Vamos Pensar Sobre Beleza: Camila de Alexandre

"Queremos transformar em natural o que já é natural: a sua beleza"

Ao mesmo tempo em que renova a mentalidade dos profissionais de beleza com seu trabalho, Camila prova com sua história que o feminismo transforma a vida das pessoas.

Em 2018, a hashtag #VamosPensarSobreBeleza se transforma em uma coluna mensal da revista e do site da ELLE. Enquanto na nossa edição impressa discutimos os assuntos mais quentes com reportagens inteligentes a respeito do que é beleza atualmente, aqui entrevistamos garotas que vivem isso na pele, todos os dias, e contamos as suas histórias. 

FOTOS Andreia e Nathalia Takeuchi | BELEZA Camila de Alexandre | STYLING Ana Parisi

Foi de tanto alisarem o cabelo de Camila de Alexandre que ela aprendeu a técnica, passou a aplicar nas amigas e até virou cabeleireira, seu primeiro passo dentro do mercado de beleza. “Trabalhei em um monte de salões de bairro lá em Macaé, aprendi muito”, relembra os tempos de Rio de Janeiro enquanto conversávamos na parte de fora do estúdio, em São Paulo. Tempos depois, já na capital paulista e com o cabelo livre de alisamentos, Camila virou uma das mais interessantes e prestigiadas maquiadoras do atual mercado editorial e, inclusive, é ela quem assina a beleza deste #VamosPensarSobreBeleza, e dos próximos três que serão divulgados mensalmente até agosto.

Leia maisCobrir a pele não é mais prioridade na beleza

Entre Macaé e São Paulo, foram muitos lugares e experiências até chegar onde está agora: ela descolou um trabalho de maquiagem em um programa do Multishow, conheceu garotas igualmente talentosas (estamos falando de Renata Brazil, Paula Kadija, Alice Doralice, Carla Biriba e Amanda Schön: as “maquiatrices”, como se auto-intitulam) e veio parar aqui, tentando “fazer alguma coisa diferente do olho esfumado”. Juntas, essas amigas entraram em contato com o feminismo, e esse encontro deu uma reviravolta na maneira como todas trabalham e vivem.

Camila veste Gucci.

Camila veste Gucci. (Andreia e Nathalia Takeuchi/ELLE)

No caso de Camila, o primeiro e grande obstáculo a ser ultrapassado, é claro, foi o cabelo que alisou durante toda a vida. “É louco isso. Minha mãe que é branca sempre achou meu cabelo lindo. Era minha tia, que é preta, que me levava para alisar. Acho que é isso, as pessoas já vêm com a ideia de que nosso cabelo é ruim e que, para resolver, precisaria alisar. Do contrário, eu ia sofrer bullying na escola,ou qualquer coisa do tipo”, recorda. Depois do “big chop” — corte radical para retirar a química dos fios e que faz parte da transição capilar — tudo finalmente mudou, mas não foi do dia para a noite. “É claro que eu estranhei horrores quando fiz isso, mas a minha autoestima só foi crescendo desde então. Na verdade, foi a partir disso que eu passei a ter, de fato, alguma autoestima. Eu entendi quem eu era. Tanto que, quando quiseram alisar o cabelo da Luiza, eu não deixei. Ela teve cabelo natural a vida toda”, diz sobre sua irmã mais nova.

Já no trabalho como maquiadora, Camila tem o discurso tão afiado quanto necessário. Assim como suas colegas de profissão, ela tomou para si a missão de mostrar que nenhuma mulher precisa transformar seu rosto em outro para ser bonita ou para ser considerada feminina. “Queremos transformar em natural o que já é natural: a sua beleza, que é bonita por si só, que é você, seja lá como for. Não precisa se contornar toda”.

Dentro do mundo da moda, elas também querem mudar a posição da maquiadora no set. No que depender delas, quem traz os pincéis também traz opinião e insight criativo.

“Sempre fui a feia a vida inteira, mas eu só estava sem entender qual beleza era a minha. Agora, até virei modelo!”

Camila veste top Versace e brincos de acervo da stylist.

Camila veste top Versace e brincos de acervo da stylist. (Andreia e Nathalia Takeuchi/ELLE)

“Antigamente tinha isso de fotógrafo mandar, stylist mandar e maquiador só executar. Então aconteciam um monte de problemas: branca de trança, mulher pintada de preto, muita apropriação cultural. E isso é uma coisa que quem forma opinião não pode fazer. É preciso consciência para parar de repetir os erros”, aponta. “Até hoje, no meio da maquiagem, não tinham muitas mulheres que assinavam desfiles ou faziam as capas de revistas. Por que só os maquiadores homens podem dizer o que é uma mulher bonita? Eles são homens, por que estão ditando como nós devemos ser bonitas?”

No fim das contas, a missão é sempre a mesma: fazer com que as próximas gerações consigam questionar — assim como Camila vem fazendo hoje — os padrões estéticos opressivos que são impostos ao nascer. “A minha irmã e as meninas da idade dela já não vão mais crescer nessa ideia. Eu não consigo deixar meus pelos crescerem, tenho um bloqueio que ela não tem. O mesmo vale para a minha pele. Agora que parei de tomar anticoncepcional ela mudou e isso me incomoda, mas quando só tinha uma espinha ou outra, eu não usava base e me achava linda desse jeito.”

Camila veste Gucci.

Camila veste Gucci. (Andreia e Nathalia Takeuchi/ELLE)

No meio dessa jornada, para se manter sã, Camila confia em quem a ama. “Agora, eu aproveito. As pessoas falam que eu sou bonita, eu acredito e falo que é isso mesmo. Sempre fui ‘a feia’, mas eu só estava sem entender qual beleza era a minha. Agora até virei modelo! A gente precisa se cercar de quem que nos faz bem, quem levanta a gente”. Existe dica melhor? Anotado!

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