatozóides. Mas são seres humanos áridos e secos, tristes mesmo, quando aceitam abrir mão de uma existência mais plena pelo prazer de torturar os outros com padrões e comparações descabidas.

Desconfio de certas odes midiáticas à fertilidade quando leio que existe uma bolsa de avaliações sobre qual bebê real é mais rentável. Desconfio desse súbito amor às mães quando Serena Williams é praticamente acusada de ser vice-campeã de um torneio porque teve um filho e diminuiu sua “produtividade”. Desconfio da fertilidade especulativa, quando há um pool de apostas sobre quando Meghan Markle ficará grávida. Ok, também desconfio desse príncipe Harry, que segundo as más línguas, está insatisfeito e vetando looks porque a moça gosta de usar calças e deveria usar mais vestidos. Que ano é hoje? Desconfio porque sou desconfiada, mas também porque não nasci ontem. Não precisamos dessa ideia de reprodução padrãozinho que quer nos vender algemas antigas como se fossem lindas pulseiras.

A fertilidade não é uma mamãe boazinha que segue todas as regras. Ela cria bebês, faz brotar florestas e frutas, mas também derruba padrões, governos, sistemas e opressões. A fertilidade está ligada à natureza e também às capacidades humanas não só em sua porção suave mas também na mais complexa e intensa. A natureza está na flor, mas também no vulcão, está na concha mas também no tsunami. Em paralelo, a criatividade humana está no poder de fazer outros humanos mas também, e tão lindamente quanto, nas ações que tornam o mundo mais justo e melhor. Está na agricultura que não mata e na educação que eleva o individual e o coletivo. Está na luta mas também no autocuidado. Está nas certezas mas também nas contradições. Está na capacidade de repensar valores e relações. Está na diversidade, em seu significado mais amplo e produtivo.

A fertilidade está no ar. Vamos aproveitar. Refazendo tudo.

 (Reprodução/Reprodução)

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