#EraAgeless: Quem tem medo de ser velho?

Em um mundo em que a urgência para o sucesso está cada vez mais acentuada, como lidar com a inevitável visita do tempo?

Até 2015, era muito raro ver pessoas com mais de 60 anos estrelando campanhas de moda. Aliás, era raro ver gente com mais de 30, tamanha a obsessão da moda com a juventude. Uma das pessoas que começou a virar esse jogo foi a ex-diretora criativa da Céline, Phoebe Philo. A britânica escolheu a escritora norte-americana Joan Didion para estrelar um dos anúncios da marca que, naquela época, estava sob sua batuta.

Leia mais: #EraAgeless: Um novo olhar sobre a “roupa de velha”

Didion tem, hoje, 83 e é uma das autoras mais celebradas de sua geração. A escolha, na época, causou frisson e trouxa à tona um debate importante: qual o espaço das pessoas velhas na moda? Recentemente, o The Business of Fashion, um dos títulos de moda mais respeitados do mundo, disse que a próxima geração a entrar em foco é a dos sexagenários. Em seu texto, Victoria Berezhina cita o sucesso da influencer Lyn Slater — dona do blog “Accidental Icon” — e da modelo Maye Musk — primeira mulher com mais de 60 anos a ser o rosto da Covergirl como exemplos dessa movimentação.

Mais recentemente, a estilista inglesa Simone Rocha fez um casting 100% composto por mulheres mais velhas e a atriz Isabella Rossellini estrelou a campanha do norte-americano Sies Marjan — neo designer que está roubando a cena nos Estados Unidos. Na semana passada, inclusive, a Gucci anunciou Faye Dunaway (77 anos) como sua garota-propaganda e a The Paradise, do Rio de Janeiro, fotografou a avó do estilista Thomas Azulay. Mas, será que isso significa que as coisas realmente mudaram?

Vanessa Friedman, editora de moda do The New York Times, acha que o mercado precisa começar a responder melhor para esse público. Em um de seus artigos, ela disseca a incongruência com a qual a moda trata o assunto idade: se por um lado, os maiores players da indústria não são jovens (pense em estilistas lendários que ainda estão em atividade como Karl Lagerfeld, Miuccia Prada, Giorgio Armani e Tommy Hilfiger), por outro pessoas muito novas estão sempre na mira de suas grifes. “A realidade é que, enquanto essa ficha de envelhecimento global não cair, continuaremos esquecendo uma porção da população que só cresce e que possui alto poder aquisitivo — muito mais do que adolescentes e jovens adultos (que geralmente são o alvo do produto, considerando componentes e comunicação)”, diz a pesquisadora de tendências do Box 1824, Lydia Caldana.

“Você não consegue manter o seu cliente sem agradá-lo. Eu, por exemplo, já tenho idade o suficiente para saber disso”, arremata Vanessa no final de seu texto fazendo alusão ao fato de que 42% do dinheiro sendo gasto nos EUA atualmente vem da geração Baby Boomer (também conhecidos como todo mundo que tem mais de 50 anos). Aí, surge mais uma questão para esse quebra-cabeça maluco: será que o mercado deveria criar produtos “para velhos”?

Para isso, vale recorrer à gerontóloga britânica Julia Twigg. Em “Fashion, The Body, and Age”, ela remonta o que a sociedade ocidental espera de quem é considerado “velho”. Uma das primeiras noções que a autora traz à luz é a de que o conceito de juventude está extremamente ligado à sexualidade. Das pessoas mais velhas, espera-se que elas tenham reduzido ou retirado o espaço do sexo em suas vidas. Ou seja, elas não tem mais permissão para usar roupas consideradas “sexy”. Fazer isso, inclusive, seria condenável. O indivíduo em questão que ousa escolher peças como essas tem que aguentar o peso do julgamento: “sem noção”, “desavisada”, etc.

A influencer de 90 anos Baddie Winkle, conhecida por seu guarda-roupa ultra-colorido e espalhafatoso, encara as críticas sem medo: “Nunca deixei de me sentir sexy, em nenhuma fase da vida. Mas, acho que a mídia tem muito a ver com o fato de muitas mulheres odiarem seu corpo. Algumas ideias e padrões são empurrados sobre nós todos os dias. Revistas, TVs, filmes e campanhas deveriam valorizar mulheres de todos os tipos, especialmente de todas as idades! Isso é muito importante”, assegurou em entrevista à ELLE Brasil em 2016.

90 years old 🎂

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Ao mesmo tempo, a sociedade espera também que ninguém nunca envelheça. Se você tem 40, faça parecer 30. Se tem 50, faça parecer 40, e por aí vai. E isso, obviamente, leva as pessoas a se submeterem a uma série de procedimentos estéticos que são, muitas vezes, invasivos. Não à toa, o número de cirurgias plásticas só aumenta.

A​ idealização da juventude continua sendo o foco da maior parte das empresas e sociedades que ainda não entenderam a mudança drástica que estamos vivendo na pirâmide etária. – Lydia Caldana, pesquisadora de tendências do Box 1824.

E há agravantes. Se por um lado, a geração Z está redefinindo qual é a figura de um empresário de sucesso, essa “democratização” é questionável. Quando Kylie Jenner sai na capa da Forbes pelo êxito dos seus negócios, podemos interpretar de duas maneiras. Por um lado, podemos comemorar que ser alguém diferente de um homem branco com mais de 50 está alcançando essa posição com mais frequência. Por outro, as meninas que já são bombardeadas por todo lado com o ideal de feminilidade, ainda têm que lidar com a pressão de “darem certo” antes dos 30. Do contrário, serão “velhas demais” para alcançarem seus objetivos. Lydia concorda: “Essas capas geram ​muita ansiedade e ​colocam um alto nível de ​cobrança em adolescentes que inevitavelmente se comparam​. ​Vale lembrar que a Kylie é de uma família que já era muito privilegiada, e que não são novas narrativas em que pessoas de famílias milionárias continuem sendo bem-sucedidas.”

Além disso, sempre que se fala de comportamento, quem está em foco são os jovens. “A​ idealização da juventude continua sendo o foco da maior parte das empresas e sociedades que ainda não entenderam a mudança drástica que estamos vivendo na pirâmide etária. Ainda relevam toda a sabedoria que poderia ser inclusa se considerássemos pessoas acima de 60 anos como seres pensantes, com opiniões, dinheiro e produtividade”, continua Lydia. Tudo contribuindo para o que Julia Twigg chama de cooptação para a invisibilidade da terceira idade.

Na briga pela revisão dessa ideia de que a velhice é um fim de vida que não merece ser observado e vivido em sua plenitude, existem ativistas como o fotógrafo e blogueiro Ari Seth Cohen. O norte-americano passou a infância e boa parte da vida adulta tendo sua avó como melhor amiga. Essa experiência transformou completamente a maneira como ele enxerga a situação de quem está ciente de que está vivendo os últimos momentos de sua vida. Em entrevista à ELLE Brasil, ele abre novas possibilidades: “A experiência e a liberdade de não se importar mais com o que as pessoas pensam faz com que alguns deles aflorem um senso de estilo que sempre tiveram, mas não tinham coragem de colocar para fora.”

Advanced Style Este é um exemplo das fotos de Ari Seth Cohen para seu blog, o Advanced Style.

Este é um exemplo das fotos de Ari Seth Cohen para seu blog, o Advanced Style. (Advanced Style/Reprodução)

Cohen é o fundador do blog Advanced Style que, há dez anos, retrata o estilo de sexagenários estilosos em Nova York. “O blog ajudou a criar uma virada na maneira como os idosos são vistos porque, na verdade, traz visibilidade para um dos segmentos mais invisíveis da população ao, simplesmente, mostrar que envelhecer não significa perder a sua identidade”. Julia Twigg coloca uma segunda possibilidade igualmente positiva para essa liberdade: que tal não dar mais bola para como você se veste? Uma vez que não há mais a cobrança pelo estereótipo de feminilidade feito para agradar homens, a moda e a beleza podem entrar em segundo plano.

Entretanto, quem convive com sexagenários sabe bem que, muitas vezes, personagens excêntricas como a decoradora e ícone de estilo Iris Apfel, ou mesmo a industrial brasileira Costanza Pascolato não funcionam tão bem como representação na vida real. Muitos deles, por sentirem a pressão para a invisibilidade, pedem por mais discrição. Não é todo mundo que tem a coragem de, assim como elas, explorar sua individualidade ao máximo com a chegada da idade. Ainda mais se alguma doença chega para abalar a autoestima numa fase mais frágil da vida.

The love between two old friends is beyond words 💋 #fashionbirds

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A velhice não é brincadeira. Não é fácil envelhecer, principalmente se o corpo já não responde da maneira ideal como se esperava em outros momentos. O problema, muito possivelmente, está em não olhar para esse momento ou fingir que ele não existe. Se tem algo que nos une enquanto humanos é que a passagem do tempo visita a todos. Por que então estamos fechando os olhos para isso? Campanhas de moda e casting para desfiles podem ajudar a representatividade melhorar, mas desmistificar a velhice em âmbito individual pode ajudar a gente e os outros a viver esse período sem medo, com os pés fincados nas possibilidades trazidas pela realidade. “Se as pessoas convivessem mais com idosos, saberiam que ainda há muito crescimento que continua acontecendo quando estamos chegando no final da vida”, resume Cohen.

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