No novo feminismo, o importante é ter liberdade de escolha

O ativismo dos novos tempos libera a mulher para ser fashion e sensual, casar virgem, pintar o cabelo, batalhar pelos seus direitos, rebolar ou não fazer nada disso

Beyoncé esteve no Brasil recentemente com a turnê The Mrs. Carter Show
Foto: Getty Images

“Quem manda no mundo? As meninas”, canta Beyoncé no refrão de uma de suas músicas mais famosas, que se tornaria um hino do girl power. A artista, que esteve no Brasil recentemente com a turnê The Mrs. Carter Show, virou um novo símbolo de feminismo. Ao som de uma banda só de mulheres, a cantora alterna canções sobre o poder feminino e homenagens a ícones como a secretária de estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, e Malala Yousafzai, paquistanesa de 15 anos baleada pelo Talibã por lutar pelo direito de as garotas estudarem. Mas sua postura é constantemente questionada: como podemos considerar feminista quem posa sexy em revistas, pinta o cabelo de loiro, rebola para ganhar a vida e batiza seu espetáculo com o sobrenome do marido, o rapper Jay-Z Carter? Os novos tempos, porém, ensinam que a pergunta a fazer não é “como pode”, mas “por que não?”

O feminismo hoje se apresenta de diferentes formas, inclusive em cima de um palco, vestido de Givenchy decotado. Sua versão moderna visa ampliar as escolhas das mulheres e respeitar os desejos de cada uma, em contraponto à militância do passado, que reprimia tudo que pudesse parecer resultado da opressão machista.

Uma mulher pode casar virgem ou abandonar a carreira para cuidar da família – decisões vistas como imposições do mundo paternalista – e ainda ser feminista. Da mesma forma que assumir sua sensualidade não a impede de ser militante. O corpo é nosso e fazemos o que quisermos com ele – encarar um topless na praia ou usar burca – desde que, de fato, seja uma escolha. “Vestir-se como gostaríamos é uma opção e faz parte da liberdade de expressão da mulher”, afirma Bárbara Castro, doutora em ciências sociais pela Unicamp e especialista em trabalho e gênero.

As bandeiras parecem contraditórias, mas são válidas, representam ideias fundamentais do feminismo divulgadas por várias mulheres. “A funkeira Valesca Popozuda sobe no palco para defender o direito ao prazer sexual, apesar de muita gente dizer que ela depõe contra as conquistas femininas porque obedece a um modelo-padrão de beleza de corpo”, afirma Bárbara. “A atriz Lena Duham faz a mesma coisa de uma maneira mais leve com Girls, um seriado que mostra as contradições do que se convencionou ser subversivo e do que quer ser vivido. Posso fazer um jantar-surpresa para o namorado sem parecer que sou submissa na relação? Quem nunca teve esses conflitos de parar, pensar e garantir que, apesar de o machismo existir, ele não está presente na sua relação porque nem você nem seu parceiro são assim?”

GIRL POWER NA MODA

A moda é um dos territórios em que é mais óbvia a necessidade de defender as escolhas pessoais. Para muitos, a indústria é sinônimo de frivolidade e até antifeminista ao levar a mulher a se embelezar para o homem. Mas essa associação perdeu o sentido. “Não posso ser feminina, feminista e bem-sucedida? Eu quero ser feminista e usar gola peter pan, caramba!”, desabafou a atriz Zooey Deschanel à revista Glamour americana.

Também vale lembrar conquistas relevantes nascidas no universo fashion. “Virei modelo com 16 anos. Aos 20, comecei a ler sobre feminismo, o que me deixou desconfortável em vários aspectos, principalmente pelos padrões inatingíveis de beleza”, contou Karen Elson ao portal da blogueira Tavi Gevinson. Ela se perguntava se não estava contribuindo com essa força capaz de machucar as mulheres. “E aí pensei em exemplos como Kate Moss, Gisele Bündchen, Naomi Campbell e Milla Jovovich – essas mulheres não são submissas. São empresárias poderosas que estão transformando a indústria de dentro para fora.” Outro grande exemplo: Coco Chanel. Até 80 anos atrás, a mulher não podia usar calça. A estilista desenhou, produziu, vestiu e brigou bravamente pelo direito ao uso da peça.

FEMINISTA SEM MEDO

A palavra ganhou tantas associações ao ódio que hoje muitas mulheres a desprezam. Algumas celebridades, cujo trabalho fala diretamente com jovens e, portanto, poderia fazer a diferença, rejeitam o título. As cantoras Taylor Swift e Kate Perry são algumas delas. E até Lady Gaga, que não hesita em abraçar causas como os direitos iguais aos homossexuais e a luta contra o bullying, já declarou não ser feminista, pois ama homens. Talvez a rejeição aconteça por acharem que, na verdade, é o feminismo que as rejeita. Mas ser adepta do movimento e fazer canções sobre corações partidos, usar fantasia de cupcake e amar homens, sim, gente, está liberado!

Até quem assume o rótulo o faz cheio de dedos. A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, eleita uma das 100 pessoas mais influentes do mundo pela revista Time, descreveu em uma palestra, em 2012, suas dificuldades ao adotar o feminismo. Ouviu de um jornalista que “feministas eram mulheres infelizes e sem marido”. Então, a autora resolveu se intitular “feminista feliz”. Depois, disseram que o movimento era uma invenção do Ocidente, sem relação com a cultura africana, e que ela havia sido corrompida. Daí Chimamanda alterou o título para “feminista, feliz e africana”. Até perceber que as críticas eram tantas que, para contorná-las, precisaria se apresentar como “feminista, feliz, africana, que não odeia os homens, gosta de batom e usa salto apenas por satisfação própria”. “Decidi não mais pedir desculpa por minha feminilidade”, declarou durante sua apresentação no TEDxEuston, em 2012. “A palavra feminismo tem uma bagagem de ódio. Precisamos limpá-la.” A nova visão do feminismo – mais baseada em criar opções do que em derrubar inimigos – pretende acabar com esse ranço.

PELO COLETIVO

O feminismo começa com uma conquista individual, mas não perde de vista o interesse coletivo. Um exemplo é o Pussy Riot – grupo de punk rock russo, que ficou famoso em 2012 pela prisão de três integrantes da banda por protesto contra o presidente Putin em uma catedral. Política, aliás, é um tema caro às mulheres, que são a metade da população mundial, mas têm baixa expressão em todos os congressos do planeta. “A luta da mulher por uma sociedade melhor ajuda a desconstruir a imagem de que os homens estariam excluídos da pauta de luta das feministas”, afirma Bárbara Castro. “O machismo também causa sofrimento a eles, pois aqueles que não pautam sua masculinidade por essas ideias sofrem violência, simbólica ou não.”
 

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