Delícia de caos: o melhor do Camboja e do Vietnã

O Camboja e o Vietnã são um pedacinho do mundo onde tudo - cheiros, cores, sons, paisagens - é absolutamente intenso, profundo e delirante

Nascer do Sol em Angkor Wat, no Camboja
Foto: Marco Pomárico

As cores, os sabores, a junção improvável de vogais e acentos, o trânsito de motos, bicicletas e tuk-tuks… O caos! O delicioso caos. É tudo superlativo na Indochina, a delicada península do Sudeste Asiático onde a França estabeleceu colônia no século 19 e adicionou elegantes pitadas europeias a curries, sedas e lótus.

Entre Tailândia, China e Mianmar, a terra desenha arrozais a perder de vista, densas florestas e praias de águas calmas e transparentes, ainda guardadas em segredo do resto do planeta. Em meio a tudo isso, a região hoje formada pelo trio Vietnã, Camboja e o pequenino Laos reúne o frenesi de algumas das mais fascinantes metrópoles orientais, encantadoras cidades coloniais, coloridas tribos de montanha e templos budistas bem preservados. A combinação incomum e exótica desse pedacinho do mundo vem atraindo apurados olhares ocidentais desde que o passado recente, marcado por guerras, passou a ser apenas um triste rastro difuso na memória.

Herança imperial

Casa de cerca de 15 milhões de pessoas, o Camboja começou a escrever seus anos dourados ainda no século 9, quando a cidade de Angkor era a capital do poderoso Império Khmer. Durante cinco séculos, a região viu nascer alguns dos mais impressionantes templos hinduístas e budistas do mundo, até que adormeceu quando a capital migrou para algumas centenas de quilômetros de distância, a atual Phnon Penh. Hoje, o complexo espalhado pela mata nas proximidades de Siem Reap, em uma área de mais de 200 km², é o principal cartão-postal do país.

A grande estrela é Angkor Wat, considerado o maior templo religioso do mundo, erguido no início do século 12. Coroado por cinco torres (a mais alta delas com impressionantes 213 m), foi dedicado inicialmente ao deus Vishnu – uma de suas principais atrações são as paredes de pedra esculpidas com um delicado relevo de divindades hinduístas. Assistir ao nascer do Sol às margens de seu lago, recheado de flores de lótus, é um espetáculo imperdível. De lá, estradinhas estreitas de terra levam a verdadeiras joias erguidas com pedras, muitas delas em simbiose com as raízes das árvores, caso dos templos Preah Khan e Ta Prohm. Entre lindas pontes, densos trechos de florestas e fazendas de seda, surgiram recentemente deliciosos oásis para embalar as tardes sem pressa – já é possível tomar um bom cappuccino no Angkor Café, por exemplo, e degustar um tradicional confit de canard no bistrô francês Chez Sophea, ambos a poucos passos de Angkor Wat. Delícias que seriam inimagináveis poucos anos atrás.

Gastronomia

A meio caminho entre o templo e a cidadezinha de Siem Reap, que hoje é repleta de bons restaurantes e finas delicatessen, além de bares badalados e hospedagens de luxo, a rede Orient Express levou toda a pompa (e também um spa, um lounge de martínis, uma incrível piscina cercada por espreguiçadeiras e um denso jardim) a um tradicional casarão de arquitetura tipicamente asiática. Além de dono de um dos melhores restaurantes locais – o Circle, que serve especialidades da culinária khmer -, o hotel La Résidence d’Angkor é um dos mais elegantes do país, que hoje se reinventa com fortes sopros gauleses, depois dos amargos anos ditatoriais conduzidos pelas mãos de Pol Pot, líder do Khmer Vermelho, partido que governou o Camboja durante quatro anos, entre 1975 e 1979.

“Minha fascinação pela região vem do filme Indochina, com Catherine Deneuve, e do livro L’Amant [no Brasil, O Amante], de Marguerite Duras”, diz a estilista belgo-brasileira Valérie Ciriadès (da marca homônima), que passou duas longas temporadas no Camboja e desenhou in loco toda a sua última coleção, batizada de Indochine. “A experiência por lá mudou a minha vida. Eu mergulhei nos mercados, viajei de barco pelo rio Mekong, andei de tuk-tuk. O Camboja é um vício delicioso!”.
 

Delícia de caos: o melhor do Camboja e do Vietnã

As águas de Halong Bay, no Vietnã
Foto: Marco Pomárico


Viagem no tempo


Banhado pelas águas do mar da China e dono de uma costa de quase 3,5 mil km de extensão, o Vietnã ocupa uma tripinha de 330 mil km². Hanói, a capital, é uma verdadeira viagem no tempo. O centro histórico, um emaranhado de ruelas nos arredores do lago Hoam Kiem, mistura construções coloniais e templos seculares. Estes merecem uma visita: a Catedral de São José, erguida em estilo neogótico no século 19, e o antiquíssimo Templo da Literatura, construído no século 11 em homenagem a Confúcio. O cenário se completa com mercados e feiras, calígrafos, curiosas lojas de lápides e bares, onde os locais tomam religiosamente a bia hoi, a cerveja local, sentados em banquinhos de menos de um palmo de altura espalhados pelas calçadas. A comida de rua no Vietnã é famosa por ser uma das melhores do mundo – em pouco tempo, nomes como cao lao (sopa de noodles), nem (uma espécie de rolinho primavera feito com papel de arroz) e wonton (uma panquequinha frita e crocante) soam familiares. Para uma introdução a esse mundo, vale conferir o restaurante Highway 4, um dos melhores da cidade.

A menos de três horas de distância de Hanói, no golfo de Tonkin, Halong Bay é um verdadeiro delírio visual, com mais de 3 mil ilhotas, que emergem abruptamente do mar de água esmeralda. Cerca de 380 km rumo ao norte, Sapa, na fronteira com a China, é a base para explorar as florestas da região, onde, em pequenos vilarejos, vivem tribos de mais de 15 etnias. As roupas coloridas e os tecidos bordados fabricados por lá ganharam fama mundial e podem ser conferidos no mercado da cidade.

Rumo ao sul, Hoi An, uma cidadezinha com apenas 75 mil habitantes, patrimônio mundial da Unesco, pede dias sem pressa às margens do rio Thu Bon. Cercada de campos de arroz, ela se divide entre a praia, onde ficam hotéis de luxo, como o The Nam Hai, e o centro histórico, repleto de mansões erguidas entre os séculos 15 e 20. Ali, cada esquina esconde um ateliê de “fast fashion”: da noite para o dia, habilidosas costureiras são capazes de fazer, sob medida, de ternos a vestidos de seda.

A Guerra Americana

É impossível dissociar a imagem do Vietnã da guerra que se estendeu entre 1955 e 1975, chamada por lá de Guerra Americana. Esse passado é narrado de maneira didática pelas ruas de Ho Chi Minh, a antiga Saigon, no extremo sul, onde há um museu dedicado ao tema, e grandes postais da época, caso do Palácio da Reunificação, que selou o fim do conflito. Mas é rumo ao futuro que hoje olha a metrópole de 6 milhões de habitantes, em que atravessar a rua pode ser tão desafiador quanto adivinhar os ingredientes das comidas típicas.

O crème de la crème de Ho Chi Minh está hoje concentrado no Distrito 1: do melhor restaurante local, o The Temple , aos bares superbadalados que surgiram nos últimos anos, caso do Blanchy’s Tash e do Chill Skybar, que ocupa o 26º e o 27º andares de um arranha-céu com vista arrebatadora. Os arredores do Boulevard Nguyen Hue e da rua Le Loi reúnem as grandes marcas – há elegantes flagships de Chanel, Bulgari, Louis Vuitton, Hermenegildo Zegna e Burberry. Tudo isso sempre a uma curta distância dos fascinantes mercados locais, para quando a referência de Oriente fizer falta. Só vale a pena se afastar da região para se refugiar em endereços como o An Lam Saigon River, um hotel butique com villas, cercadas de lindos jardins de bambu, a 15 minutos de barco do centro. Para dormir embalada pelas águas do rio Saigon e sonhar com os ventos que vão soprar nos dias seguintes.
 

Comentários
Deixe um comentário

Olá, ( log out )

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s