“Quero liberdade e igualdade”, diz a modelo e ativista Inna Modja

Cantando sobre a violência contra as mulheres no Mali, Inna Modja está ganhando atenção da música e da moda por seu ativismo nessas áreas.

Capa recente da ELLE França, a cantora, ativista e modelo Inna Modja tem muita bagagem para oferecer ao mundo. Nascida no Mali, filha de pai diplomata, ela se mudou para a Europa muito jovem e, a partir daí, sua carreira deslanchou. Cantando em inglês e francês, seu início musical, o álbum Everyday is a New World (2009), contava com uma pegada mais pop e soul. Assim como o single French Cancan (Monsieur Sainte Nitouche), do disco Love Revolution (2011), que alcançou o topo dos rankings franceses. Recebendo tanta atenção, ela resolveu investir em letras que denunciam a realidade de seu país, o Mali. Como por exemplo uma tradição que mutila as genitália de garotas. Ela própria passou por isso aos cinco anos.

Com o clipe Tombouctou, Inna foca em questões como a guerra no norte do país e a vulnerabilidade das mulheres por lá. Tudo em sua língua materna, o bambara. Além disso, a cantora ainda está produzindo com o diretor Fernando Meirelles um filme para a ONU sobre a questão climática. Em turnê de lançamento mundial de Motel Bamako, ela conversou com a ELLE pouco antes de passar pelo Brasil, onde tocou no festival Rec-beat, no Recife.

Como foi sua mudança do Mali para investir na sua carreira na Europa?
Saí do Mali pela primeira vez quando tinha 19 anos. Fui à Europa para trabalhar e estudar. Não foi fácil no início por causa das diferenças culturais, mas moldou minha personalidade e me fez amadurecer em uma idade jovem. Sonhava em liberdade e uma vida melhor.

Seu projeto “Wings for All”, em que você e o artista Marco Conti Siki pintam asas por muros ao redor do mundo, é muito inspirador. Você poderia nos contar uma história memorável dessa experiência?
Eu criei “Wings for All” com meu parceiro que é cineasta e pintor. Queríamos trazer esse projeto de arte social para interagir com as pessoas nas ruas em diferentes países do mundo. As pessoas podem posar na frente dessas asas como super-heróis. Nós documentamos tantas histórias incríveis e bonitas, mas uma que ficou presa em minha mente é de um garoto jovem em Benin que só queria que sua mãe permitisse que ele fosse para a escola. A educação é um grande problema em algumas áreas que fomos. Infelizmente, ainda não espalhamos essas pinturas pelo Brasil, mas é um forte desejo para nós.

 (Marco Conti Siki/Divulgação)

Você e o cineasta brasileiro Fernando Meirelles farão um documentário para ONU sobre a mudança climática na África. Como é para você ser representante dessa causa?
A Grande Muralha Verde é um projeto incrível que estamos trabalhando com Fernando Meirelles e o diretor nigeriano-britânico Joseph Adesunloye. O filme trata de mudanças climáticas, música e pessoas. Para mim, é realmente importante proteger o nosso planeta e inspirar a todos a fazê-lo.

Quais foram as razões da mudança de estilo do álbum Love Revolution, com uma pegada mais sexy, para Motel Bamako com batidas de hip-hop e letras de denúncia?
Voltei a produzir músicas com estilo do Mali, com um toque de hip-hop, porque é realmente da onde eu pertenço. Como ativista pelos direitos das mulheres há 12 anos, eu queria que minha música e meu trabalho social estivessem interligados. Eu uso minha plataforma para compartilhar as mensagens em que eu realmente acredito.

O videoclipe de Tombouctou tem muitas mensagens fortes como a violência contra as mulheres. Como foi a recepção em seu país e na cultura oriental?
A recepção de Tombouctou foi muito boa. As pessoas estão cansadas da guerra e da crise humanitária no Mali. Eu tive muito apoio.

 (Ariel Martini/Festival Rec-Beat/)

Você teve seu corpo mutilado na infância. Como foi para você trabalhar com a autoconfiança em um nicho como a moda, em que estereótipos femininos são tão marcantes?
Eu me senti muitas vezes despedaçada. Eu tinha vergonha do meu corpo e não me sentia completa como mulher. Mas a carreira como modelo me ajudou a perceber minha singularidade e diferença.

O que o Mali tem a oferecer para a moda?
A cena da moda em toda a África é tão criativa e vibrante. No Mali há artesãos incríveis que fazem roupas de lama, e belas joias da cultura Fulani e Touareg.

Com todos os incríveis projetos sociais que você tem, porque seu apelido, Modja, significa “menina má”?
A razão de meu apelido é porque eu sempre fui uma rebelde em meus próprios caminhos. Eu não me conformo ou caibo em qualquer caixa. Quero liberdade e igualdade.

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