“Nunca tinha visto mulheres se mexendo daquele jeito e quis fazer parte”

Após 10 anos na Batsheva Dance Company, Bobbi Jene Smith começou uma história solo que deu origem a um filme sobre encontrar sua própria voz na arte.

Bobbi Jene Smith era caloura na Juilliard School quando assistiu a companhia de dança israelense Batsheva. “Nunca tinha visto mulheres se mexendo daquele jeito, de maneira poderosa. O mundo da dança doutrina a contenção ao fazermos tudo pequeno, como se nosso objetivo fosse desaparecer graciosamente. De repente, eu vi aquela linguagem que dizia: quanto mais expansivo, melhor”, relembra ela, norte-americana, natural de Iowa. Instantaneamente, seu objetivo virou se tornar parte da companhia e, anos depois, em 2005, ela deixou a universidade para se juntar à trupe de Ohad Naharin como uma das bailarinas principais.

Lá aprendeu Gaga, a linguagem de movimento desenvolvida por Naharin, diretor da Batsheva, e tema do documentário Gaga: O Amor pela Dança (2005). Em suma, o método “oferece uma caixa de ferramentas para conseguirmos ouvir melhor nosso corpo” e levou a bailarina a ressignificar noções de esforço, dor e prazer. “Tive sorte em trabalhar numa companhia que valoriza a mulher, em vez de engessá-la. Não faz sentido algum enquadrar uma mulher como frágil ou forte. Podemos ser as duas coisas. Não quero ir adiante a pontapés. Quero expandir para todos os lados.”

Bobbi, 34 anos, é dona de um carisma raro e um talento incontestável. Curiosa e audaciosa, de repente se viu numa encruzilhada: amava a Batsheva e poderia dançar lá “até o fim dos dias”, mas vinha alimentando o desejo de se dedicar a seu trabalho solo como coreógrafa. “Sempre pensei em voltar para casa, mas ficava esperando por um momento de clareza que me desse o empurrão. Até que me dei conta de que tal momento nunca ia chegar. Eu sabia que levaria uns dez anos para construir algo novo. Já estava com 30 e precisava tomar uma decisão. E tomei.”

Os últimos meses de Bobbi na Batsheva e a jornada que se iniciou ao decidir deixar para trás uma carreira sólida e um relacionamento amoroso em Israel (com Or Schraiber, com quem hoje ela é casada) para recomeçar nos EUA foram registrados em Bobbi Jene, um longa premiado como o melhor documentário de 2017 no Festival de Tribeca. O filme é um retrato contundente de uma mulher buscando encontrar sua voz e sua independência nos seus próprios termos, lidando com os dilemas e as consequências dessa ambição, ao mesmo tempo que é uma história de amor.

O filme é tão intimista que, quando beira o constrangedor, a própria Bobbi dá indiretamente um chacoalhão no espectador durante uma cena em que conversa com a mãe. “Esconder-se às vezes é mais dolorido do que se expor”, diz, carregando um saco de areia no qual, cenas depois, ela se esfrega até atingir o orgasmo diante do público em um museu. Pode soar pornográfico, mas a performance não se traduz assim. “É uma meditação fascinante sobre esforço e prazer, vergonha e desejo”, descreve a crítica do The New York Times. “É claro que fiquei envergonhada quando assisti, mas eu não apoiaria o filme se não me sentisse constrangida. A vida é constrangedora. Amei fazer parte de algo que diz respeito ao meu trabalho tanto quanto ao da Elvira (Lind, diretora do filme). Construímos algo juntas”, comenta.

Vivendo hoje em Nova York, ela tem se dedicado pacientemente a seus projetos autorais, além de lecionar na New York University e na Juilliard. Coreografou o sci-fi Aniquilação (2018), estrelado por Natalie Portman (e disponível na Netflix), protagonizou o longa britânico Mari, com estreia prevista para julho no Reino Unido, e está preparando um espetáculo para o Royal Danish Ballet. Também tem dado sequência a dois projetos recorrentes, Arrowed e A Study on Effort. “Sabe, construir algo, desconstruir algo, ambos requerem exatamente a mesma ação física. O que muda é nosso olhar. Enquanto eu continuar curiosa, estarei bem.

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