O legado de Prince na música, moda e quebra de estereótipos

“As pessoas dizem que uso saltos porque sou baixo. Na verdade eu uso porque as mulheres curtem”. Prince disse isso em uma entrevista, por volta da década de 1980, dando uma vaga ideia do vigor sexual de sua obra, no que isso pode significar de mais criativo e vibrante.

Sua influência nas mais recentes gerações de músicos e artistas, e mesmo daqueles que chegaram antes dele, é vasta e profunda. De Mick Jagger a Dave Ghrol. Porém pode ser melhor observada entre os artistas que misturam o r&B e o rap com o pop: de 2Pac a Pharrell Williams, de Janet Jackson a Jay-Z e Rihanna, o legado de Prince ajudou a construir boa parte das músicas que tomaram conta das paradas na última década.

Além de tocar muitos instrumentos, de ter lançado a carreira de suas bandas de apoio (The Family, The Revolution, The New Generation) e de ter uma visão bastante inovadora sobre texturas musicais, Prince foi um experimentador tecnológico, trabalhando com modificadores de voz e sintetizadores e criando uma variedade tão grande de moods e efeitos que, se reunidos, seriam suficientes para compor um acervo sobre o tema.

Prince também foi um ícone da diversidade no que se refere à imagem. No início de sua carreira, o garotão de Minneapolis, de ascendência afro-americana, fazia uma linha galã sexy.

O cabelo penteado num afro tradicional setentista, bem alto e volumoso, peito sem camisa, calças boca de sino. No início dos 80, alisou um pouco os cabelos, passou a usar blusas abertas, na verdade, decotadas e acessórios como colares. Aos poucos adotou saltos, num visual que não era exatamente andrógeno, mas sexualmente ambíguo e deliciosamente provocador.Prince também teve um flerte constante com o mundo da moda. Amigo de Donatella Versace, uma de suas grandes fãs, fez músicas para desfiles da grife e participou da apresentação da coleção da Versace para a H&M em Nova York, em 2011.

Em 1984, Prince lançou Purple Rain, um filme-disco ou um disco-filme que estourou mundialmente ele fez dele um artista no patamar de fama de Madonna e Michael Jackson. O disco, creditado ao cantor e à sua banda de apoio, The Revolution, tinha a faixa-título e uma série de outros hits, como When Doves Cry. Mas uma canção em particular reforçou a “má reputação” do astro entre os pais preocupados com sua atuação sedutora.

Segundo consta, Tipper Gore, mulher de Al Gore, então vice-presidente dos EUA, ficou escandalizada ao encontrar sua filha de 11 anos ouvindo a música Darling Nikki, sobre o encontro de um homem com uma mulher viciada em sexo e muito mais… Teria sido a gota d´água para a criação de sua Parents Music Resource Center, responsável por colocar avisos sobre letras de músicas consideradas “explícitas” nos discos. A canção, no entanto, só fez cescer. Tupac usou um sample dela em Heartz of Men e Rihanna fez um cover da música para a turnê de Loud, revelando-a para uma nova geração de adolescentes.

Prince lançou muitos álbuns de estúdio, numa produção constante consistente, que terminou em 2015, com HitnRun. Nesse meio tempo lançou ótimos discos de Diamonds and Pearls (1992) a Musicology (2004). Mas seu disco mais incensado talvez seja o duplo Sign o´ the Times, considerado pela mídia especializada um dos melhores de todos os tempos.

Os looks dessa fase também merecem destaque. Depois dos tons roxos e new romantic de Purple Rain, Prince passou a uma cartela de amarelos e mostarda. Uma das fotos mais icônicas do período mostra o cantor com uma espécie de tererê-brinco, um look de veludo molhado com calça de franjas e um enorme bracelete no formato de coração. Outros looks da temporada incluíam trenchs oversized e golas rulê nos mesmos tons quentes.

O visual de Prince sempre foi um ponto central em sua performance. Dos looks caricatos, cheios de brilho, colantes de leopardo, casacos de pele e rendas, meio cafetão meio glam dândi, à afrontosa capa de Lovesexy (em que ele aparece nu como uma fadinha sentado sobre uma flor), passando pelo momento em que substituiu sua foto e seu nome por um símbolo impronunciável, também chamado de o símbolo do amor.

Apesar do tom sempre transgressor Prince também teve seus momentos religiosos. Da conversão a Testemunha de Jeová à lenda de que recebeu um recado do além para recolher seu Black Album de circulação apenas uma semana depois do lançamento, muitas são as histórias do cantor envolvendo o mundo espiritual. Quando criança, Prince, que nasceu com problemas de epilepsia, disse à mãe que não ficaria mais doente porque um anjo havia falado com ele. Ao longo dos anos e das fases, deu muitas declarações sobre Deus e forças divinas.

Comenta-se que ele estaria escrevendo uma biografia, provavelmente não-terminada, chamada The Beautiful Ones. Prince foi certamente uma dessas belas pessoas, capazes de embalar pistas, dramas e amores. Em um ano que já nos tirou David Bowie, a morte de Prince cai como mais uma bomba. Mas talvez também como esperança de que uma nova geração de grandes gênios como eles está para chegar. Até lá, apenas a saudade.

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