Djamila Ribeiro é nossa editora convidada e feminista poderosa

Na ELLE de março, a filósofa participou ativamente da edição e aqui ela responde às perguntas de Vivian Whiteman. Leitura obrigatória.

Djamila Ribeiro é filósofa, feminista e nossa editora convidada de março. Mais do que isso, é uma mulher inspiradora, inteligente, linda e forte. E ainda dá aulas para atrizes como Fernanda Lima e Camila Pitanga sobre feminismo e racismo.

Leia mais: Djamila Ribeiro: “A mãe que me permito ser”

Batemos um papo com ela, que você confere abaixo. Você pode ou não amá-la, mas é impossível ser indiferente às palavras e pensamentos de Djamila. Duvida? Então leia até o fim:

Você é uma mulher belíssima e segura de sua beleza, mas li que você já teve problemas com certos padrões, de cabelo por exemplo, quando era mais jovem. Como foi esse processo de enxergar a beleza que sempre esteve com você? Como você analisa essa sombra maléfica que os padrões branco/ocidentais projetam sobre as mulheres, sobretudo no caso das mulheres negras?

Esse processo foi doloroso porque, quando a gente era criança, era algo que mexia muito comigo. Dentro da minha família, meus pais eram negros e sempre debateram essas questões. No ambiente familiar a gente se deu muito amor. O choque aconteceu quando eu fui para a escola pela primeira vez porque no ambiente escolar a gente sofre uma série de agressões e violências cotidianas. Eram piadas sobre o cabelo, os meninos que não querem fazer par para a festa junina (e falam isso olhando nos seus olhos)… A gente também não se enxerga no material didático, que conta a história do Brasil com o negro sendo escravo sem levar em conta toda a complexidade dessa história, sem falar sobre África, por exemplo. Ao mesmo tempo, era uma época de efervescência da Xuxa. Eu chegava em casa, ligava a televisão e todas as paquitas eram loiras de olhos azuis, e diziam que nós meninas negras não poderíamos participar.

Tudo aquilo que meus colegas de escola tiravam sarro se confirmava quando eu ligava a televisão ou abria uma revista porque não via pessoas como eu, com o meu cabelo, dentro desses espaços. É preciso falar como essa invisibilidade é uma violência no sentido que você não se enxerga positivamente. Você é vetada por ser quem você é, por ter suas características físicas. Essa ausência dentro desses espaços – televisão, revistas, espaços hegemônicos –, em geral, é ideológica. Não é à toa.

É preciso discutir como o racismo tem um papel protuberante na construção do belo, do desejo, e isso faz com que a gente passe uma vida inteira negando as próprias características até conhecer um mundo a partir de outros olhares. Porque tudo isso – essa construção branca ocidental, eurocêntrica – constrói um mundo. Se a gente cria um mundo a partir de uma única visão, a gente tem uma imposição de mundo e não várias possibilidades de mundo.

Passo a gostar de mim, a me olhar de forma diferente, quando me é apresentado outro mundo, um mundo que não é único, um mundo que não é monocromático, um mundo onde na sua construção aparecem mulheres negras, homens negros, indígenas. É esse mundo que, quando é apresentado a mim, faz com que eu me identifique e desconstrua a imposição que foi colocada. E só a possibilidade desses outros mundos fez com que eu pudesse refutar a imposição daquele olhar único e eurocêntrico sobre corpos e vidas negras.

Além do seu reconhecimento acadêmico internacional e enorme importância como intelectual no Brasil, você tem ainda um talento de difusão, um trabalho educativo em grande escala. Comenta-se muito as aulas que você dá para atrizes globais como Fernanda Lima e Camila Pitanga. Como você analisa que elas auxiliam essas formadoras de opinião no sentido das ideias que elas expressam publicamente?

O trabalho com as atrizes começou em maio do ano passado, e eu acho importante quando elas sentem a necessidade de se aprofundar nesses temas porque mostra, de fato, um respeito com as pautas. Por conta das redes sociais hoje, todo mundo fala sobre tudo e acho que muitas vezes existe uma superficialidade nas discussões. Pessoas que têm grandes públicos e são formadoras de opiniões sendo irresponsáveis na hora de se manifestar.

Eu sempre prezo muito por isso: a responsabilidade ao escrever algo. Então, se vai opinar e escrever sobre algo, a gente tem que saber. Nem que seja para criticar. A gente tem que conhecer bem o que se vai criticar. É muito importante quando pessoas e atrizes que são famosas no País têm esse interesse porque faz com que elas se aprofundem e, na hora de se manifestar publicamente em certos temas, vão se posicionar de uma maneira muito mais embasada, mais responsável.

É uma maneira de sair dessa bolha da militância – de “converter o convertido”, como a gente fala – porque a maioria da população não tem acesso a esses temas. Então, se pessoas como elas se propõem a fazer isso de maneira responsável, estudar é o caminho. De fato, a gente precisa estudar sobre essas questões para não contribuir para um esvaziamento, porque ao mesmo tempo em que o debate se popularizou também acontece esse período de esvaziamento. Vejo uma função social nisso: disseminar informações e conhecimentos sobre o feminismo de forma a contribuir na transformação da mentalidade de muitas pessoas que só ouvem falar sobre essas questões de maneira enviesada.

Veja também

Você já foi convidada a falar em universidades como Harvard e Oxford, entre outras. Como seu trabalho é recebido no exterior?

Tem sido muito interessante, eu fiquei muito surpresa com esse interesse. Nesse ano, eu já tenho marcadas três palestras internacionais. Os primeiros eram eventos de pessoas brasileiras que estudam ou moram fora. Mas os outros que começaram a vir, que não tinham ligação com o Brasil, me espantaram no sentido de ver como isso está reverberando em outros países.

Sinto uma troca muito mais aprofundada, muitas vezes mais do que aqui no Brasil, onde ainda há uma barreira grande na hora de se pensar epistemologia. Tem um racismo epistêmico forte por parte das pessoas de modo que algumas se quer se propõem a ler o que a gente escreve.

O lançamento do meu livro mostrou isso. Homens brancos, intelectuais, que sabem que não se pode criticar nada sem saber, desmerecendo o livro sem um único argumento digno, embasado, sem ler. Esse tipo de coisa, por exemplo, nos encontros que eu participo fora não acontece. As pessoas podem até divergir, mas sabendo do que estão falando. Sinto muita falta disso aqui no Brasil, desse compromisso, desse respeito às epistemologias negras, formuladas por mulheres negras.

O que a gente não aceita é desqualificação e desrespeito. Divergência é bem-vinda, mas para divergir, tem que conhecer. Para fazer uma crítica, tem que conhecer bem o seu objeto de crítica. Eu acho que aqui no Brasil as pessoas gostam muito de falar sem saber, ser especialista em opinião furada e não respeitar outras construções. Nesses encontros, eu percebo um respeito muito grande. Esse ano, recebi dois convites: um para Londres, em abril, e o outro em junho, para Frankfurt. Vindos de pessoas desses países que conhecem o meu trabalho, o que para mim foi uma surpresa. Estou bem curiosa para saber qual vai ser a recepção.

Olhar o tamanho do mar é o que acalma, pois me coloca no lugar de que eu sou só um ponto nesse universo inteiro e que eu não preciso por conta disso ser mártir, me sacrificar para conseguir as coisas.

Por que ainda se exige da mulher intelectual um certo clichê de seriedade quase masculino no vestir? Como você enxerga o seu estilo, o que você acha que ele diz sobre sua personalidade?

Existe toda uma construção não só em relação à intelectual, mas de que as mulheres precisavam se masculinizar paras serem levadas a sério. Porque se entende nessa sociedade machista que o feminino é algo inferior. Então tivemos mulheres em cargos de chefias, CEOs, que se masculinizaram para serem respeitadas dentro de um ambiente extremamente hostil. Eu entendo que em um começo, para as mulheres que foram as primeiras a estarem nesse ambiente, isso foi necessário como uma maneira de proteção. Não consigo nem imaginar o que deveria ser na época dessas mulheres ser feminina dentro desses espaços, mas eu acho que é importante quebrar esses paradigmas.

Sou uma pessoa que contesta isso porque tem um monte de intelectual que é pura imagem. Um clichê eurocêntrico de como um intelectual deveria parecer. Existe também uma construção eurocêntrica do feminismo ocidental que vê um certo feminino como defeito. Eu parto de outros pontos, de que o feminino é algo para ser forte, exaltado, algo que não é fixo, muito pelo contrário. Não é algo que te fixa, então você pode ser mãe, guerreira. Se pegar os arquétipos do orixás, você pode ser feminina e ir para guerra, então não tem uma construção do feminino como submisso.

Parto desses outros femininos que não me restringem a uma coisa só, mas me abrem para uma série de possibilidades de existência. Você pode ser sensual e séria, sensual e guerreira. Quando a gente parte de outros pontos de geografias da razão construímos outras formas de ser. O feminino só é ruim em uma sociedade machista. Se a gente ressignificar isso e pensar no feminino como potência, tudo muda.

Djamila Ribeiro

 (Josefina Bietti/ELLE)

Por que a imagem da mãe foi tão afastada do feminismo por tanto tempo?

As mães foram mesmo afastadas se pensarmos nesse feminismo dominante, mas se a gente pegar a luta das mulheres por creches, das mulheres de comunidade, existem outros feminismos que vêm pautando essas questões há muito tempo. A luta de creche da década de 1970 tem um movimento muito forte e que vem de mulheres proletárias, da classe trabalhadora, de periferia e que alavanca muitas conquistas sociais.

No feminismo hegemônico, que é o feminismo de mulheres de classe média alta, branca, muitas estavam lutando por direitos trabalhistas iguais para homens e mulheres, mas muitas vezes exploravam a empregada dentro de casa. Então, nós, feministas negras, gostamos de fazer essas diferenciações para não se pensar no feminismo como algo único e universal. O movimento feminista é algo muito diverso, ele é heterogêneo, parte de pontos diferentes não necessariamente as feministas vão concordar entre si.

Existem várias vertentes de pensamento, mas acredito que essa corrente dominante do feminismo branco, classe média e burguês, de fato, invisibilizou essa pauta da maternidade. Até porque, eram mulheres que pagavam para que outras mulheres em situações mais desfavoráveis cuidassem dos filhos delas. Então, isso não era uma questão para essas pessoas privilegiadas.

Fazer essa diferenciação é importante para mostrar que, historicamente, existem mulheres que vêm lutando, fazendo o debate do feminismo e maternidade, e acredito que hoje essas mulheres privilegiadas estão entendendo a necessidade de também fazer essa discussão. Não dá para se pensar feminista quando a gente acha que feminismo é só atender os desejos de uma classe de mulher e continuar oprimindo outras mulheres.

Divergência é bem vinda, mas para divergir, tem que conhecer. Para fazer uma critica, tem que conhecer bem o seu objeto de crítica. Eu acho que aqui no Brasil as pessoas gostam muito de falar sem saber, ser especialista em opinião furada e não respeitar outras construções.

Você escreve muito sobre sororidade e apoio entre mulheres. De que maneira uma mulher branca, diante de seus privilégios estruturais herdados de um sistema colonialista e opressor, pode se tornar uma aliada na luta contra o racismo?

Eu penso que o primeiro ponto é desenvolver empatia, só que muitas vezes a gente tem uma visão equivocada do que é empatia, acha que é empatia é um sentimento. Empatia é uma construção intelectual. A gente vai ler, conhecer a realidade do outro para desenvolver a empatia.

Se eu não conheço a realidade das mulheres negras, não sei sobre aquilo – que elas são as maiores vitimas de feminicídio no Brasil, as que mais morrem por causa do aborto ser criminalizado, ou as que, pela combinação de racismo e machismo, acabam ocupando a base da pirâmide social – eu não vou conseguir desenvolver empatia.

É um processo que dá trabalho, que leva tempo. Eu acho que é justamente por isso que a gente às vezes tem dificuldade de encontrar aliados, porque as pessoas acham que é simplesmente se sentir comovida por um fato pontual, pronto, e não perceber e não estudar. É uma coisa que leva tempo porque aí, quando você vai ler, você precisa desconstruir muitas coisas em você.

Como diz a Audrey: “matar o opressor em nós”. E isso dói, leva tempo e é incômodo. E as pessoas não querem essa tarefa incômoda de se pegar no papel de opressor. A Grada Kilomba é uma autora que eu gosto muito e fala do quanto os sujeitos coloniais não querem ouvir o que os sujeitos que foram colonizados falam porque esses sujeitos trazem verdades desagradáveis como racismo. Então é mais fácil eu reprimir e não entrar contato, continuar a vida numa boa do que encarar aquilo que vai exigir de mim um trabalho. É um processo contínuo e não há outra forma.

O que mais te irrita na vida? E o que te acalma?

Eu acho o que me irrita na vida são as injustiças e o quanto que as violências são naturalizadas, sobretudo no Brasil. A gente não entende que essas violências naturalizadas são frutos de opressão e de injustiças históricas. De olhar para pessoas negras e ver essas pessoas sendo assassinadas, sem oportunidades, achar que aquilo é natural, que foi previamente fixado, que é assim por que é.

O que mais me acalma todos os dias é pensar sobre a vida, meditar… Eu sou uma mulher do candomblé. O que mais me acalma são as certezas de que existem coisas muito maiores que eu, que existem fenômenos maiores do que eu. No candomblé, os orixás são fenômenos da natureza e estão sempre dispostos a mostrar o rumo certo. Eles me dão a dimensão da finitude, então aceitar a finitude, a insignificância nesse mundo grande, é algo muito importante que me acalma.

Muitas vezes o militante tem essa síndrome do super-herói ou essa síndrome que ele é insubstituível, e isso muitas vezes leva essas pessoas a lugares não tão legais. A vaidade leva para lugares que te distancia dos seus ideais. Meu pai sempre me disse “olhe para você e olhe para o o mar, olhe o tamanho do mar…”. Olhar o tamanho do mar é o que acalma, pois me coloca no lugar de que eu sou só um ponto nesse universo inteiro e que eu não preciso por conta disso ser mártir, me sacrificar para conseguir as coisas. Me humaniza, e isso me tranquiliza. É algo que me fortalece e ao mesmo tempo coloca minha alma e coração no lugar.

Que tipo de música você curte? E você tem uma musa inspiradora?

Eu gosto muito de blues, jazz… Eu sou uma pessoa muito old school. Musa inspiradora… São várias! Alice Walker, Toni Morrison, Sueli Carneiro. A Toni Morrison foi a primeira mulher negra a ganhar o Nobel de literatura em 1993, foi uma mulher muito importante assim na minha vida. Whitney Houston eu amo/sou fã, acho absurdo tentarem reduzi-la a uma mulher usuária de drogas, ela foi muito mais do que isso. E eu não sou uma pessoa que fico obstruída dentro desses padrões europeus de intelectualidade, também vejo o valor do pop. Fui fazer filosofia sem ser uma pessoa de família rica né, porque antigamente só faziam filosofia pessoas com dinheiro, porque quem ia viver de filosofia no Brasil?

Então, tem essa questão de eu ser uma pessoa da classe operária estudando filosofia. Não fui uma pessoa que cresceu lendo Nietzsche, muito pelo contrário. Apesar de o meu pai ser um cara muito inteligente de ler pra gente. Tive uma educação muito boa, de estudar xadrez, aprender idioma, mas não tive essa educação de viajar o mundo, privilegiada no sentido de grana. Fui privilegiada de ter um pai muito inteligente, militante, ativista, de entender a necessidade do estudo. Então a música “The Greatest Love of All” da Whitney Houston é uma música que marcou a minha vida, foi importante para mim. Eu não tenho problema nenhum em reconhecer como coisas da cultura de massa foram importantes para a minha autoestima. A revista Raça Brasil quando surgiu e tantas outras coisas que me inspiraram, foram musas de alguma maneira.

Djamila Ribeiro

 (Josefina Bietti/ELLE)

Um livro que mudou seu pensamento.

O livro que mudou minha vida foi o Olho Mais Azul, de Toni Morrison, que li quando eu tinha uns 20 anos mais ou menos. Retrata a realidade racial nos Estados Unidos na década de 1950. É um livro muito forte, que é extremamente bem escrito e que mudou meu olhar sobre mim. Uma época muito importante da minha vida.

Tem um trecho do livro que me marca muito é quando ela fala que “o amor nunca é melhor que o amante, pessoas violentas amam com violência, pessoas cruéis amam com crueldade.” Porque muita gente não entende que isso depende delas também. Não é uma entidade que vai incorporar e mudar a vida. Se elas continuarem violentas, vão amar com violência, se continuarem cruéis, vão amar com crueldade. Eu acho que quando ela responsabiliza o sujeito é muito importante. Ela coloca como o amor é construído como uma ideologia, sobretudo para as mulheres. Quando ela desmistifica isso eu acho brilhante.

Qual seu poema favorito?

Um deles é da Maya Angelou, “Ainda assim, eu me levanto”, um poema lindíssimo, assim como “Mulher fundamental”. Maya Angelou foi muito importante na minha construção como sujeito. Ver como ela exalta nossa beleza, como ela exalta nossa história, como ela é uma mulher forte. Ela é um dos fios condutores da minha vida. Sobretudo em momentos tristes, volto ela e leio “Ainda assim, eu me levanto”. Ela fala: “você pode querer me riscar da história, você pode querer me aviltar, mas mesmo assim eu vou me levantar.” Esse poema é um guia na minha vida.

Comentários
Deixe um comentário

Olá, ( log out )

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s