A importância do figurino em Julieta, novo filme de Almodóvar

A exuberância das cores nos filmes de Pedro Almodóvar, principalmente nos figurinos, é a “resposta raivosa” do cineasta espanhol ao injusto luto de sua mãe, Francisca Caballero. “Fui concebido durante um período em que minha mãe só usava roupas pretas. Como morávamos na região austera de La Mancha, ela passou quase 20 anos obrigada a se vestir de luto pela morte de parentes”, contou o diretor, também influenciado pelos filmes que marcaram a sua infância, nessa predileção por cores quentes, saturadas e passionais. “Cresci vendo melodramas na coloração explosiva do Technicolor”, disse o cineasta à ELLE, referindo-se ao processo de cores predominante em Hollywood no fim dos anos 1940 e início dos 50.

Hoje, quando Almodóvar recorre ao negro para os figurinos de seus personagens, a intenção é evocar a imagem de glamour, como no vestido de Giorgio Armani que Marisa Paredes usa em De Salto Alto (1991), ou ilustrar o estado depressivo de suas heroínas, como a vivida agora por Emma Suárez em Julieta, seu novo longa.

O enfant terrible do cinema espanhol chega ao 20º título da carreira. Depois da première mundial na 69ª edição do Festival de Cannes, a obra estreia dia 7 no Brasil, trazendo um Almodóvar mais contido – mas nem por isso menos tocante. “Cada filme reflete meu estado de espírito. Hoje sou um cara mais maduro, diferente daquele que fazia barulho décadas atrás. Ainda assim, minha essência barroca é a mesma”, afirmou em entrevista na praia do hotel Grand Hyatt Martinez.

Em Julieta, o figurino ajuda a guiar o espectador por dois períodos em que a trama é ambientada. Na Madri atual, a personagem do título sofre com a ausência de sua filha, que saiu de casa aos 18 anos e nunca mais deu notícia. Quando ela reencontra uma amiga da filha, seu passado volta à tona, transportando a plateia ao colorido e à intensidade da década de 1980. Aí descobrimos como Julieta (agora na pele de Adriana Ugarte) conheceu o pai de sua filha e por que a menina fugiu. “Há aqui uma economia nas emoções, o que faz contraponto com a explosão de sentimentos nas comédias anteriores”, disse Almodóvar, empenhado em retratar a Espanha mais triste dos dias atuais. Desgastado pela crise econômica e por escândalos de corrupção, o país está sem governo desde dezembro pela dificuldade em formar uma coalizão. “Estamos longe da euforia dos anos 1980, quando rompíamos as tradições reprimidas estabelecidas pelo ditador Francisco Franco”, lembrou. “A fase agora é de incertezas.”

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