Nii, a desafiadora agência de modelos que está mudando o mercado

Sem medo e calcado na sensibilidade, banco de talentos criado pelo fotógrafo Campbell Addy transforma o jogo fashion com representatividade.

Rei. Essa é a tradução literal de Nii, palavra do dialeto Ga, falado em Ghana, que nomeia a agência criada pelo britânico Campbell Addy. A relação com suas origens é profunda: o Ga é a língua-mãe de seu pai e também faz parte de seu sobrenome, e restabelecer esses laços foi ideal para que ele encontrasse sua voz e traçasse seu caminho. “Antes eu tinha vergonha por ele não ser um nome ocidental como os outros. Agora, eu compartilho com orgulho”, conta ele.

A ideia da agência que se dedica a explorar questões de empoderamento e representação racial surgiu enquanto ele desenvolvia um projeto anterior que ainda existe, o Niijournal — uma publicação independente com a mesma preocupação, criada após o contato com o movimento Black Lives Matter, durante uma viagem para Nova York. Fotógrafo ávido por criar imagens e histórias com as quais pudesse se relacionar, ele enxergava as antigas rotas de casting de agências tradicionais como entediantes. Em vez de confiar nesses sistemas, começou a contatar modelos e desenvolveu o projeto. Ele destronou o estereótipo de que era preciso ser o comandante de uma agência e, no lugar, criou um coletivo de talentos, que levou à Nii. Além de serem clicados para marcas que vão da Asos à Valentino e estrelarem editoriais, os newfaces encontrados casualmente também já desfilaram para nomes como quentes do cenário londrino como Molly Goddard.

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King Owusu, da Nii Agency,para a Another Man Magazine

King Owusu, da Nii Agency,para a Another Man Magazine (Dham Srifuengfung/)

Campbell graduou-se na Central Saint Martins há menos de um ano, mas já estabeleceu-se como destaque por sua colaboração com pessoas talentosas de origens diversas. Ele é, inclusive, votado como o fotógrafo mais influente da lista de 2017 feita pela britânica Dazed — no ranking geral, ele está em 54º de 100. A revista aponta, porém, que seu sucesso não aconteceu do dia para a noite. Em um mercado saturado, ele precisou descobrir sua voz e, mais importante, entender como canalizá-la para o mundo. Surge, então, a poesia de seus cliques.

Criado como uma testemunha de Jeová, Campbell, que é gay, sempre sentiu que sua fé e sexualidade fossem incompatíveis. Apesar de ter se afastado da religião, descobriu que não era preciso descartar a espiritualidade que o acompanhou durante a vida, e o versículo de Mateus 7:7,8, foi sua base e inspiração, dando nome à exibição solo Seek, and ye shall find (Busquem, e encontrarão), que aconteceu em Londres, no começo deste ano. A mostra retratou esses temas em diferentes contextos — como na cena LGBT da Coreia do Sul — provendo a história e o contexto dos personagens.

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A mesma sensibilidade é utilizada para escolher e abordar os modelos para ingressarem na Nii. “Eu acho que para todos que fazem o casting para seus próprios projetos, o sentimento que buscamos vem de uma profunda e instantânea química. Às vezes eu conheço alguém e eles são tão inspiradores que isso resulta em uma abundância de ideias se formando na minha mente, o que faz com que eu queira colaborar com essa pessoas”, fala ele sobre o processo.

São agências e projetos como a Nii que possibilitam um crescimento e florescimento da diversidade sem serem transformadas em caricaturas.  “Eu não diria que as revistas estão perdendo espaço pela falta de realidade. Eu amo escapar e amo fantasia, então, às vezes, as revistas são um ótimo lugar para indulgência”, fala ele. “No entanto, eu penso que algumas revistas mais “mainstream” perdem o foco porque estão apenas fazendo as coisas para estarem dentro de uma tendência em vez de querer melhorar as comunidades que são parte da tendência. Eu acredito em diversidade em frente e atrás das câmeras, e o mesmo vale para revistas e seus conteúdos”, completa.

“Muitas referências sobre diversidade são tomadas de artistas que criaram seus trabalhos em tempos de opressão, e com a infusão de seu próprio espírito na obra. Quando você percebe isso, é muito fácil saber como criar um trabalho que fale realmente sobre diversidade“, finaliza Campbell.

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