Uma conversa sobre moda e tecnologia com a pesquisadora holandesa Marina Toeters

Um grupo de oito holandeses desembarcou, em São Paulo, no mês de maio para o Festival Path. Com foco em inovação e criatividade, o evento ofereceu mais de 300 horas de atividades. Convidados pela companhia aérea holandesa KLM, o comitê de oito pesquisadores em diferentes áreas como moda, design e educação foi formado para participar do festival. Entre eles, estava a designer Marina Toeters, fundadora da empresa de pesquisa e desenvolvimento em moda e tecnologia by-wire.net. “Moda se diz inovadora, mas não é”, polemiza. Após se formar em design gráfico, se especializou em moda, mas não pense que é ligada à modismos. “Não sou educada em tendências ou o que está acontecendo ali ou aqui. O que vejo na Europa é que apenas as marcas de luxo ou os produtores pequenos estão sobrevivendo”, conta. Isso tem a ver com o fato de que o mercado não se inovou o suficiente. A holandesa é a responsável por desenvolver projetos de roupas inteligentes com empresas como Philips. Além de suas criações já desfilaram na semana de alta costura francesa – em uma parceria com a estilista Ilja Visser. Confira a seguir um pouco mais sobre o assunto:

Como você começou a se interessar por moda?

Estudei design de moda e sempre pensava que a moda fingia ser moderna com todas as tendências, mas a partir da minha experiência, presenciei que a moda não tinha mudado tanto. No aspecto das roupas, vestimos as mesmas formas e costuramos da mesma maneira desde o final de 1800. Comecei a pensar que tantas coisas legais estavam acontecendo no mundo da tecnologia. Por que não juntar as coisas? Me interessava pela parte de criação e na perspectiva tridimensional das roupas.

E como você partiu para a parte da tecnologia?

Há dez anos, fiz meu mestrado em pesquisa de design e tecnologia. O tecido fica tão perto da pele e é tão íntimo que poderia ter muito mais funções e cuidar muito melhor da gente – como peças que cuidam da nossa postura ou temperatura.

Em algum momento da história a moda e a tecnologia se integraram?

Uso o exemplo do trench coat da Burberry no início do século XX, pois ele é respirável mas impermeável. Era muito avançado para a época, então esta era a jaqueta para ter e as vendas decolaram. Depois disso, o poliéster foi inventado em 1953, um tecido de baixo custo e fácil de produzir. Fora isso, não houve mais nada. A indústria da moda é de alto risco e ela não se renova. Carros conseguem estacionar sozinhos mas usamos as mesmas roupas da década de 50. Pelo menos os formatos e tecidos.

Peter Stigter Peter Stigter

Peter Stigter (/)

Para onde você acha que a indústria da moda está caminhando?

Não sou educada em tendências ou o que está acontecendo ali ou aqui. O que vejo na Europa é que apenas as marcas de luxo ou os produtores pequenos estão sobrevivendo – as marcas médias estão desaparecendo. Acredito que isso se deve porque moda focou tanto em reputação e fazer mais e mais produtos em um preço menor que eles se esqueceram de inovar. Então eles perdem relevância. Acho que os consumidores vão mais funcionalidade nas roupas. Qual é o real benefício de uma peça? Esses produtos do futuro vão ser mais sustentáveis? Acho que o mundo da tecnologia poderia dar a resposta.

Qual seria sua peça dos sonhos?

Ela vai se parecer exatamente como é agora. Não acredito em peças extravagantes, mas em mudanças sutis.

Quais são as inovações mais recentes neste campo?

Somos capazes de integrar sistemas térmicos em miniatura nas peças, cada vez menores e menos óbvios. Como, por exemplo, esses micro leds que fazem sua camiseta brilhar. Ou um vestido com controle térmico na espinha, que parece apenas um vestido preto. Desenvolvi uma coleção para enfermeiras que ficam em pé muito tempo, onde construímos um suporte na cintura e um na cervical para evitar problemas de coluna.

Você costuma trabalhar com colaborações?

Sim. Fiz um trabalho com fibras de Alpaca e sensores corporais que eram capazes de ler o estado da pessoa – como o nível de stress. Em janeiro de 2015, desenvolvi uma colaboração com a designer Ilja Visser para o desfile da marca dela na semana de alta costura de Paris. Integrei uma luz que dá cor ao tecido e a pele, além de se mover muito lentamente.

O que você está trabalhando agora?

Tem alguns projetos que quero pesquisar mas a indústria ainda não está pronta. Estou muito interessada agora em tecidos que façam as pessoas se moverem mais. Acho que não nos movimentamos o suficiente e precisamos ser mais ativos. Talvez nossas roupas possam nos ajudar, por exemplo se ela me lembrar que já estou há mais de uma hora sem me mover.

 

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