Mulheres mudam a forma como são representadas por meio do grafite

Elas aproveitam a visibilidade dos muros para debater padrões de beleza e a falta de representatividade feminina.

Na nossa edição de março, conversamos com seis artistas brasileiras que mostram como é importante ter garotas ocupando as ruas, um local historicamente hostil e renegado às mulheres, rompendo juntas estereótipos de gênero.

Assim como em diversas áreas da cultura, a cena do grafite não foge da reprodução de comportamentos machistas. E se hoje existe um número crescente de representantes femininas é porque houve uma articulação de união entre essas meninas, que se organizaram em coletivos, ou aumentaram sua presença em eventos e redes sociais. “Minha maior luta sempre foi mostrar como a união faz a diferença. A gente sofre muito embate na cena e isso me frustrava porque, quando chegava lá, a menina normalmente não queria dar espaço à outra. A mulher foi criada para competir com as outras. Mas dá para mudar isso”, explica Bela Gregório, criadora do Efêmmera, um espaço criado para conectar, difundir e viabilizar projetos para as artistas de rua de São Paulo.

A quebra de padrões de beleza e a representatividade são temas que aparecem com força no trabalhos dessa geração de grafiteiras, que aproveitam a visibilidade dos muros para inserir imagens de poder. Conheça mais sobre as seis meninas com quem conversamos e seus projetos aqui:

Crica Monteiro

Quando era adolescente, Crica Monteiro gostava de pintar bruxinhas coloridas, afrontosas, com cabelos volumosos e traços que representassem garotas negras pelos muros da Zona Sul de São Paulo. Era uma forma de retratar as amigas e ela mesma. Naquela época, o começo do anos 2000, havia pouca companhia para as meninas que se aventuravam no grafite. “Com o tempo, fui percebendo que ser grafiteira, pelo olhar dos caras, era visto como uma competição. Mesmo com eles, eu estava sozinha”, relembra a artista paulista sobre o tempo em que andava em grupos compostos apenas por homens. Hoje ela faz parte de coletivos como o Efêmmera e criou a Rede Graffiti Mulher Cultura de Rua, que nasceu da necessidade física de um encontro que já acontecia nas redes sociais. Seus desenhos mostram mulheres negras poderosas com imagens de beleza que por muito tempo foram negadas a elas. “Quero falar que as mulheres negras são lindas, e retrato elas dessa forma. Quero que isso chegue até as meninas positivamente. Já ouvi garotas que se achavam feias e começaram a gostar de si mesmas quando viram meu trabalho por aí”, conta ela, que também tem um interesse grande por moda, que pode ser visto nos desenhos de garotas superestilosas que ela faz. Dá para acompanhar sua arte em seu canal do Youtube, em que ela compartilha dicas e experiências, e pelo Instagram.

Negahamburger

“Comecei a fazer grafite com figuras femininas ao mesmo tempo em que o assunto feminismo estava (e ainda está) explodindo na internet. Fui colocando minhas opiniões sobre o que via naturalmente em meu trabalho”, explica Evelyn Queiróz, criadora do projeto Negahamburguer. Suas personagens, que sempre aparecem maravilhosas, com estrias, pelos e curvas, podem ser encontrada em diversas frentes, como em tatuagens, lambes e também pintadas nos muros. “Eu sempre vou gostar da rua e não quero parar. É a oportunidade de colocar minha particularidade no caminho de muita gente que nunca vou conhecer e vice-versa, e eu acho isso incrível”. Essa vontade de entrar em contato com outras visões já levou a paulista a viajar pelo mundo, fazendo trocas que vão além do dinheiro, e conseguindo hospedagem por causa de sua arte.

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Lala Luz

A cena do grafite em Curitiba ainda é pequena, mas há meninas se articulando para estarem presentes nos muros da cidade. É o caso da Lala Luz, uma jovem modelo que divide seu tempo entre a moda e a street art. “As duas conversam porque se resumem à comunicação visual, exprimir um sentimento ou um posicionamento”, explica ela. “Eu virei modelo sem querer, o que foi bom para ajudar meu lado profissional, mas o grafite sempre foi o amor da minha vida, sempre vai ser meu primeiro plano”. Sua principal inspiração é a cultura indígena e em seus desenhos há personagens coloridas sempre com a ideia de representar o Brasil por meio das mulheres. “Comecei a retratar mulheres quando eu comecei a ter mais noção de que eu era feminista. Falo sobre violência contra a mulher, racismo e intolerância”. Assim como boa parte das meninas que vão para rua mostrar sua arte, Lala também sofreu com o machismo: “Passei por situações de desrespeito, mas sempre fui muita séria para mostrar que o grafite não era uma pira momentânea. Não estamos para brincadeira”, finaliza.

Graffiti em sp 🔥 só sorte de ter esses roles

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Minas de Minas

Em Belo Horizonte, é o Minas de Minas que movimenta essa ideia de coletividade. Quatro mulheres que já possuíam carreiras individuais perceberam que somente juntas conseguiriam articular palestras e eventos para debater questões como a falta de representatividade feminina no meio. “Em um ano, percebemos como o número de mulheres no grafite da nossa cidade cresceu. Organizamos um evento chamado Delas, que faz com que se conectem”, explica Carolina Jaued. O resultado está nos muros da capital mineira, que hoje homenageiam figuras brasileiras poderosas, como Elza Soares e Taís Araújo. O grupo começou a retratar mulheres há dois anos, quando perceberam que havia muitas histórias de vida inspiradoras que precisavam ser representadas. “Para esse ano temos elaborados painéis de mulheres da periferia, desconhecidas para a cidade, mas que são guerreiras de um aglomerado que trabalha, sustenta vários filhos, defende uma comunidade e dá voz a outras mulheres”, adianta Carolina.

Rede Efêmmera

O Efêmmera é um dos grandes exemplos de como a cena evoluiu a partir do encontro das mulheres. “Eu me dei conta de que as meninas não se comunicavam. Nos anos 2000, havia uma iniciativa tímida e restritiva. As meninas conheciam o trampo umas das outras, mas não interagiam. Minha maior luta é mostrar que a união faz a diferença”, explica Bela Gregório. Criado pela paulista a partir de uma pesquisa acadêmica sobre a cena feminina na arte de rua, hoje o coletivo reúne não apenas grafiteiras, mas diversas mulheres que deixam sua marca pela cidade de São Paulo. Espere encontrar no portfólio de artistas do grupo, por exemplo, meninas que fazem intervenções com técnicas artesanais, como o crochê. Com a rede, é mais fácil difundir o trabalho e viabilizar projetos comerciais, que fazem com que a arte das mulheres participantes também possa ser rentável.

olha a dupla que tá fazendo arte na @arteriapontaponta hoje. #graffiti #grlpwr

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Golden Girls

Nove garotas espalhadas pelo País formam a Golden Girls Crew. Mostrando que há muito talento para além de São Paulo, o grupo também conta com representantes no Piauí, Pernambuco, Paraíba e Amazonas, onde Deborah Erê, por exemplo, colore os muros com suas sereias, criadas em parceria com a poetisa paulista Carina Castro. “Pensamos em um personagem que representasse uma mulher sábia, mais velha, poderosa, encantadora. E as sereias são tudo isso”, explica ela. “Criamos uma sereia que se parece com uma mulher brasileira frequentadora dos grandes centros, do transporte público, das ruas”. Longe do estereótipo que pode ser associado a elas, as sereias de Deborah são diversas e sua presença nos muros abre um debate sobre padrões de beleza. “Percebi que sempre éramos representadas buscando uma certa beleza que não é natural, mas enquadrada em padrões irreais, e também que temos mais dificuldade em estar nas ruas, por diversos fatores”, relembra. “Pensei, então, que representando mulheres que se pareciam com as que eu conhecia, acrescentando características que simbolizassem sua beleza e seu poder, talvez isso contribuísse com esse movimento que vem empoderando e representando as mulheres”.

Minha participação no Black White 2018. 😇

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