O ritmo frenético de O Grande Gatsby

Um personagem show, retratado por um diretor idem. O Grande Gatsby, de Scott Fitzgerald, sai dos anos loucos para a loucura de 2013 em ritmo frenético graças à adaptação de Baz Luhrmann

O Grande Gatsby do diretor australiano Baz Luhrmann é vibrante e glamouroso
Foto: Reprodução

Estamos em 1920. Gatsby é um milionário boêmio. O típico cara boa-praça, criado pela mente fantástica de um dos maiores escritores americanos, Scott Fitzgerald. De volta a 2013, Gatsby é a personificação da palavra celebridade: rico, desejado e, não à toa, interpretado por Leonardo DiCaprio. Em comum, os dois carregam traços inerentes às duas décadas: vazio existencial, fuga pela bebida, amores mal resolvidos.

Nas páginas do livro, a história começa no gap entre os escombros de uma grande guerra e o buraco negro da depressão econômica. Os anos 1920 materializaram o que os jovens daquela época julgaram estar mais próximo da felicidade. Regados a álcool e inebriados pelo jazz, eles experimentaram uma permissividade que deixou para trás qualquer amarra do século anterior. Nada muito diferente do que vemos agora – a crise econômica bate à porta e as noitadas continuam as mesmas. Talvez seja justamente esse link, atualizado em ritmo de videoclipe, a maior força do longa em cartaz, dirigido pelo australiano Baz Luhrmann, expert em criar shows pirotécnicos em salas de cinema.

A chamada “geração perdida” viu a liberdade desfilar em unhas pintadas, que seguravam piteiras e em cabelos curtinhos, que deixavam ombros à mostra. É nessa atmosfera art déco, em meio à genialidade elegante dos poetas e pintores e ao ritmo do charleston nos cabarés, que se desenrola o enredo de O Grande Gatsby.

O vizinho excêntrico

A história gira em torno de Jay Gatsby, um misterioso self-made man que acumulou uma fortuna e se dedica a promover festas lendárias no jardim de sua mansão, em Long Island. Por trás de toda a extravagância, ele alimenta a esperança de reencontrar Daisy Buchanan, um amor do passado. Como em uma alegoria do sonho americano, o romance é narrado por Nick Carraway, primo de Daisy e vizinho de Gatsby.

Há quem diga que Carraway, aliás, seja uma espécie de alter ego do autor, alguém um tanto deslocado, mas não completamente alheio ao universo de inconsequência e loucura daqueles jovens ricos. “Fitzgerald tinha uma dupla sensibilidade: foi atraído para os excessos da época, mas também sentia repulsa por eles. Como Nick Carraway, o escritor estava dentro e fora do círculo. Isso significa que ele poderia transmitir o fascínio do prazer e o apelo da riqueza sem um desdém puritano”, explica Kirk Curnutt, vice-presidente da F. Scott Fitzgerald Society, um grupo americano de estudos literários sobre o escritor.
 

Explosão de cores e sensações

A cada linha do livro, em descrições belas e minuciosas, os escritos de Fitzgerald – na voz de Nick Carraway – revelam esse dilema entre o encanto e o desprezo pela histeria da Nova York dos anos 1920. E o romance capta os excessos da Era do Jazz melhor do que qualquer outro de sua época. “Pela descrição da música ou das cores, a prosa projeta uma ostentação que realmente mostra o quanto as oportunidades de deleite eram esmagadoras naquele tempo”, diz Curnutt. Em suma: uma vida entregue à euforia, desprovida de sentido. A aparente felicidade proporcionada pelos anos loucos era o retrato da melancolia travestida de uma geração filha da guerra, perdida na alienação.

Icônico e imagético, não é de hoje que O Grande Gatsby atrai os olhares do mundo audiovisual. O remake dirigido por Luhrmann é a quarta adaptação do livro para o cinema, e existe ainda uma versão para TV. Conhecido pelo estilo glamouroso de seus filmes – quem não se lembra das cores vibrantes e da incrível trilha sonora de Moulin Rouge (2001)? -, o diretor dá um merecido novo fôlego à obra de Fitzgerald. Com Leonardo DiCaprio no papel de Gatsby, Carrey Mulligan como Daisy e Tobey Maguire na pele de Nick, o filme tem figurino assinado por Catherine Martin, roupas criadas por Miuccia Prada e joias produzidas pela Tiffany & Co.”Baz Luhrmann é um diretor que gosta de brilho. Ele pega um fiapo da história do livro e constrói o filme com um estilo próprio”, diz o crítico de cinema Thiago Stivaletti. Assim, na trilha sonora, sai o jazz, entra a pop music: Luhrmann aposta em Beyoncé, Jay-Z e Florence and the Machine. “O filme é mais uma coisa dele do que uma versão cinematográfica da obra. As pessoas devem escolher entre a paixão pelo livro e a paixão pelo Luhrmann”, adianta o crítico.

Ironicamente, a versão nada fiel do australiano parece captar mais do que qualquer outra o espírito de glamour e decadência que perpassa as páginas da história original. Tanto que Kirk Curnnut, declaradamente um literato e apaixonado pelo livro, classificou-a como um “espetáculo visual”. “O filme de 1974, com roteiro de Francis Ford Copolla, é chato e maçante, não tem nenhum turbilhão. Não acho que ninguém antes de Luhrmann tentou recriar visualmente a onda de sensações do livro.” Para o bem ou para o mal, Baz Luhrmann encontrou sua própria maneira de venerar o charme incontestável da literatura de Fitzgerald.
 

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