O #VamosPensarSobreBeleza está de volta! Desta vez, expandimos o debate para falar sobre corpo e convidamos vocês a passarem pelas experiências de oito mulheres que, apesar de adotarem diferentes técnicas, se encontram ao buscar uma relação libertadora com a própria imagem. O ponto de partida é o Body Neutrality, um novo movimento que propõe um olhar neutro sobre o físico. Sem incentivar a autocobrança, ele vem ganhando popularidade porque faz com que o processo de encontrar o amor-próprio aconteça de forma mais suave. “A ideia é criar um espaço psíquico que não corresponda ao amor e nem ao ódio ao que vemos no espelho já que se você disser para uma pessoa que a única saída é amar aquilo que ela nunca gostou, ela pode ficar ainda mais desesperada por não saber como fazer isso”, explica Anne Poirier, diretora do programa Body Neutrality do Green Mountain at Fox, nos Estados Unidos. Venha com a gente, navegue pelos capítulos e leia os inspiradores relatos de mulheres que estão descobrindo formas saudáveis de lidar com pressões estéticas. Quem sabe, por meio dessas entrevistas, você encontre novas formas de olhar para a sua beleza. Quer continuar essa conversa? Poste no Instagram com a #VamosPensarSobreBeleza.

Fotos: Thais Vandanezi | Beleza: Débora Bitencourt e Julia Tartari | Styling: Ana Parisi | Produção: Gregorio Souza | Tratamento: Nicolas Leite

O poder da memória

Fernanda Lensky propõe que nossas "imperfeições" sejam um lembrete de nossa força

“Por que estou fazendo isso, gente?”, se questiona uma Fernanda de 18 anos, grávida, com pressão baixa, ao perceber que, mesmo tendo que lidar com os efeitos da gravidez, não deixou de frequentar as dolorosas sessões de depilação com cera quente. O processo foi longo, mas os pelos, hoje, três anos depois, não são mais uma questão na vida da artista e dançarina, que não passou a condenar a depilação, mas deixou de ser refém dela. “Eu sempre fiquei mal porque, desde nova, era a que tinha mais pelos entre as amigas, sofria muito e não tinha dinheiro para laser”, relembra. “Comecei a tentar entender porque isso me incomodava tanto e enfrentei a frustração para ver o que saía dali. Foi depois de ter meu filho que passei a colocar as coisas em perspectiva, enxerguei que não me depilar não era a coisa mais terrível do mundo e que, na verdade, era muito mais prático para a minha vida“.

“A minha baixa autoestima não vem de mim, mas das pessoas que não aceitam meu corpo da maneira como ele é.”

A mudança surgiu de dentro para fora e, a partir dela, Fernanda encontrou referências que a pudessem ajudar a passar por esse processo mais suavemente. Olhou para os anos 1970, para as estrelas de filmes e músicas brasileiras, e se rodeou de amigas e até namorados que a deixassem mais confortável. “Não é que eu não curta meu corpo, meus pelos. Eu lido com eles diariamente, esse é o lugar deles, mas existem dias em que eu não gosto do que eles vão causar nas pessoas e não estou com paciência para as risadas e cochichos na rua. A minha baixa autoestima não vem de mim, mas dos que não aceitam meu corpo da maneira como ele é”. No dia dessas fotos, por exemplo, Fernanda estava sem eles porque havia se depilado recentemente pela demanda de um trabalho como modelo.

Fernanda usa vestido Luisa Farani e boina Christian Dior.

Fernanda usa vestido Luisa Farani e boina Christian Dior. (Thais Vandanezi/ELLE)

Encontrar o equilíbrio entre as expectativas do outro e a autopercepção não é sempre fácil, e para chegar a esta relação mais saudável com sua imagem, ela passou por uma jornada de autoconhecimento que envolveu a compreensão de que nossos corpos já existem antes mesmo de começarmos a pensar sobre eles. “Sou uma mulher branca e magra, mas é óbvio que qualquer pessoa tem problemas com a sua aparência. A aceitação acontece depois que você atinge certa maturidade e entende que aquilo que veem como seus defeitos são as coisas que podem te dar mais força, charme e beleza. Como a gente nasce com esse corpo, não escolhemos essas supostas imperfeições, e demora um tempo para perceber que são elas que contam quem a gente é”. A marca da cesárea, por exemplo, que já foi vista como feia e assustadora, foi ressignificada e agora é uma lembrança da mulher forte que teve um filho sozinha aos 18 anos.

Assim como para as demais personagens deste texto, a união com outras garotas foi transformadora para Fernanda. Ela tem um projeto fotográfico, em que retrata a intimidade feminina enquanto forma de reencontro com os processos naturais das mulheres, como a menstruação. As fotos hoje estão em um Tumblr porque o Instagram sempre as tira do ar. As denúncias comprovam que o assunto é incômodo e precisa sair do campo do tabu. “Falar de menstruação quando você está na escola é quase um pecado, as pessoas fazem piada e é claro que a partir do momento em que você está sentindo vergonha, você não vai compartilhar isso com ninguém, nem com você mesma”. Como consequência, muitas meninas se afastam do próprio corpo e, num movimento de autoaversão, passam a não gostar dele. “A gente começa a tomar pílula anticoncepcional muito cedo e nem sabe direito como é ficar menstruada. Eu parei depois da gravidez e achei um negócio muito mágico. Sim, eu sentia umas cólicas e tinha vontade de morrer, mas também pensava comigo ‘nossa, meu corpo é incrível‘”.

O movimento Body Neutrality aponta exatamente que enxergar os mecanismo que fazem os corpos funcionarem é um caminho para aliviar as pressões estéticas. Para Fernanda, começou com a menstruação, mas logo esse olhar passou para outros campos, unindo o que já vinha sendo questionado, como a depilação e a falácia de que os pelos não são higiênicos. “Minha reflexão é que a mecânica do organismo é completamente esquecida no mundo contemporâneo. As coisas mais básicas do ser humano são maquiadas ao extremo e são transformadas em algo inatingível porque naturalmente não são assim. Pense nos cheiros. Por que as pessoas querem ter o cheiro igual umas às outras? Ou no suor. Suar também é importante para o organismo e entramos em uma neura de acabar com ele a todo custo”.

Fernanda tem mais dias em paz com o corpo do que brigando com ele, é verdade, mas naqueles em que está para baixo tenta usar a técnica de não se cobrar. “Eu sou feminista, mas às vezes me pego chorando por causa de um corte de cabelo. E tudo bem. A minha ideologia não pode me dar uma bronca, ela tem que sentar do meu lado e me fazer carinho, eu não posso fingir para mim mesma que as coisas não existem”.

Fernanda veste jaqueta Zara.

Fernanda veste jaqueta Zara. (Thais Vandanezi/ELLE)

A beleza do avesso

Para Nina Grando, padrões podem ser quebrados ao olharmos o feio como algo libertador

Marina Grando, também conhecida como Nina, é sempre a pessoa mais extrovertida da roda de conversa. Seja pessoalmente ou em suas redes sociais, ela tem a habilidade de levar significado aos acontecimentos corriqueiros da vida. Recentemente, por exemplo, quando retirou os dentes do siso, ela compartilhou no Instagram um stories no qual contava: “retoquei o cabelo e a maquiagem para fingir que não estou acabada!”. A desenvoltura é comum para os 11 anos de teatro que cursou desde o ensino fundamental. “Eu sempre fui muito palhaça, sempre fiz piada, era comediante”, conta à ELLE. “Quando estava na época de prestar vestibular, meu professor dizia ‘Marina, vamos ser atriz, né?”. A paixão minguou, no entanto, pela insegurança e pelo medo de sua carreira não deslanchar profissionalmente. “Eu era muito dedicada, mas no teatro as pessoas se apegam a estereótipos”. Estereótipos esses dos quais Nina, que hoje é coolhunter, foge desde pequena.

“Eu comecei a perceber muito cedo que eu era diferente — principalmente porque quando era criança as pessoas costumavam parar minha mãe para falar coisa como ‘coitadinha dela’. Rapidamente comecei a andar de braços cruzados ou descer a manga do moletom para esconder minha deficiência nas mãos“. A personalidade expressiva foi uma forma de combater a exclusão e o isolamento que são tão presentes na vida de pessoas com deficiência. “Eu sempre fui muito sacudida em relação a isso. Pensava que ou eu mostrava quem era ou me esconderia para sempre”, concluiu quando pequena, o que fez com que ela passasse a invadir grupos de coleguinhas se apresentando e conquistando-os. Hoje com 30 anos, sentada em uma mesa de um café em São Paulo, com cabelos rosa brilhantes e falando tão veementemente sobre sua vida, é difícil imaginar que um dia Nina foi uma criança vulnerável.

Nina usa hot pants Christian Dior, vestido Heloisa Faria e sutiã B.Luxo.

Nina usa hot pants Christian Dior, vestido Heloisa Faria e sutiã B.Luxo. (Thais Vandanezi/ELLE)

Não existe personalidade e expressão, no entanto, que consigam superar opressões calcadas em desigualdade com tanta facilidade. “Eu sou millennial”, diz ela rindo antes que o tom da fala mude para um pensamento mais introspectivo. “Adoro uma selfie, me fotografar. Já tentei fazer uns experimentos ao tirar fotos mostrando minhas mãos, mas lembro que acabei usando uma de 2009 para falar sobre a minha deficiência na Ovelha [seu portal de conteúdo] no ano passado. Até então, eu nunca havia publicado nada sobre”, reflete.

O tecido com o qual o mundo é feito também se apresenta desde cedo para quem não se encaixa em discursos, ideias e expectativas generalizantes: “quando eu era mais nova, assistir a filmes de comédia romântica chegava a me ferir. A típica cena do casamento e da troca de alianças me doía porque eu pensava que nunca teria aquilo“. Até mesmo coisas mais simples, como o slogan “Havaianas, todo mundo usa”, me atravessavam de forma ruim. No meu pé direito não entra uma Havaianas porque eu não tenho o dedão do pé. Todo mundo? Então acho que eu não sou todo mundo.”

“Decidi que ia me esforçar para não me esconder. O feio e o estranho podem ser uma liberdade, e isso vai além de se sentir bem consigo. É viver a sua vida.”

A possibilidade de se relacionar com seu corpo além do amor ou do ódio, e perceber que possuía mais questões além da deficiência, levou Nina a se identificar com o termo neutralidade corporal. “É claro que temos momentos que nos achamos incríveis. É importante, mas às vezes eu não me amo, não mesmo. Outra vezes uma espinha vai me incomodar muito mais do que a minha mão, por exemplo”.

“Eu não sei o nome da minha deficiência porque isso não me define. Talvez eu prefira me ver representada em outra menina de cabelo colorido”, considera. “Eu curto a ideia de você buscar gostar de você, mas não necessariamente procurar ser bonita. É uma questão diferente — você quer estar bem consigo, mas não agradar um padrão de beleza.”

Nina veste casaco Miu Miu.

Nina veste casaco Miu Miu. (Thais Vandanezi/ELLE)

A internet apareceu, então, como uma forma de equalizar a representatividade que faltava nos canais mais mainstream de comunicação, que elevam o status do comum ao pódio e desclassificam as já diferenças. “Na internet, vivemos a bolha que queremos, e minha bolha é muito inspiradora. Eu sigo muita gente considerada estranha. A moda está sacando que o bonito aprisiona, e o feio liberta. Acho isso foda. A internet me libertou muito mais do que aquilo que eu só consumia na TV e não conseguia interagir. Poder me mostrar possibilita uma troca, que eu não apenas seja inspirada, mas inspire também.”

Na vida fora das telas, no entanto, é a falta de representatividade se concretiza na solidão de ser diferente — o que é um agravante para que as pessoas se resolvam com o espelho. “Às vezes eu estranho se vejo uma imagem da minha mão porque estou acostumada a ver as mãos de vocês, não a minha”, comenta. Para Nina, pintar os cabelos e cultivar seus gostos pessoais (dos desenhos japoneses à obsessão por gatinhos) foi abraçar o diferente, mostrar para o mundo que ela aceitou o estranho. “Cheguei à conclusão de que eu chamaria atenção de qualquer forma, então decidi que ia logo pintar o meu cabelo de rosa. Decidi que ia me esforçar para não me esconder. Isso vai além de se sentir bem consigo. É viver a sua vida.”

Pernas, para que te quero?

A corrida pelo amor-próprio de Jussara Ferreira.

Jussara usa vestido NK Store e brincos Gla Acessórios.

Jussara usa vestido NK Store e brincos Gla Acessórios. (Thais Vandanezi/ELLE/Body Neutrality, o caminho para uma relação melhor com o próprio corpo)

“Eu ia dizer que é uma relação de amor e ódio mas não é. Amor e ódio é muito forte. Acho que é uma relação de amor e… ódio não, ainda não sei o que é”, tentou explicar a educadora Jussara Ferreira a relação que tem atualmente com o seu corpo. Apesar de não ser tão familiarizada com o movimento Body Neutrality, alguns dos conceitos já pareciam se encaixar na maneira como pensava sua imagem. “Pelo pouco que li sobre o assunto, sinto que me identifiquei porque esse negócio de ‘ame-se do jeito que você é’ nunca é 100% verdade”, analisa.

Para Jussara, lidar com suas pernas é até hoje algo trabalhoso. “Já foi muito sofrido, mas com o tempo passei a ir me desvinculando cada vez mais das pressões sociais. A maturidade traz dois aspectos: o primeiro é esse deixar de se importar com o que pensam ou acham de você e o segundo é que novas demandas surgem”. Uma delas, sem dúvidas, são as pressões sobre os fios grisalhos que ela decidiu não esconder. “É uma briga social que eu enfrento. No começo era complicado, se alguém comentava algo, eu logo ficava meio murchinha. Ouço esse tipo de coisa até hoje, mas já não me afeta da mesma maneira.”

“Esse negócio de ‘ame-se do jeito que você é’ nunca é 100% verdade”

O segredo para não deixar com que apontamentos inconvenientes a atinjam não é tão simples. Segundo Jussara, trata-se de um esforço duplo. Primeiramente, existe o grupo, que sempre pode te ajudar a se fortalecer e, depois, uma reflexão mais intimista que depende só de você. “Eu já participei do círculo de mulheres negras e de alguns coletivos feministas. É preciso encontrar pessoas como você. Há lutas que dependem dessa energia, mas, no fim das contas, eu preciso estar sozinha e saber quem eu sou, o que eu quero e como eu me enxergo. Afinal, acompanhada, todo mundo é mais forte, não?”

Jussara veste camiseta Mundo Inspira Ações e brincos Gla Acessórios.

Jussara veste camiseta Mundo Inspira Ações e brincos Gla Acessórios. (Thais Vandanezi/ELLE)

É perceptível que mesmo tendo descoberto o termo Body Neutrality pouco antes da nossa entrevista, o conceito já estava com ela na prática, embora não na teoria. Segundo especialistas, como Anne Poirier, diretora do programa de neutralidade corporal do centro de bem-estar Green Mountain at Fox, em Vermont, nos Estados Unidos, lembrar da funcionalidade do corpo e ser grata por isso é uma boa estratégia para compreender o seu real valor, para além da imagem. “Eu não faço abdominais porque eu quero os gominhos, faço porque eu quero esse abdômen forte por dentro”, diz ela que, recentemente, descobriu que precisava se dedicar mais a exercícios físicos devido a um problema na coluna.

Foi assim, inclusive, que uma grande paixão foi descoberta: a corrida. “Eu me encantei porque é ‘você com você mesma’. Se eu fiz 10 quilômetros em uma hora e dez minutos, será que consigo diminuir dois minutinhos desse tempo na próxima?”, explica. Se suas pernas, em alguns momentos, podem ser motivo de vergonha ou frustração, quando ela está correndo, são elas que a proporcionam uma das experiências mais satisfatórias da sua rotina. Nessa lógica, Jussara segue em frente: quebrando padrões, desafiando a sociedade e sendo mais feliz. Uma maratona depois da outra.

Plus Size, só que gorda

Bia Gremion é uma referência nas redes sociais ao empoderar meninas que vão além do 46

Eu achei que beleza fosse algo que eu não tinha. Me percebi bonita há pouco tempo, e isso transformou a minha vida de uma forma que eu nunca pensei que fosse acontecer”, começa Bia Gremion, de 20 anos. Conversamos em seu apartamento em São Paulo, e seu discurso é direto como o de alguém que refletiu muito sobre um assunto. Uma pessoa que tomou uma decisão e precisou colocar as ideias em ordem.

E foi isso que de fato aconteceu. Aos 17 anos, ela quase passou por uma cirurgia bariátrica — processo que pretende diminuir o tamanho do estômago a fim de alcançar o emagrecimento. “Eu pensava que no momento que eu fosse magra eu ia ser feliz. Quando aceitei meu corpo, a forma como eu me portava nos meus relacionamentos e nas minhas amizades também mudou”, analisa e completa apontando que a relação com o corpo é diferente para pessoas que sofrem alguma opressão. “Quando você é gorda, isso te tira da classe de ser humano. É diferente de uma pressão estética. Você vira um troço, sua humanidade é tirada de você. Isso é a gordofobia. Ver beleza no meu corpo foi transformador e eu acho isso importante para mulheres gordas”.

Esse processo tão importante de renovação começou quando ela saiu do interior do Rio de Janeiro, em Saquarema, e se mudou para São Paulo. Uma transformação aconteceu em sua vida alterando duas nuances essenciais para que ela se reconhecesse como é hoje: o encontro com os movimentos sociais, com outras meninas lésbicas, e uma maior possibilidade de expressar por meio de sua aparência a Bia que sentia dentro de si. “Eu tinha que usar bata com pedraria, blusa verde bandeira, só Jesus. O cabelo era a única coisa que eu conseguia mudar. Já que era obrigada a usar roupas que eu não gostava, decidi fazer coisas diferentes. Adorava quando as pessoas me achavam estranha”, descreve ela sobre o tempo que viveu na cidade pequena. Assim como Nina Grando, Bia incorporou a estranheza e, assim, tornou-se única.

Bia usa vestido Morfema Zero.

Bia usa vestido Morfema Zero. (Thais Vandanezi/ELLE)

Juntando isso com o gosto pelas fotos, ao chegar na capital logo recebeu convites para ser modelo. “A primeira foto foi muito doida. Uma mina me maquiou e eu fiquei: ‘gente, o que está acontecendo? Eu vou ser modelo pesando 130 kg? Eu estava em outra posição, em uma foto profissional. Me deu um baque e pensei: ‘posso fazer isso, sou foda, vou fazer isso. Daí surgiram outras oportunidades.”

A internet virou um espaço de descoberta e inspiração, já que foi nas redes onde encontrou representatividade para continuar sua carreira: “eu nunca vi no Brasil uma mulher como a Tess Holliday, modelando de calcinha e sutiã. O mercado brasileiro não faz isso. Quando vi uma foto dela pela primeira vez, eu pensei: ‘o braço dela é do tamanho do meu, ela deve pesar o mesmo que eu’. E ela estava em uma posição de poder”. Com uma frase, Bia define a importância de ter alguém para se espelhar: “mesmo sendo desconstruída, o mundo é cruel. Você sai de roupa curta e as pessoas dão risada. Ver a Tess mudou tudo no jogo: ela é boa fotografando, falando, existindo, sendo mãe. Me fez pensar que eu não estou sozinha nesse mundo. Eu não sou um monstro.

“Ver beleza no meu corpo foi transformador e eu acho isso importante para mulheres gordas.”

Apesar de hoje ela representar essa força para outras meninas, admite que existe um mundo além do virtual que não é permeado por uma rede de mulheres que se apoiam mutuamente. “O grupo é importante, mas em momentos de preconceito na rua não vai ter Facebook. Você precisa ter força, viver, fazer entrevista de emprego e lidar com o preconceito.”

Bia é uma menina forte, mas também passa por dias não muito bons, e são neles que a neutralidade corporal se revela. Para combater essa sensação, ela conta que é preciso ter noção da opressão — e fazer algo que a acalme, como assistir alguns vídeos de unhas sendo feitas ou maquiagens sendo elaboradas. “Não é sempre que acordo, faço uma festa, coloco um biquíni e amo meu corpo. Carregamos uma questão de opressão há anos. O primeiro passo é entender que nem sempre vai ser bom, mas dá para melhorar. Quando não estou muito legal (apesar de serem poucas as vezes que isso acontece), vou ouvir uma música, ver uns tutoriais na internet. E ponto. Paro de pensar sobre isso e vou viver minha vida com leveza.

Bia veste blusa NK Store.

Bia veste blusa NK Store. (Thais Vandanezi/ELLE)

Detox mental

Mirian Bottan superou transtornos alimentares e hoje inspira muitas mulheres a fazerem o mesmo

Encontramos com Mirian em um restaurante especializado em crepres e waffles que fica ao lado de sua casa, em São Paulo. Ela chega sorrindo e logo dá um “oi” simpático ao garçom, e entendemos que o local deve ser um de seus favoritos. Ao longo da conversa, esse detalhe se mostra uma vitória maior do que parece. Mirian passou 13 anos lidando com uma bulimia, que em 2015 se transformou em uma fixação por alimentação saudável e exercícios físicos. A ideia pode soar positiva, mas representa um outro tipo de transtorno, a ortorexia. “A ferramenta havia mudado, mas a obsessão era a mesma. Em vez de eu vomitar e ficar sem comer, eu só ingeria alimentos sem sal, sem açúcar e sem gordura. Vi que era a mesma coisa, pois a obsessão pelo corpo continuava ali. A falta de vida estava ali”, relembra a época quando tudo girava em torno de cozinhar, fazer marmitas, ir à academia e negar convites para sair com os amigos. “Eu estava pior, na verdade. Me aproximava do corpo que achava que queria ter, mas não me sentia menos insegura. Ao contrário, passei a me comparar com todo mundo e a seguir musas fitness“.

Mirian usa vestido Miu Miu.

Mirian usa vestido Miu Miu. (Thais Vandanezi/ELLE)

O bombardeio imagético na rede social, como ela aponta, é perigoso porque não considera as receptoras dessas imagens. Meninas se inspiram em rotinas que podem não fazer sentido com as suas vidas e seus corpos, e se frustram ao não alcançar os resultados desejados. Mas esse universo é sedutor e fez com que Mirian acreditasse por um tempo que as resoluções de seus problemas estariam nele. Ainda em 2015, ela foi ao Medium e escreveu um texto que viralizou, o Como ser ‘fitness’ tem me ajudado a vencer a bulimia, que mostrava, de fato, pontos positivos, mas escondia as novas obsessões. Na época, a jornalista relembra que ficou ciumenta, a relação com todos ao redor estava mais difícil e que sentia como se estivesse secando gelo — sempre com mais gordura para perder, músculos para ganhar, bunda para conseguir.

“Em vez de eu vomitar e ficar sem comer, eu só ingeria alimentos sem sal, sem açúcar e sem gordura. Vi que era a mesma coisa, pois a obsessão pelo corpo continuava ali. A falta de vida estava ali.”

Sua presença nas mídias sociais mudou drasticamente quando, depois de crises de ansiedade e muita terapia, ela começou a se redescobrir como uma pessoa inteira. E esse conceito merece atenção especial. Se você acompanha posts de blogueiras que focam no estereótipo do corpo ideal, já deve ter visto muitas fotos de meninas com o celular na frente do rosto, além de cliques apenas de barrigas chapadas ou pernas definidas. “Aprendi a parar de me desmembrar e me exergar de forma completa. Uma pessoa com um corpo, sim, mas também com outros interesses e hobbies. Nós não somos um braço que achamos gordo, nós somos nossos sonhos. Comecei a me questionar se eu sabia, de fato, quais eram os meus gostos. E finalmente percebi que eu era muito maior do que um transtorno alimentar”.

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(Thais Vandanezi/ELLE)

Hoje, Mirian inverteu tudo aquilo que outrora a havia dominado e virou uma digital influencer, no sentido mais puro da expressão. Ela fala com cerca de 300 mil pessoas em seu perfil no Instagram, e organicamente transformou cada uma de suas postagens em verdadeiros fóruns de discussão. Ela usa o humor para criar montagens invertidas de “antes e depois”, que se destacam no mar de fotos de barrigas negativas e coxas que não se tocam. “Eu nunca uso a frase ‘se eu consigo você também consegue’ porque não dá para ignorar os contextos. Meu namorado nunca me chamou de linda, ele sempre falou que eu era brilhante, se fosse um namorado que falasse para eu ir à academia talvez fosse diferente”, analisa. Hoje em uma missão de abrir os horizontes de muitas mulheres que podem estar passando por algo que já foi superado por ela em sua trajetória, Mirian adotou um olhar neutro para sua vida e também para aquilo que a sociedade enxerga como pressão. “Meu rosto está mudando, há olheiras que não vão mais embora. Tive um trabalho de mudar de mentalidade, e agora vejo que esses anos a mais que trouxeram olheiras também trouxeram conhecimento. Vejo todo o tempo perdido lá atrás e jamais voltaria aos meus 20 anos para ter aquele corpo de antes”.

Primavera capilar

Para se abrir para o mundo e encará-lo de frente, Diva Green fez suas madeixas florescerem

Meu corpo e minha estética são um ato político”, define Amanda Coelho, a Diva Green, no salão em que trabalha na zona leste de São Paulo. Modelo e cabeleireira, ela adotou o novo nome por suas madeixas verdes que mostram que num mundo onde só o que é padronizado é considerado belo, aceitar o que a sociedade considera como imperfeição pode ser um ato de amor radical.

O momento de renovação pelo qual Diva está passando é chave para várias outras mulheres — principalmente pelo poder de transformação geral da autoaceitação. “Quando a gente se aceita, nosso posicionamento perante a sociedade, ao trabalho e às relações ao redor vão mudando”, descreve sentada ao lado de um quadro enorme de Beyoncé, que decora o ambiente. A questão da autoestima foi essencial para que ela se reerguesse de relações de abuso e se recolocasse profissionalmente. Sua pesquisa imagética no Instagram, rede na qual se apoia para construir sua estética e força, garantiu que ela conseguisse trabalhos como modelo — atualmente você pode vê-la na campanha da nova marca de roupas da amiga e cantora Tássia Reis. Quando as fotos foram ao ar, seu inbox ficou recheado de mulheres comentando que se sentiram representadas, uma resposta cada vez mais comum para grupos de mulheres que se fortalecem entre si.

Diva Green veste body Forever 21 e brincos do acervo da stylist.

Diva Green veste body Forever 21 e brincos do acervo da stylist. (Thais Vandanezi/ELLE)

“Minha vivência é como mulher preta e gorda, e todo esse afronte que a gente precisa ter para a sociedade”, descreve. Para ela, a cobrança da exposição e de estar sempre forte não apenas compensam, mas podem ser uma forma única de sobrevivência quando se tem menos privilégios. “É preciso se doar. Quando me posiciono, repasso a ideia de que a partir de um certo momento, você não aceita mais ser ridicularizada por amigos ou parentes”, explica ela.

Ainda que a neutralidade corporal seja uma ideia mais acessível para pessoas que ainda não conseguem ter uma autoestima elevada, a busca pelo fortalecimento é também uma via que pode ser percorrida quando há necessidade. Não é a busca por beleza, mas sim a busca por uma força pessoal. “Você se empodera, mas todos os dias você precisa reforçar isso. Nos dias de mais vulnerabilidade é complicado, mas a gente vai aprendendo a lidar”, reforça.

“Quando me posiciono, repasso a ideia de que a partir de um certo momento você não aceita mais ser ridicularizada.”

Quando Diva “muda de cara” — transforma o tom ou o corte dos fios — atenção: significa que ela fechou um ciclo, passou por um obstáculo, deixou um perrengue para trás. Para as mulheres negras, no entanto, essa relação é um mergulho ainda mais profundo. “Olhar no espelho e perceber que meu cabelo era crespo, deixar de usar procedimentos químicos e me permitir descobrir coisas novas foi um primeiro passo para entender a potência do meu cabelo”, descreve ela. “Se eu mudei meus fios, saiba que estou me achando maravilhosa. Ninguém me tomba!”, finaliza dando uma risada. O reencontro com os fios naturais, após anos de alisamento, foi essencial para que então ela pudesse se distanciar da ideia construída pelo racismo de que apenas um tipo de cabelo pode ser bonito. “As mulheres negras não têm que ter o cabelo A, B ou C, mas é importante passar por este momento de encontro para nos entendermos e nos permitirmos. A partir disso, nos sentimos livres para tudo, até mesmo não ter cabelo”.

Como mostra Diva, ter uma experiência autêntica e respeitar sua humanidade e sua vulnerabilidade é mais importante do que se apegar aos termos. “Mesmo quando não estou tão bem, às vezes posto uma foto sem maquiagem e resolvo falar sobre isso.” Ela cita Alicia Keys como inspiração para esses momentos de encontrar beleza também na naturalidade: “amo quando eu acordo, por exemplo. Costumo me achar maravilhosa. Precisamos ter a delicadeza e a sutileza de nos respeitarmos”.

Diva Green veste body body e calça de moletom Forever 21.

Diva Green veste body body e calça de moletom Forever 21. (Thais Vandanezi/ELLE)

Pincéis que curam

Kiyomi Hayashi deu adeus a uma antiga percepção de si por meio da maquiagem

Quando se fala de maquiagem, Kiyomi Hayashi acredita muito mais em seu poder de cura do que na sua capacidade de esconder supostos defeitos. No entanto, seu primeiro contato com o mundo da beleza não foi tão saudável quanto a ligação que ela tem hoje com esse universo. “Um dia, uma colega de sala apontou para as minhas sobrancelhas, disse que elas eram falhadas e que, por isso, era engraçado olhar para mim”, relembra. O comentário maldoso a atingiu profundamente quando criança e a motivou a passar horas na penteadeira de sua avó tentando redesenhar uma sobrancelha “perfeita”.

Demorou bastante para que o estigma desse espaço para sua autoestima pudesse florescer. Não à toa, nos anos 1990, ser a única menina japonesa da sala de aula também não era fácil. “As pessoas achavam que na minha casa a gente comia inseto.” A desconstrução dessas noções errôneas a respeito de si foi começar quando ela se mudou do interior de São Paulo para a capital, a fim de fazer faculdade. “Saí de um meio ultraconservador para viver em um ambiente muito mais aberto. Tive contato com outras pessoas e passei a enxergar o mundo de uma outra forma”, remonta a maquiadora que, hoje, tem as sobrancelhas raspadas e se diverte criando mil desenhos diferentes no lugar delas.

Kiyomi veste blusa Forever 21 e pantacourt Heloisa Faria.

Kiyomi veste blusa Forever 21 e pantacourt Heloisa Faria. (Thais Vandanezi/ELLE)

“Acho que esse foi um dos momentos mais libertadores para mim”, comenta sobre a época em que simplesmente desistiu de se encaixar nos padrões vigentes de beleza. “A crítica vem de todos os lados: não só por não cumprir com essa série de características e tarefas, mas também por se esforçar exageradamente por cooptar com tudo isso.” Cansada e com a saúde abalada – Kiyomi enfrentou distúrbios alimentares na adolescência por não conseguir aceitar o seu corpo –, ela decidiu começar a se dedicar a melhorar.

Foi para a terapia e colocou o amor-próprio em primeiro lugar na sua lista de prioridades. “É algo em mim que eu não coloco mais em jogo. A moda é cheia de eventos e têm lugares e situações que não me fazem bem – principalmente quando alguém quer dar uma ‘dica amiga’ a respeito de emagrecimento. Se eu sei que vou me sentir mal, dou um jeito de, elegantemente, dizer não”, explica. “Uso esse tempo ao meu favor. Vou caminhar, sei lá, qualquer coisa que eu seja capaz de fazer sozinha, que não dependa de ninguém.” Foram rituais introspectivos como esse que a ajudaram a se fortalecer e dar a volta por cima da visão enganosa que tinha a respeito de sua imagem. “Acho que todo mundo deveria doar 30 minutos diariamente para cuidar de si. No meu caso, é a automaquiagem que executa essa tarefa. Ficar esse tempo todo parada se olhando no espelho faz com que você se valorize cada vez mais”, aconselha.

“Todos deveriam doar 30 minutos diariamente para o autocuidado. Ficar esse tempo todo se olhando no espelho faz com que a gente se conecte e se valorize cada vez mais.”

O nome de Kiyomi, na verdade, também é Maira. “Quem é descendente de japonês tem o hábito dar um nome de brasileiro para os filhos, para que, no futuro, eles não sofram nenhum estranhamento. No entanto, Kiyomi significa ‘alegria e beleza eterna’, algo muito mais forte do que Maira, mas a existência de Maira foi importante para que eu chegasse até aqui.” Hoje, Maira está adormecida e, pelo o que pudemos ver na conversa, Kiyomi irradia, com ou sem maquiagem, sob a luz do sol.

Kiyomi usa vestido Renner.

Kiyomi usa vestido Renner. (Thais Vandanezi/ELLE)

Armadura Pink

Pintar o cabelo ajudou Ana Parisi a ser quem ela é, independentemente de como vê seu corpo

Desde os 17 anos de idade, Ana Parisi trabalha com moda. Em Recife, sua cidade natal, ela dava uma força para o site Garotas Estúpidas da blogueira Camila Coutinho em época de temporada de moda e depois passou para o time da multimarcas Dona Santa. Atualmente, a stylist independente mora em São Paulo e é ela quem assina a edição de moda das fotos desta reportagem.

“É muito triste ver que, quando as marcas se propõem a fazer uma linha com tamanhos maiores, o resultado, na maioria das vezes, parece um deboche.”

Com uma carreira extensa dentro do mundo fashion, Ana ainda não se sente 100% parte integrante desse universo. “Eu sempre soube qual era o meu lugar, nunca quis ser modelo, por exemplo, que é uma coisa que todo mundo almeja. Quando eu disse para a minha avó que queria trabalhar com moda, ela riu e caçoou: ‘mas você é gorda’. Claro que ela tinha uma cabeça de outra época, mas são memórias que ficam com a gente”, recorda.

Ana veste blusa Linda de Morrer, boina Forever 21 e brincos do acervo da stylist.

Ana veste blusa Linda de Morrer, boina Forever 21 e brincos do acervo da stylist. (Thais Vandanezi/ELLE)

“Eu nunca soube o que é ser magra. Sempre tive muito peito e muita barriga”, diz. Apesar de usar 48 – apenas uma numeração acima da grade tradicional –, Ana se sente praticamente obrigada a viver com um uniforme: “estou sempre de camiseta de malha e legging ou calça preta. É muito triste ver que, quando as marcas se propõem a fazer uma linha com tamanhos maiores, o resultado, na maioria das vezes, parece um deboche.” São modelagens, acabamentos, estampas e cores que, segundo ela, não fazem o menor sentido. “É muito complicado achar algo que eu realmente queira usar.” Por isso, sua relação com o cabelo se sobressaiu.

“Quando eu pintei de cor de rosa foi uma guinada muito boa para a minha autoestima. Fez com que eu encontrasse uma coisa legal em mim que, ao mesmo tempo, desviava o foco das pessoas em outros pontos que não me agradam tanto”, explica. “Com a maturidade, fui aprendendo a conviver com meu corpo. Uso coisas que sei que escondem o que eu não quero mostrar. Fui desencanando de certas coisas.”

Apesar de apoiar o discurso de modelos como Ashley Graham e Candice Huffine, para Ana, ainda é muito difícil enxergar beleza em “imperfeições” como a celulite, por exemplo. “Claro que me sinto um pouco culpada em dizer isso. Mas, ao mesmo tempo, estou cercada por um mundo que cristalizou um padrão de magreza muito difícil de vencer. Ainda assim, fico muito feliz em ver a repercussão que essas meninas estão ganhando e como as coisas parecem mudar a partir disso.”

Ana usa vestido Morfema Zero sob quimono NK Store e brincos do acervo da stylist.

Ana usa vestido Morfema Zero sob quimono NK Store e brincos do acervo da stylist. (Thais Vandanezi/ELLE)