A mulher por trás do sucesso da grife Prada

Miuccia Prada tem como profissão o design, mas também é curadora de arte, produtora de filmes, arquiteta iniciante, feminista em conflito, consumista ávida e socialista ultrapassada! Conheça a mulher por trás do mito

Miuccia e o marido, Patrizio Bertelli, comandam a Prada
Foto: Divulgação

A primeira loja da Prada, inaugurada em 1913 pelo avô de Miuccia, fica em Milão, localizada em uma passarela de vidro e mármore chamada Galleria Vittorio Emanuele III. O espaço é como um farol inserido em uma fantasia italiana de estilo e riqueza.

Mario Prada fazia itens de couro. Em 1918, sua coleção incluía uma bolsa de lagarto com marcassita e uma fivela de lápis-lazúli. O ponto alto de 1927 foi uma carteira de pele de sapo e prata. Quando ele morreu, sua filha assumiu e, finalmente, trouxe consigo sua filha mais nova, a sorridente Miuccia, apelidada pela família de Miu Miu. Em 1978, ela desenhou uma mochila de náilon preto que mais tarde viria a conquistar o mundo. Com seu marido, Patrizio Bertelli, transformou a companhia de varejista excêntrica de bens de luxo em um poço de energia de design contemporâneo, com vendas que ultrapassam 5 bilhões de dólares.
 

SENHORA PRADA

Com 1,63 m de altura, Miuccia, ou a senhora Prada, como ela é conhecida no business, geralmente é um pouco distante – como a esfinge, não é fácil decifrá-la. Alguns estilistas vivem correndo atrás de tendências, mas a Prada, comandada por ela, é a tendência, temporada após temporada, deixando os outros girando em seus calcanhares enquanto ela desdobra sua visão do que uma mulher pode ser. É uma filósofa capitalista, com um instinto brilhante do que é o desejo moderno, e uma designer que não tem medo de fazer perguntas estranhas e respondê-las de forma elegante.

“Quando comecei, a moda era o pior lugar para estar se você fosse uma feminista de esquerda. Era horrível. Tinha preconceito, sim, e sempre tive um problema com isso”, afirma. “Acho que me sentia culpada por não estar fazendo algo mais importante, mais político. Então, de algum jeito, estou tentando usar a companhia para outras atividades”, diz ela, acrescentando em seguida que não está interessada na silhueta e no desenho de uma peça. “Estou tentando descobrir que imagens da mulher quero analisar. Não estou realmente interessada em roupas ou estilo.”

A verdade é que Miuccia usa seu senso de estilo como instrumento para questionamentos maiores. Por que, por exemplo, as mulheres se comportam como se a idade fosse uma prisão? A obsessão da nossa era com a juventude não é uma forma de histeria em massa? “A indústria da idade é um drama muito maior para as mulheres, e eu de verdade acho que nós deveríamos encontrar uma solução. Especialmente porque estamos vivendo muito mais tempo. Antes, as mulheres costumavam ter apenas uma vida, um marido. Agora, você pode ter duas ou três vidas. Até mesmo o conceito de família está mudando. Eu acho que essa questão de idade vai definir a sociedade do futuro.”

CORAGEM

Coragem para mudar é o que ela tem. Ela não é, como os corretores de seguros dizem, avessa ao risco. “Essa questão do feio é próxima ao significado do meu trabalho. O feio é atraente, é excitante. Talvez porque seja um conceito mais novo”, ela diz. “A investigação da feiura é, para mim, mais interessante do que a ideia burguesa de beleza. Porque feio é humano, toca o lado ruim e sujo das pessoas. Isso pode ter sido um escândalo na moda, mas em outras áreas da arte é muito comum.”

Miuccia faz o que quer fazer, e talvez seja por isso que outros designers não sejam apenas tocados por sua estética, mas parecem ter se graduado na sua escola de pensamento. “O design dela decorre de uma visão interna de si mesma”, reforça a crítica de moda do The New York Times, Cathy Horyn. “Claramente, ela está cheia de imagens de filmes italianos e conflitos envolvendo beleza, mas o resultado é um emaranhado de sensualidade.”

Mesmo sensual, nada é tão explícito em se tratando da Prada. Ela não afirma: “Você é adorável. Você merece isso. Você vale a pena”. E sim: “Quem é você? Ouse ser diferente”.

MULHER DE FASES

Miuccia estudou mímica e se apresentou no La Scala e em outros lugares quando era jovem. Era uma comunista que acreditava, como muitos de sua geração, a dos anos 1960, que a mudança viria não por meio de mercadorias, mas pela revolução. Bem, existiu uma revolução, mas foi, como quem se lembra das horas após o Muro de Berlim cair, uma revolução do blue jeans. As pessoas do lado leste de Berlim estavam desesperadas para irem às lojas. A Prada foi uma das marcas que renasceram nessa época, tentando sempre descobrir algo novo. “No início da minha carreira, tentei ouvir os outros e isso foi errado. Tenho que fazer o que acho certo. Nos anos 1990, eu era considerada pequena porque estava escondendo a mim mesma e minhas ideias.”

Vender é tão importante quanto fazer? “Sim. Se as pessoas tiram dinheiro do bolso, isso significa que o que você está fazendo é relevante para elas. Eu espero que elas não comprem apenas porque o objeto tem um símbolo, mas porque ele é relevante. Vender é provar que o que você está fazendo faz sentido.”

Existe uma pequena ansiedade em Miuccia. Como uma feminista, uma pensadora, uma pessoa que ama arte e cultura – com PhD em ciência política pela Universidade de Milão – ela se preocupa, provavelmente, que o mundo da moda possa banalizar os problemas do planeta. Pode ser que ela também se preocupe porque uma rica designer seja desqualificada para abordar esses problemas. O resultado? A moda a segue, e os artistas a amam, porque ela é responsável por mudanças. “Quero que a Prada tenha sucesso. Mas a ideia da marca não me interessa, e eu nunca penso nisso. A verdade é que tudo o que crio vem de mim. É minha alma, minha vida. O trabalho, a fundação, minha vida pessoal, é tudo uma coisa só.”

Você pode acreditar nisso quando vê como suas enormes lojas, ou “epicentros”, viraram não apenas locais de venda mas também zonas de cultura, em que um filme pode ser exibido. Essa é a posição que ela criou, na qual uma grande estilista pode ser um magnata, uma curadora, um para-raios… E pensar que o avô dela não queria que as mulheres da família se envolvessem nos negócios.

BUSINESSWOMAN

“Às vezes, ainda sinto que as mulheres não apreciam sua posição na sociedade. Que não somos fortes o suficiente para impor nosso pensamento. Nós não gostamos, por exemplo, de `businesswoman’: vamos contra mulheres que aparentam ser homens. O que sempre tentei foi ter aspectos no meu caráter que viessem de todos os lugares. Tenho amigas que dizem: `Nada de homens, de filhos, independência total’. Eu escolhi um pacote completo. E não acho que seja tão ruim ser agradável com um homem.” (Ela também é mãe de dois filhos por volta dos 20 anos.)

Escolha natural para vestir as atrizes do filme O Grande Gatsby, de Baz Luhrmann, Miuccia entende como poucos a conjunção de dinheiro, romance e sonhos, surgida das contradições de Fitzgerald.
Miuccia vai continuar pensando, e as pessoas vão continuar comprando. E um dia nós poderemos acordar e descobrir que a realidade do nosso dia a dia foi desenhada por gênios como ela, metade capitalista, metade comunista, procurando sempre pela próxima grande ideia e muitas vezes encontrando-as perto de casa. “Precisa ser verdadeiro para você e, então, pode fazer sucesso.”
 

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