Como Petra Collins devolveu a juventude para as mulheres

Novo livro publicado pela Rizzoli explora o trabalho da artista e fotógrafa.

Meninas em seus quartos, penteando os cabelos, lendo, passando maquiagem, pintando as unhas ou escrevendo: o universo retratado pela fotógrafa Petra Collins não poderia ser tão simples e tão complexo ao mesmo tempo. A responsável pela estética feminina e sonhadora que tomou o Instagram ficou conhecida como a percursora do “female gaze”, em português, “olhar feminino.” A palavra pode trazer dúvida para quem contesta uma visão feminina uníssona, mas na verdade vem como contraponto de um único olhar anterior e dominante sobre as próprias mulheres: o masculino.

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(Petra Collins/Divulgação)

Agora ela lança o livro Coming of Age, da Rizzoli, que coleta alguns de seus mais antigos trabalhos e os conecta com ensaios autobiográficos criados por Petra. “Originalmente eu queria fazer um livro de todo meu trabalho recente, mas percebi que não havia publicado meu passado de forma tangível. Queria um espaço para contar minha história, e também explicar o contexto da minha vida, o porquê das fotos que eu tiro e porquê de eu fazer o que faço”, conta ela ao Refinery29.

A publicação expõe um dos motivos pelo qual seu trabalho ressoa tanto em outras garotas. Petra começou a tirar fotos cedo, ainda quando adolescente. Suas imagens retratavam as amigas de sua irmã, de vez em quando juntas, e contavam uma história bem diferente das tradicionais narrativas de rivalidade entre meninas. Além disso, as imagens tomaram força em espaços como o Tumblr e a Rookie (publicação para mulheres jovens criada por Tavi Gevinson), endereços conhecidos por terem permitido a formação de uma união feminina. Ela não criava imagens com base em uma memória do passado, anos depois do vivido. Como mulher jovem, se deu o direito de retratar a própria vida e as próprias fases femininas de forma íntima. Pode ser que outras mulheres já tivessem feito isso antes. Mas quando as adolescentes puderam contar suas próprias histórias?

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(Petra Collins/Divulgação)

O livro delineia também sua vida como filha de imigrantes  húngaros, tema essencial para entender o trabalho de Petra. O passado de dificuldades emocionais aparece nas fotos que desaguam melancolia. “Eu acho que a coisa mais interessante em montar esse livro foi ver o progresso dos meus pensamentos, como eu me sentia sobre mim mesma, e como eu me sentia sobre as mulheres. Minhas fotos começaram meio violentas e escuras porque eu estava confusa sobre ser uma mulher jovem, e sobre como tirar imagens de outras mulheres que não iriam explorá-las.” Essa energia e interesse em se representar e representar outras mulheres foi, e ainda é, a força de seu trabalho.

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(Rizzoli/Divulgação)

Com fotografia analógica, cores quentes, flores e adesivos, ela não conquistou apenas o mundo da fotografia mas também o mundo da arte. Desde então, seu trabalho foi além da captura de imagens e foi traduzido na curadoria de performances do MoMA, na direção de vídeos de nomes como Carly Rae Jepsen e Selena Gomez, além da criação de campanhas para a Gucci — da qual ela também foi modelo. Assim, não é apenas seu olhar que coloca em perspectiva a dominação do homem nas artes e na moda, mas também sua presença. Considerada uma figura presente em diversos meios — assim como Andy Warhol —, Petra, hoje com 24 anos, conseguiu compartilhar a sua estética para uma audiência múltipla. Apesar disso, ela é cuidadosa com o rótulo de mulher que retrata mulheres ou que tem um olhar feminino: “eu sou uma artista e tiro fotos, e só porque eu sou mulher não significa que eu tenha que ser rotulada dessa forma.”

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(Petra Collins/Divulgação)

Tal presença tão reflexiva, é claro, causa controvérsia: um de seus auto-retratos, que mostravam que Petra deixava seus pelos pubianos naturais, causou furor no Instagram. A foto não era um lembrete, mas mostrava que algumas garotas não se depilam. Essa noção, tão clara em seu trabalho, pareceu surpreendente para os olhares sobre mulheres com os quais estávamos acostumadas. “Eu nunca quero dizer que eu represento todas as garotas”, contou ela à The New Yorker. “Existem muitas realidades do que é ser uma mulher”, finalizou.

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