Oprah Winfrey sobre predadores sexuais: “seu tempo acabou”

Atriz e apresentadora, que é a primeira mulher negra a ganhar o Cecil B. DeMille Award, fez um discurso emocionante durante o Golden Globes

O movimento #MeToo e o projeto Time’s Up, assim como as recentes denúncias de abuso sexual dentro e fora de Hollywood deram o tom de denúncia da noite do Golden Globes. Essa edição do evento, diferente de muitas outras, foi politicamente carregada — no púlpito e fora dele.

Frances McDormand, que levou o prêmio de melhor atriz (drama), falou sobre a mudança na estrutura de poder no meio do cinema e da televisão: “eu mantenho minha política para mim, mas é ótimo estar nesse espaço hoje, e ser parte dessa mudança tectônica de estruturas de poder nessa indústria. Confie em mim: as mulheres nesse espaço não estão aqui pela comida.” Nicole Kidman, que interpreta uma vítima (e sobrevivente) de violência doméstica em Pretty Little Lies, também falou sobre o tema: “essa personagem que interpreto representa algo que está no centro da nossa conversa agora: abuso. Eu acredito e espero que possamos fazer mudanças através das histórias que contamos e do jeito que as contamos.”

Meryl Streep, Michelle Williams e Emma Watson também expressaram seu suporte ao trazerem ativistas e sobreviventes de injustiças raciais e de gênero como suas acompanhantes — como Tarana Burke, a fundadora do movimento #MeToo e Ai-Jen Poo, diretora da aliança nacional de trabalhadoras domésticas.

O discurso mais emocionante e inesquecível da noite foi feito por Oprah Winfrey. Além de falar sem medo sobre o tema que tanto assusta a indústria, o contexto também foi importante: ela é a primeira mulher negra a ganhar o Cecil B. DeMille lifetime achievement award, um prêmio em homenagem à toda sua contribuição em vida ao mundo do cinema. Depois de uma introdução por Reese Witherspoon, a atriz e apresentadora começou:

“Obrigada, Reese. Em 1964, eu era uma pequena garota sentada no chão de linóleo da casa de minha mãe em Milwaukee, vendo Anne Bancroft apresentar o Oscar de melhor ator no trigésimo sexto Academy Awards. Ela abriu o envelope e disse cinco palavras que literalmente, fizeram história: “O vencedor é Sidney Poitier.” No palco, subiu o homem mais elegante que já tinha visto. Sua gravata era branca, sua pele era negra — e ele estava sendo celebrado. Eu nunca havia visto um homem negro ser celebrado daquela forma. Eu tentei muitas, muitas vezes explicar o que um momento como aquele representava para uma pequena garota, uma criança assistindo em um assento barato, enquanto minha mãe passava pela porta, cansada do trabalho de limpar a casa de outras pessoas. Mas tudo o que eu posso fazer é usar uma citação da performance de Sidney em Lillies of the Field: ‘Amém, amém, amém, amém.’

Em 1982, Sidney recebeu o Cecil B. DeMille Award aqui, no Golden Globes, e não me foge que nesse momento, existem algumas garotas jovens assistindo enquanto eu me torno a primeira mulher negra a receber esse mesmo prêmio. É uma honra — e é uma honra e um privilégio dividir a noite com todas elas, e também com todas as mulheres e homens incríveis que me inspiraram, me desafiaram, me deram forças e fizeram minha jornada por este palco possível.”

Ela continuou citando o trabalho da imprensa na cobertura de casos como o do produtor Harvey Weinstein, acusado de inúmeros abusos sexuais: “eu quero agradecer à Hollywood Foreign Press Association. Nós sabemos que a imprensa está sob pressão esses dias. Nós também sabemos a insaciável dedicação em escancarar as verdades absolutas que nos separam de fechar os olhos para a corrupção e a injustiça. Eu quero dizer que eu valorizo a imprensa mais do que nunca, enquanto tentamos navegar por esses tempos complicados, o que me traz isso: o que eu tenho certeza é que falar a sua verdade é a mais poderosa ferramenta que temos. E estou especialmente orgulhosa e inspirada por todas as mulheres que se sentiram fortes o suficiente e empoderadas o suficiente para contarem suas histórias pessoais. Cada uma de nós nesse espaço é celebrada pelas histórias que contamos, e nesse ano, nos tornamos história.

Mas não é só uma história que afeta a indústria do entretenimento. É uma que transcende cultura, geografia, raça, religião, política ou ambiente de trabalho. Então hoje eu quero expressar minha gratidão por todas as mulheres que aguentaram anos de abuso pois elas, como minha mãe, tinham filhos para criar e contas para pagar e sonhos para alcançar. Elas são mulheres cujos nomes nunca saberei. São trabalhadoras domésticas, mulheres que trabalham na fazenda. Mulheres que estão trabalhando nas fábricas, em restaurantes, no mundo acadêmico, na engenharia, medicina, ciência. São parte do mundo da tecnologia, da política e dos negócios. São nossas atletas nas Olimpíadas e nossas soldadas.

E tem mais alguém: Recy Taylor, um nome que eu conheço e acho que vocês deveriam conhecer, também. Em 1944, Recy Taylor era uma jovem esposa e mãe caminhando para casa depois de ir à igreja em Abbeville, Alabama, quando ela foi raptada por seis homens brancos armados, estuprada e deixada vendada na calçada, quando voltava da igreja. Eles ameaçaram matá-la se ela contasse para alguém, mas sua história foi reportada para a NAACP, onde uma jovem trabalhadora chamada Rosa Parks tornou-se investigadora do caso, e juntas elas buscaram justiça. Mas justiça não era uma opção da época de Jim Crow. Os homens que tentaram destruí-la nunca foram processados.

Recy Taylor morreu há 10 dias, logo depois de seu aniversário de 98 anos. Ela viveu como todas nós: muitos anos em uma cultura quebrada por homens brutalmente poderosos. Por muitos anos, as mulheres não foram ouvidas, e caso falassem a verdade sobre o poder desses homens, ninguém acreditava. Mas o tempo deles acabou. O tempo deles acabou.” Nesse momento, a plateia do Golden Globes ovacionava Oprah de pé.

Ela finalizou: “e eu apenas espero que Recy Taylor tenha morrido sabendo que sua verdade, como a verdade de muitas outras mulheres que foram atormentadas nesses anos, e até agora, continua marchando. Estava m algum lugar no coração de Rosa Parks, 11 anos depois, quando ela tomou a decisão de ficar sentada naquele ônibus em Montgomery, e está aqui com cada mulher que escolhe dizer: “eu também.” E com cada homem que escolhe ouvir.

Então eu quero que todas as garotas assistindo aqui, agora, saibam que um novo dia aparece no horizonte. E quando esse dia chegar, será por causa de muitas mulheres magníficas, muitas das quais estão aqui neste espaço hoje a noite, e alguns homens fenomenais, lutando muito para se tornarem os líderes que nos levam para o momento no qual ninguém mais tem que dizer ‘eu também’ novamente.”

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