Questionando o “elas estavam pedindo” dito por Donna Karan

A designer se posicionou de forma desapontadora sobre os casos de violência sexual que envolvem o produtor Harvey Weinstein.

A designer Donna Karan está sob a mira da crítica depois de defender o produtor cinematográfico Harvey Weinstein durante uma entrevista. Em uma reportagem publicada pelo The New York Times no dia 5 de outubro, diversas mulheres afirmam terem sido vítimas de violências sexuais de Harvey. Hoje as denúncias foram corroboradas pela The New Yorker, que teve acesso (e publicou) uma gravação na qual o produtor pode ser ouvido intimidando uma das vítimas. Angelina Jolie e Gwyneth Paltrow estão entre algumas das que alegam terem passado por esse tipo de situação.

Foi durante o tapete vermelho do CinéFashion Film Awards, em Los Angeles, que Donna deu a dolorosa declaração. “Harvey fez coisas incríveis. Você olha ao redor do mundo e como as mulheres estão vestidas e o que elas estão pedindo ao se apresentarem dessa forma. O que elas estão pedindo? Por problema.” De acordo com o Daily Mail, o repórter recebeu essa resposta ao perguntar como estava Hollywood depois do estouro do escândalo.

De acordo com a matéria publicada pela The New Yorker, as denúncias contra Harvey não são recentes, mas foram mantidas em silêncio, como uma espécie de burburinho que todos sabem mas que não é possível provar, por causa da influência do produtor, que tanto ameaçava acabar com a carreira de atrizes e modelos quanto tinha seu status como proteção. Assinada pelo jornalista Ronan Farrow, o texto demorou 10 meses para ser concluído. Sem o suporte de um grande veículo e sem a voz do conjunto de mulheres que se apoiou e que também se abriu sobre os casos, a história provavelmente continuaria a passar despercebida.

A fala de Karan é um exemplo prático de como é difícil se pronunciar sobre violências de gênero, já que as mulheres são constantemente questionadas por seus atos e vestimentas mesmo sendo vítimas. A blogueira Susie Lau fez um post em seu Instagram refletindo sobre a postura da designer:

Ela republicou a foto de uma campanha de Karan criada em 1992 com a legenda:  “essa imagem é da campanha ‘Em mulheres nós confiamos’, clicada por Peter Lindbergh. O cenário simula uma situação na qual uma mulher é presidente. Escolhi essa foto porque o homem olha para os ombros descobertos da mulher. […] De uma perspectiva fashion eu posso apenas falar de um grande desapontamento em frente às declarações de Donna Karan sobre as acusações de Harvey Weinstein.”

This is from @donnakaran 's famous 1992 "In Women we Trust" ad campaign shot by Peter Lindbergh portraying the "what-if" scenario of a female president. I've chosen to post this particular image because of the male onlooker's gaze at model Rosemary McGrotha's cold shoulders, in one of Karan's signature dresses (yup… cold shoulders of summer of 2016 do have early precedents) ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ The internet is exploding and I don't even know where to begin with the misguidedness of what appeared to be mediated thoughts, but from a fashion perspective I can only add to the heavy disappointment and bewilderment at Donna Karan's remarks on the Harvey Weinstein allegations: ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ "I also think how do we display ourselves? How do we present ourselves as women? What are we asking? Are we asking for it by presenting all the sensuality and all the sexuality" ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ Says the woman who gave us deep plunge necklines, form fitting bodysuits and high-split wrap skirts that were part of Karan's emancipatory wardrobe for women. These were clothes that were supposed to enable women to own their sexuality without compromising their position in the workplace in relation to men Interestingly the fact that Karan no longer designs for her own signature line nor does she have a say in shaping the way women dress today (at least in so far as mainstream trends are concerned), adds a hint of bitterness to her comments, as she questions female attire and its role in sexual abuse/harassment all over the world. Is it any coincidence that her later collections fell out of step with what women wore in stark comparison to the way she broke fresh ground in the 80s/90s ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ Note the comments came out of her mouth as she bared her shoulders on the red carpet. Is she "asking for it" in that instance? One wonders what exactly is the "correct" mode of attire then to prevent the Weinsteins of the world from beckoning women to hotel rooms/boardrooms/office cupboards…

A post shared by Susie Lau (@susiebubble) on

Depois de citar a frase da designer, ela continua: “a mulher que disse isso nos deu decotes profundos, criou bodies que delineiam o corpo e saias com fendas altas que fizeram parte de um guarda-roupas de uma mulher emancipada. Essas roupas foram feitas para que as mulheres comandassem sua sexualidade sem comprometer sua posição em um ambiente de trabalho com homens. […] Ficamos aqui imaginando qual é a roupa ‘correta’ para evitar homens que intimidam mulheres em quartos de hotel/salas de reunião […]”

O silenciamento intrinsecamente relacionado ao caso também foi abordado por outras mulheres, como Lena Dunham, que escreveu em seu Instagram: “a matéria [do The New York Times] deixou claro o quão difícil é se abrir sobre isso, e como muitos são cúmplices. [..] É hora de Hollywood jogar luz em si mesma e fazer mudanças reais sobre o tipo de comportamento que aceitamos daqueles que têm poder. Apoiando essas mulheres, mudamos essa antiga história para elas e para todas.”

Link no longer in bio, emotions remain the same 🎥 💔

A post shared by Lena Dunham (@lenadunham) on

Donna Karan não é indiferente à causa feminina. No ano passado, por exemplo, ela se abriu sobre seu aborto para apoiar outras mulheres. Mas sua fala evidencia um olhar acostumado a desconsiderar as diferenças de gênero — que pode ser repensado. Torcemos por isso.

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