Se depender do MET Gala, a imaginação católica se resume ao Vaticano

Vivian Whiteman questiona a falta de criatividade das convidadas ao baile que inaugura a exposição "Heavenly Bodies".

Confesso que fiquei confusa com esse bailão católico da moda. Talvez porque eu esperasse outra coisa dele. Talvez porque nem mesmo minhas musas pop, Madonna e Rihanna, tenham me feito gostar do resultado da noite.

Em geral, comecei a pensar no que poderia ter sido, já que o tema era moda e “catholic imagination”. Esperava um look parade conceitual, colocando lado a lado as ideias de santidade e pecado, o discurso da simplicidade e o ápice da ostentação. Aceitação e preconceito. Ou mesmo coisas mais poéticas, de repente inspiradas nas passagens bíblicas. Um vestido que falasse de um milagre. Um outro que fosse sobre iluminação espiritual. A materialização do espírito fraterno. Um look sobre os ensinamentos de Jesus. As histórias dos santos. A Anunciação, a Ressurreição. Imaginação sobre qualquer dessas coisas quase não vi, porque de fato foi tudo muito banal e decorativo. A arte está anos-luz à frente da moda nesse sentido. 
 
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Até mesmo Rihanna de papa foi uma piada manjada. Era o esperado. E para uma artista como ela, com todo seu carisma e suas possibilidades, sua presença de estilo, ganhar o título de “papisa fashion” é no mínimo um passo atrás. Aliás a própria internet já foi além no trocadilho: o que é um chapéu de papa pra quem é deusa. Riri aliás não parecia estar se divertindo muito. Impressões…

Rihanna Baile do Met

 (Getty Images/Getty Images)

Engraçado que ninguém tenha se arriscado a fazer uma representação de Deus e sua glória, que afinal são a base dessa igreja. Nem mesmo de forma respeitosa. Não deveria ser uma obrigação dos designers pensar sobre isso? Nem contestação nem louvor, Deus simplesmente não foi lembrado diretamente no baile.

Algumas pessoas escreveram que Deus seria representado por Anna Wintour. Outra piada pronta: o “Diabo” (que não estava vestindo Prada, mas Chanel) sempre tenta se passar pelo Altaneiro, história antiga oficial.

Madonna cantou Like a Prayer em uma sombra do que esse hit já foi enquanto performance. Não custa lembrar que no clipe ela é uma devota que ajuda um homem negro acusado injustamente de um crime. O mesmo homem aparece na imagem de um santo e em um contexto de amor e paixão humana. O corpo, essa coisa cheia de desejos, é colocado em cena e questiona os limites dogmáticos.

Mas o baile foi o que foi e, na verdade, parece ter sido encomendado pela área de comunicação do Vaticano, com toques fashionistas. É fato notório que o Varticano tem buscado publicidade em tempos de evasão de fiéis.

Repetindo, o baile foi muito abaixo das expectativas, mas isso também dá pano pra manga.  Dá pra fazer uma breve análise/lista de presença quase caricata.

Kim Kardashian como o ídolo de ouro. Um concurso de miss Madonna renascentista, de Blake Lively como uma mama Versace a Lana Del Rey como Nossa Senhora das Dores de Gucci, carregando os olhos de Santa Luzia, ambas muito bonitas. Kate Bosworth como a devota padrão tradição, família e propriedade. Gisele Bündchen, Miley Cyrus e Amal Clooney como as primas que só vão à igreja em dia de casamento.

Blake Lively de Versace no MET Gala 2018

 (Jamie McCarthy/Getty Images)

O bloco da ala gótica de boutique, liderado por Cara Delevingne e Jennifer Lopez. Cindy Crawford como a pecadora de vermelho. Frances McDormand como um momentinho de epifania religiosa. Kate Perry e Gigi Hadid como as anjas anunciadoras.

O mood, raras execeções, parece todo antiquado, inclusive desconectado do atual Pontíficie. Aquele que por conta da campanha da fraternidade 2018 no Brasil, que trata da violência, escreveu o seguinte: “Sejamos protagonistas da superação da violência fazendo-nos arautos e construtores da paz. Uma paz que é fruto do desenvolvimento integral de todos, uma paz que nasce de uma nova relação também com todas as criaturas. A paz é tecida no dia-a-dia com paciência e misericórdia, no seio da família, na dinâmica da comunidade, nas relações de trabalho, na relação com a natureza. São pequenos gestos de respeito, de escuta, de diálogo, de silêncio, de afeto, de acolhida, de integração, que criam espaços onde se respira a fraternidade”.

O mesmo papa que disse recentemente a um menino órfão que seu pai ateu iria pro Céu porque havia sido um homem bom. O mesmo que, embora sim esteja sob a riqueza e poderio econômico do Vaticano, tem algumas convicções próprias e polêmicas na Igreja.

Nesse contexto, o único grupo mais interessante foi o que de alguma maneira falou dos excluídos. Lena Waithe como a pregadora envolta na bandeira LGBTQ+, por Carolina Herrera. Solange como a deusa-mártir gangsta por Iris Van Herpen. Zendaya como Joana D’Arc Versace queimada na fogueira, condenada por se negar a ocupar um lugar submisso. Aliás se Rihanna tivesse entrado junto com elas talvez seu look papal Margiela fizesse mais sentido e mudasse de perspectiva.

Lena Waithe Carolina Herrera capa LGBTQ+ MET Gala 2018

 (Getty Images/Getty Images)

De qualquer forma, a maioria foi fiel ao repertório clássico do Vaticano, a suas imagens de riqueza, feita de muito ouro, 50 tons de vermelho, p&b e quilômetros de veludo. Ostentação padrãozinho high fashionista dentro do tema. Criação conceitual mesmo ficou faltando. Reflexão, olhar especial, novas perspectivas, enfim, faltou tudo o que faz a moda caminhar, surpreender, revelar, emocionar e crescer em relevância criativa.

Aliás, pra alguém que pensa a moda como eu, fica uma pergunta que não quer calar? Por que esse tema agora? O que vocês acham?

Sigo aqui refletindo e sentindo falta do desfile de moda católica do clássico Roma, de Fellini (digite no YouTube “Vatican Fashion Show Federico Fellini”) , com seu humor, inteligência, crítica e genialidade cênica. Fica a referência para uma próxima tentativa.

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