Female gaze brasileiro: 10 fotógrafas inspiradoras

Conheça 10 mulheres que estão transformando o modo como o feminino é retratado através das lentes.

A forma limitante como as mulheres foram retratadas ao longo dos anos na publicidade, no cinema e na moda ajudou a reforçar inúmeros estereótipos de gênero. Pense em campanhas de lingerie extremamente sexualizadas ou em anúncios de perfumes nos quais, muitas vezes, os rostos eram tampados e apenas corpos magros e nus costumavam ser vistos. O male gaze, ou seja, o olhar masculino sobre corpos femininos, continua tendo força, mas mulheres estão encontrando formas de quebrar barreiras e apresentar uma nova visão sobre seus corpos, sua individualidade e subjetividade. São mulheres que fotografam mulheres e que, considerando seus contextos sociais particulares, apresentam em seus trabalhos um olhar que só pode ser compartilhado por quem sofre opressões similares.

Lá fora, Petra Collins é uma das artistas que tem ganhado espaço com suas imagens que evocam nostalgia e sonho. Trabalha constantemente com a Gucci, assinou a campanha mais recente de Rihanna e é a responsável pela mudança de estética das fotos e clipes de Selena Gomez. Em novembro, lançou seu livro Coming of Age, uma celebração de seus primeiros retratos, sempre clicando meninas em seus ambientes mais íntimos. Ela é um exemplo de quebra de paradigmas na fotografia de moda e vem inspirando mais jovens a fazerem o mesmo. Por isso, não é de se estranhar que ela tenha sido citada por algumas das novas artistas brasileiras que mapeamos nesta lista. Navegue pelo trabalho dessas mulheres e se inspire por suas trajetórias e fotos:

Georgia Niara

“Tudo que eu faço, eu inspiro e expiro o fato declarado de ser uma mulher negra. Quando registro outras mulheres negras, isso é um reflexo subjetivo de mim mesma, e de todas nós”, conta a fotógrafa Georgia Niara. Ela é uma das entrevistadas que coloca em perspectiva a questão racial e social para falar de seu olhar, de como isso dá mais peso à sua condição de mulher e como sua posição na sociedade e sua vivência transparecem nas fotos. “Por questões de luta, a política é o meu forte”, aponta. E não apenas através das lentes: junto com três amigos, ela formou o coletivo negro Quilombo XXIII, para promover atividades educativas, políticas e culturais para sua comunidade, na zona oeste de São Paulo.

Ela começou a fotografar com o celular, tanto para retratar momentos pessoais quanto seus amigos, e isso acabou evoluindo para algo maior depois de se formar em fotografia para cinema em uma instituição direcionada a jovens periféricos. Acredito que existam muitas mulheres para contar diferentes histórias e mostrar outras perspectivas. Eu não sabia o que era ‘female gaze’, mas sei que corremos riscos ao sermos fotografadas por homens — dentro da construção masculina, nossos corpos não passam de objetos sexuais. Apesar disso, não podemos deixar que nosso olhar nos limite”, reflete.

A área ser “predominantemente dominada por homens e brancos” não é o único problema que mulheres como Georgia irão enfrentar. “O buraco é bem mais embaixo. Além de machismo, existe a questão racial. Além de duvidarem de mim, existe uma questão histórica. Já é difícil para uma mulher branca conquistar algumas coisas nesse ramo, imagine para uma mulher negra!”. Como vencer isso? É preciso de reparação história, aponta: “para começar a falar da equidade, as portas e as carteiras precisam ser abertas”. E é importante também reconhecer quem veio antes, como Sarah Lewis, Delphine Fawundu e Viviane Sassen, algumas de suas referências.

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(Georgia Niara/Reprodução)

Anna Mascarenhas

“Olhar e fotografar um corpo feminino sempre foi um tipo de privilégio masculino. A consequência disso é o eterno estigma da sexualidade e do corpo, objetificado e padronizando da mulher”, fala Anna Mascarenhas à ELLE. Para a fotógrafa e artista, essa é a definição de olhar feminino — e não a categorização do que as mulheres enxergam o mundo com uma dose extra de sensibilidade. “Não gosto de dizer que meu olhar é sensível porque todos temos uma sensibilidade manifestada de formas diferentes.” Partindo desse ponto, então, sua fotografia pensa o feminino ao fazer escolhas diferentes das que um homem normalmente faria para realizar um clique. “Uma fotografia é uma escolha. Eleger um enquadramento, uma sombra ou textura, já contém algo de humano, conceitualmente”.

As lentes de Anna fazem uma busca que passa entre o corpo, a sexualidade, a tristeza e o feminino tanto como pesquisa imediata como pela busca de algo maior. Independentemente do foco, ela acredita na necessidade de ter cada vez mais mulheres atrás das câmeras. “Sou uma mulher dentro de certos padrões sociais, o que é um privilégio e dispersa o machismo algumas vezes. Mas ele nem sempre se manifesta de forma direta. Uma chefe minha, uma vez, me disse que estava me enviando para um clique porque eu era bonitinha e ‘eles [os homens retratados] ficariam mais à vontade’. É preciso jogar a insegurança longe, e acreditar no que estamos fazendo com força e intuição.”

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(Anna Mascarenhas/Reprodução)

Carolina Sulzbacher

Observar as amigas e se inspirar em seus movimentos e ações cotidianas faz parte do trabalho de muitas fotógrafas contemporâneas. É perceber que há poesia e resistência no infinito particular de cada mulher, e essa sensibilidade também move Carolina Sulzbacher. “Comecei com 12 anos, não tinha muitos recursos e, por ainda estar na escola, a ideia de fotografar minhas amigas fazia parte de uma brincadeira divertida”, relembra. Hoje, ela se atrai por imagens que revelam vulnerabilidades e imperfeições, tudo o que nos torna humanos, e também por esse processo de autoconhecimento feminino. “O editorial Unfamous Girl é sobre a sensação de liberdade que vem da solidão de se conhecer e conhecer o próprio corpo”.

Assim como nas fotos de Petra Collins e Arvida Bystrom, algumas de suas inspirações, há um toque de melancolia e cores quentes no ar. Objetos que fazem parte do imaginário feminino, como espelhos e cartas, compõem um cenário nostálgico. “Quando penso em female gaze o que me vem à cabeça é uma estética construída a partir de vivências femininas, que, num nível mais profundo, também tem a ver com a forma como é construído esse papel feminino socialmente”. Ainda que seu trabalho passe, sim, uma sensação de delicadeza, também há muita força, a força de uma mulher se encontrando.

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Editorial “Unfamous Girl”. (Carolina Sulzbacher e Maísa Mendes/Reprodução)

Julia Razuk

As fotos de Julia Razuk estão animando o mundo da moda, já que oferecem um olhar novo e fresco sobre temas sempre atuais. “Precisamos urgente ressignificar o que é ser homem e mulher. Enquanto isso não acontecer, o contraste entre nós (que é saudável), só vai dividir e criar padrões”, contou ela.

Surgem, então, em seus cliques, mulheres em poses menos regradas, apresentadas em uma luz brilhante, envoltas por suas referências e inspirações — tanto do fotojornalismo quanto das fotografias documentais. “O trabalho de muitas mulheres me inspira. Não tem como falar de todas e nem só de uma. Mas já fica um beijo para a Rihanna”, finaliza Julia, mostrando a leveza com a qual acredita que o mundo deve ser contemplado.

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(Julia Razuk/Divulgação)

Maísa Mendes

Ao lado de Carolina Sulzbacher, Maísa clicou o editorial Unfamous Girl. Assim como a amiga, em seu trabalho existe a construção de um universo feminino ao mesmo tempo em que há uma preocupação em, exatamente, quebrar os estereótipos ligados a ele. “Meu foco está nas desconstrução da feminilidade, no empoderamento e nas imperfeições”, diz. “Por mais que essas imagens sejam bem sensíveis e delicadas, encontramos muito contraste nelas: a mulher que não se depila, que mostra seu corpo e sua intimidade sem ligar para o que os outros irão pensar.” São desses preceitos que a fotógrafa busca se afastar ao mostrar que não é preciso ser “depilada, frágil, bela, recatada e do lar” para ser, de fato, uma mulher.

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Editorial “Unfamous Girl”. (Carolina Sulzbacher e Maísa Mendes/Reprodução)

Coletivo Amapoa

O coletivo Amapoa, formado por Camila Svenson e Pétala Lopes, está acabando com a ideia de que mulheres não podem trabalhar juntas. As fotógrafas se conheceram na internet por causa de seus cliques, e os interesses em comum — como criar um diálogo por meio da fotografia — pareceram se fortalecer com a união feminina. “Essa ideia de competição é uma maneira de nos enfraquecer. Trabalhar em conjunto nos ajuda a conquistar certos espaços, lugares que sozinhas não conseguimos acessar”, contam à ELLE. Tudo começou quando surgiu a ideia de retratar mulheres lésbicas de São Paulo e da grande São Paulo, mas logo a temática se espalhou para novos temas. “É mais sobre achar alguém que se importe com as mesmas coisas que você — não só na fotografia, mas no mundo.”

“Intuitivamente, as histórias que nos interessam e emocionam são, na maioria das vezes, protagonizadas por mulheres”, declaram. Para elas, essa forma de encarar sua produção é mais interessante do que destacar um olhar feminino, que pode limitar, já que sua captura vai muito além da questão do gênero. Apesar de já terem conquistado uma posição de contestação, elas exibem a necessidade de que seu trabalho vá além disso. “Parece que o feminismo está na moda somente no produto final, já que, estruturalmente, quem continua na posição de poder são os homens — desde revistas que falam sobre mulher, até campanhas e prêmios. A maior reflexão disso tudo é se entender como mulher nesse meio, e encontrar formas para contestar os espaços, sem medo“, finalizam.

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Mayara Rios

Mayara Rios gosta de retratar mulheres libertas: ao ar livre, próximas da natureza, “onde os corpos complementam as formas”. O poder feminino não está só na forma como ela retrata mulheres, mas também na confiança com a qual elas ficam nuas para a sua câmera. “O female gaze é necessário hoje. Nós mulheres temos outra empatia. Além disso, os encontros femininos geram uma energia forte e bonita que está presente no meu trabalho”, conta ela.

Nas fotos de Mayara, o corpo feminino passa longe daquele que foi apresentado ao longo dos anos pelos homens. As estrias aparecem, os corpos podem ser naturais e até mesmo a menstruação é retratada. As fotos resgatam essa relação de confiança entre mulheres — que muitas vezes é perdida — e podem empoderar as mulheres, ao invés de objetificá-las. “Acho estranho um fotógrafo homem vender uma ideia de empoderamento feminino [por meio do nu]. Não que todos façam isso — e nem que elas mulheres não possam se sentir maravilhosas e livres. Não tem nada de errado. Mas temos questões que passamos juntas, e isso gera uma cumplicidade. Quando duas mulheres se unem para criar algo juntas, isso já é um ato de muita coragem.”

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(Mayara Rios/Reprodução)

Mariana Caldas 

As personagens e mulheres fotografadas por Mariana Caldas estão, muitas vezes, envoltas por uma luz sensual — mostrando que é possível retratar questões como a sexualidade, a tristeza, a dor e o a amizade e o companheirismo entre mulheres sem cair na objetificação. “Eu sinto como é ser mulher nesse mundo — e é bem complicado. Ao mesmo tempo, não consigo deixar de acreditar que nossa existência sempre vai ultrapassar nosso gênero. Acho que o meu trabalho sempre vai ser um pouco sobre as infinitas sensações que existem no ser mulher no mundo, mas também no estar vivo, e ser, apenas”, explica Mariana. Essa dualidade — quem também é apontada por outras mulheres no texto —, é um dos pontos de maior interesse quando o tema é olhar feminino.

Para ela, que teve na câmera uma companhia para “um momento estranho na vida”, quando estava obcecada pelo tema, a busca feita com as lentes é também para ter força e voz. Daí surgem suas inspirações, tão evidentes em seus cliques: “a nossa natureza selvagem, o que você trouxe pro mundo com você. O encontro entre você e o que você ainda não conhece sobre você.”

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(Mari Caldas/Divulgação)

Damaris Belchior

Protagonistas de nós mesmas. Essa é a frase com a qual Damaris Belchior define o olhar feminino. “Acredito em um olhar feminino no quesito de ele vir de um lugar sofrido, com opressões, e capaz de subverter isso, não de algo inato ou construído socialmente”, conta à ELLE. A fotógrafa começou a clicar para converter o que sentia em expressão sem precisar usar as palavras: “enquanto periférica e mulher dentro de uma sociedade patriarcal, sempre tratada com inferioridade, passei a ter o feminismo e a política como interesse.”

A identificação entre duas mulheres é o elo que, de acordo com Damaris, permite que elas se representem e compartilhem não apenas saberes, mas também cuidado e atenção, “para não reproduzir o machismo e o sexismo da cena cinematográfica.” Se inspirar em mulheres como Vivian Maier, “o corre das minas da quebrada sendo fortes dia após dia”, lutar contra o silenciamento, a objetificação de modelos e atrizes são formas de combater o machismo da área. “Para lidar com isso, precisamos formar cada vez mais equipes compostas por mulheres e não nos calarmos diante de nenhuma situação”, reitera.

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(Damaris Belchior/Reprodução)

Andréia e Nathalia Takeuchi

Apesar de ser majoritariamente focada no público feminino, a indústria da moda ainda é, em sua maioria, liderada por homens. Fotógrafos, maquiadores, stylists costumam assinar as maiores campanhas e receber grandes prêmios. Por isso, é muito animador ver trabalhos tão bem executados como os das irmãs gêmeas Andréia e Nathalia Takeuchi, a dupla Takeuchiss, que depois de uma temporada estudando fora do Brasil, voltaram ao País para investir na área. Há muita experimentação estética em seus projetos, que já ganharam bordados, colagens e vídeos, mas é o olhar atento às particularidades das modelos que mais chama atenção. “A gente vê beleza no estranho, no não convencional. Gostamos de deixar as coisas fluírem naturalmente, então muitas de nossas fotos são espontâneas, não muito posadas”, explicam.

Buscando mais força para expandir seu olhar, nos trabalhos autorais, as duas preferem reunir um time composto apenas por mulheres. “Sem dúvidas o mercado ainda é dominado por homens e a falta de visibilidade de fotógrafas mulheres dificulta a possibilidade de novas visões e narrativas. Falar sobre o female gaze inclui discutir questões como quebra de padrões, representatividade e a valorização da mulher no mercado”. Carlota Guerrero, Nhu Xuan Hua, Harley Weir e Petra Collins são representantes que as inspiram por suas visões fortes e pelo espaço que abriram para outras mulheres no mercado de moda. Estamos ansiosas para ver os próximos passos das irmãs ao quebrar barreiras nesse meio.

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Para o Brechó Replay, clicado pelas irmãs Andréia e Nathalia Takeuchi. (TAKEUCHISS/Reprodução)

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