Coletivos de arte só de mulheres estão dominando a internet

Se o mundo da arte ainda é majoritariamente composto por homens, estas garotas estão criando seus próprios espaços.

E se o mundo da arte fosse comandado por mulheres? Lutando pela maior presença feminina em um universo artístico majoritariamente masculino, em 1989 as Guerrilla Girls apontavam que apenas 5% dos artistas no Metropolitan Museum of Art (Met), em Nova York, eram mulheres. Mais de duas décadas depois, esse número aumentou para 20% – o que está longe de ser ideal. Nas galerias particulares ao redor do mundo, a situação é ainda mais dramática: cerca de 15% dos artistas são mulheres*.

Mas se os grandes museus e galerias ainda não expõem tantos trabalhos de mulheres quanto poderiam, elas estão o fazendo por si mesmas. Com a ajuda da internet, garotas passaram a se unir em projetos de curadoria de arte feminista, dando visibilidade para as artistas que descobrem. E as iniciativas estão fazendo barulho. Os grupos estão cada vez mais em evidência, conquistando a atenção da mídia (eles já apareceram na Dazed, i-D e Hunger, por exemplo) e, mais importante, criando plataformas inclusivas e empoderadoras.

Selecionamos cinco projetos que deixam claro que, mesmo que offline elas ainda sejam minoria, dentro da rede quem comanda o mundo da arte são as mulheres.

The Ardorous

Sailor Moon by Jessie Lily Adams

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Cansada do “clube só para meninos” da cena artística, a fotógrafa Petra Collins decidiu lançar, ainda durante o ensino médio, uma plataforma em que mulheres pudessem, além de compartilhar seu trabalho, ter representações mais fiéis e diversas de si mesmas. Assim, em 2011 surgiu o The Ardorous e, desde então, inspirou a criação de vários outros coletivos de arte feminista. O projeto reúne mais de 40 artistas de várias partes do mundo que questionam o padrão estabelecido de feminilidade. “Crescer em uma sociedade em que imagens de e para mulheres são criadas por e para homens deixa pouco espaço para uma visão saudável e imparcial do gênero feminino. Essa cultura destrutiva de representação parcial precisa mudar. Eu quero oferecer uma alternativa a esse cenário que vivemos, uma alternativa que celebre as mulheres e o poder que temos”, diz o manifesto do The Ardorous, escrito pela própria Petra.

Além de expor os trabalhos em seu site, o projeto já organizou mostras em espaços físicos – como o “Strange Magic”, de 2012, realizado em parceria com a garota prodígio Tavi Gevinson, fundadora da Rookie Magazine. Em 2015, Petra Collins fez também uma curadoria dos trabalhos do coletivo para o livro Babe (Prestel Publishing, 29,95 euros). “Eu estou animada para que o The Ardorous cresça e continue a evidenciar artistas mulheres que trabalham duro e que merecem ter suas vozes ouvidas”, ela contou à Dazed Magazine.

Art Baby

 (Grace Miceli/Art Baby/Reprodução)

Fundado por Grace Miceli em 2011, o Art Baby é descrito como um espaço de exposições digitais que pretende abordar o feminismo de forma acessível e democrática. Desde sua criação, a plataforma passou de realizar mostras on-line mensais a organizar exposições físicas nos Estados Unidos, Reino Unido e Taiwan. “Como o mundo da arte é comandado, em sua maior parte, por homens brancos, ricos e velhos, eu acho que é importante criar sua própria comunidade criativa, que seja inclusiva e segura, por motivos de felicidade e sobrevivência”, diz Grace à ELLE. A artista conta que a internet contribui muito para o surgimento desses espaços alternativos: “Ela tem conectado tantos artistas jovens e nos proporciona um lugar para mostrarmos nossa arte para muitas pessoas.”

Os trabalhos expostos no site do projeto são tão plurais quanto as pessoas que os criam: entre fotografias, ilustrações e gifs, as artistas tratam de temas que estão presentes em seu dia-a-dia – presença on-line, sexualidade e o que é ser uma jovem mulher nos dias de hoje. Mas, como Grace explica, identidade de gênero não limita o coletivo: “Embora o Art Baby exponha principalmente o trabalho de artistas que se identificam como mulheres, ele também apoia e inclui obras de artistas não-binários.” Para o futuro, a curadora pretende criar programas de arte para adolescentes e continuar a buscar novos meios de promover novos talentos.

Balti Gurls

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Em 2014, a artista Jenné Afiya, de Baltimore (EUA), sentiu a necessidade de criar um espaço em que artistas mulheres e negras pudessem compartilhar suas experiências e perspectivas em diferentes formatos. O coletivo Balti Gurls surgiu como uma plataforma para representar mulheres negras e queer e oferecer um contraponto ao whitewashing da mídia. “Nós somos um grupo de artistas criando arte em nossos próprios termos, o que é bastante revolucionário”, elas contam à i-D. “O que queremos fazer é recentralizar a narrativa das mulheres negras, representar-nos da forma em que nos vemos, como a comunidade vibrante de artistas que somos, e ser um espaço que exponha esse talento.”

O coletivo, além de expor arte de mulheres negras on-line, organiza mostras e eventos off-line, além de publicar zines e comandar um festival de música só com mulheres negras na programação, o EDGE CONTROL. “O mundo da arte é tão dominado por homens cis e brancos que é difícil fazer com que a sua arte seja respeitada quando você não vem do mesmo cenário que eles. Espaços criativos que apoiam mulheres são cruciais porque eles permitem que outros pontos de vistas e experiências sejam respeitados e reconhecidos como válidos.”

Piscina

 (Jade Marra/Piscina/Reprodução)

“Eu sempre tive uma relação muito forte com as artistas que eu descobria e passava a admirar, porque saber que elas existiam era encorajador, tornava a ideia de ser artista muito mais possível, mais real”, diz à ELLE  Nataly Callai, que, em 2015, criou a plataforma brasileira Piscina com Ana Luiza Fortes e Paula Franchi. O projeto de curadoria experimental, que elas contam ter surgido por impulso, tem como objetivos encorajar o oferecer possibilidades e abertura para artistas mulheres. “Nenhuma mulher deveria pensar ‘isso não é para mim’ diante de uma vontade ou paixão. Ser artista não é uma tarefa fácil para ninguém, mas incomoda e entristece pensar que gênero possa somar em uma lista já grande o suficiente de empecilhos”, Nataly defende.

A plataforma é diversa em artistas e conteúdo, englobando desde fotografia até bordado. “Sinto que temos uma diversidade enorme de propostas, mesmo sendo possível reconhecer uma identidade”, Ana explica. “É muito perigoso que ‘artistas mulheres’ se torne uma etiqueta para identificar um só tipo de universo estético e temático.” Em 2017, as curadoras passaram a pensar a Piscina para além de um acervo do trabalho das artistas. “Acompanhar o trabalho das artistas mais de perto, visitar os ateliês, entender suas inquietações, buscas e referências é um dos planos para este ano”, contam. Além desse acompanhamento mais próximo, elas planejam realizar mostras físicas. “Surgiram os projetos de exposições em espaços alternativos, que a gente quer muito fazer acontecer em São Paulo.”

Bunny Collective

 (Vanessa Omoregie/Bunny Collective/Reprodução)

Criar uma plataforma que garantisse visibilidade para jovens artistas mulheres fora dos Estados Unidos. Foi esse o propósito da irlandesa Samantha Conlon ao fundar o Bunny Collective, em 2013. “Eu senti que existiam ótimos coletivos de curadoria on-line, mas que quase todos eles giravam em torno de artistas norte-americanas. Eu queria preencher essa lacuna e criar um espaço para que artistas do Reino Unido e da Irlanda pudessem expor seu trabalho e criar um novo diálogo”, ela explicou à Dazed.

Temas como o pessoal como político, violência, feminilidade, alienação, ciclos menstruais e sentimentos adolescentes sempre estão, de alguma forma, representados na arte curada pelo Bunny. Os trabalhos do coletivo, Grace nota, giram principalmente em torno das formas como as mulheres se comportam na internet e mapeiam as diversas facetas dessa existência on-line. “Acho que as mulheres estão buscando na internet seus próprio espaço, sem ter que se submeter a outros locais, que geralmente favorecem artistas homens. Ainda temos problemas em encontrar esses espaços, mas eu acredito que é um bom momento para se estar viva e criando arte.”

*Uma análise de 199 galerias feita pelo Artsy em 2017 mostrou que 66 a 75% dos artistas representados por elas são homens.

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