Precisamos falar sobre saúde mental (dentro e fora da moda)

Tops como Adwa Aboah e Cara Delevingne abrem o debate sobre a depressão e os transtornos psicológicos ao discutir saúde mental dentro e fora da moda.

Mulheres entre 19 e 25 anos. Modelos que desfilam nas principais semanas de moda do mundo. Estamos falando de Adwoa Aboah, Cara Delevingne, Gigi Hadid e Nina Marker. Estrelas de campanhas e matérias de beleza, elas também estão se colocando como porta-vozes de um assunto complexo: saúde mental. Na pauta, transtornos como ansiedade, depressão, compulsão alimentar e outras questões traumáticas.

Quem vê Adwoa estampando capas e nas passarelas de Chanel e Dior talvez não saiba que ela foi uma adolescente viciada em drogas como a ketamina, uma substância anestésica para tratamento animal. A britânica passou por diversas clínicas de reabilitação, nos EUA e em Londres. Mesmo fazendo parte de um ambiente privilegiado, filha de Camilla Lowther e Charles Aboah, importantes nomes da fotografia de moda internacional, seu percurso foi difícil. Ela entrou cedo para uma agência de modelos e teve que lidar, entre outras coisas, com recusas de trabalho e julgamentos cruéis sobre a sua aparência física. Tudo isso culminou em um dos momentos mais complicados de sua vida, quando, em 2014, tentou se matar.

adwoa-aboah-girls-talk Adwoa Aboah

Adwoa Aboah (Instagram (@gurlstalk)/Divulgação)

O background fez com que ela fundasse o Gurls Talk, uma rede que estimula garotas do mundo todo a falar sobre saúde mental, sobre feminismo, sobre aceitação e sobre dificuldades com o próprio corpo. Os debates rolam no site e em eventos físicos, como os em parceria com a marca Coach e a revista Dazed, trazendo nomes como a modelo trans Maxim Magnus. A próxima parada será no Brasil, em 2018, em data e local a definir. “Minha chama ficou acesa novamente”, diz ela sobre o processo de cura pessoal e a superação.

Um percurso igualmente complicado foi o de Cara Delevingne. A modelo estreia como escritora no livro Jogo de Espelhos, obra fictícia na qual desdobra uma narrativa sobre amizade, identidade e bullying. A publicação é o resultado de um posicionamento engajado de Cara sobre a própria saúde mental e sobre como lidou durante anos com a depressão.

“Gostava da pessoa que os outros pensavam que eu era, mas odiava o meu real eu”, contou em entrevista à revista Esquire. A depressão surgiu quando descobriu o vício em drogas de sua mãe. “Eu tinha plena noção dos meus privilégios, mas só queria morrer. Eu me sentia culpada por isso e me odiava. Virava um ciclo.” Cara precisou largar os estudos e diz que enfrentar a realidade foi a saída para estar viva hoje.

cara-delevingne Cara Delevingne divulgando seu primeiro livro.

Cara Delevingne divulgando seu primeiro livro. (Tristan Fewings/Getty Images)

“A saúde mental envolve sintomas que são sentidos por muita gente, como o estresse”, afirma Rodrigo Leite, coordenador do Instituto de Psiquiatria da USP. “O que define o transtorno é quando esses sintomas causam incapacidade e perturbação no cotidiano”, ele continua. “Não chamamos de doença porque esse termo estigmatiza ainda mais o assunto, que historicamente foi entendido como uma fronteira entre a normalidade e a loucura”, diz. “Os transtornos têm muitas causas e vão da genética ao ambiente do indivíduo.”

Ou seja, um assunto difícil. Como atravessar camadas espessas de uma realidade que a maioria prefere não encarar? A escolha dessas modelos pode parecer simples, mas é poderosa: conversando. É difícil encontrar vulnerabilidades nas imagens que vemos dessas garotas, mas suas palavras ajudam a desmitifcar qualquer ideia de perfeição. “Eu me sinto muitas vezes sufocada pelo mundo e a opinião de todos. Em alguns momentos, preciso sentar e pensar: ‘Você é uma boa pessoa. Você faz tudo com o coração. Você terá dias difíceis e julgamentos muitas vezes’.” A fala é de Gigi Hadid, num evento da Reebok no ano passado.

“Sejam gentis comigo, eu tenho autismo” foi a estampa de camiseta usada pela dinamarquesa Nina Marker num post do Instagram. Ela deu o recado durante a semana de moda de Milão, aproveitando a visibilidade e dizendo que, sim, “é possível ser bem-sucedida e ter bons momentos” tendo síndrome de Asperger, um dos transtornos do espectro do autismo (TEA). Ela foi diagnosticada aos 15 anos e tem trabalhado para esclarecer dúvidas e derrubar tabus sobre o tema.

Falar sobre a saúde mental é um movimento que envolve outros setores. A cantora Lady Gaga, ao lado de sua mãe, criou a Born Tis Way Foundation, que gera estudos como o que identificou que um em cada cinco jovens sofre com um tipo de transtorno, mas apenas um em cada 20 pais nota os problemas nos filhos.

Outros nomes que levantaram a bandeira foram Amandla Stenberg, Marina and The Diamonds, Kehlany e Demi Lovato, que há algum tempo fala sobre viver com borderline. O rapper britânico Stormzy também surpreendeu seu público quando disse: “Se há alguém por aí com depressão, espero que essa pessoa veja que eu só superei isso com a ajuda dos outros”.

POR QUE FALAR SOBRE?

Um em cada quatro adultos sofre com transtorno mental no Reino Unido e um em cada cinco nos EUA. O suicídio é a terceira maior causa de morte entre jovens, de acordo com a Academia Norte- -Americana de Pediatria, sendo que 90% dos casos se relacionam ao transtorno mental. Segundo um estudo do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Cambridge, quando jovens têm acesso a questões de saúde mental até os 14 anos, diminuem drasticamente as chances de sofrer de depressão após os 17.

Conversa, então, também é uma forma de tratamento? “Sem dúvida!”, responde Rodrigo. “Podemos dizer que, mais do que tratamento, a conversa é um fator de proteção. Quem tem suporte social está mais protegido”, analisa. “A boa prática de saúde não é só farmacológica. Você pode mudar o estilo de vida, como praticar exercícios físicos e parar de fumar e beber antes de tomar remédio. Nem sempre ele é necessário logo de cara. Não precisamos pular etapas se não houver necessidade real”, continua.

A internet pode ser uma ferramenta poderosa de apoio. As redes contribuem para agravar transtornos de muitas maneiras, mas, quando bem usadas, também podem virar o jogo. Pense no #HereForYou, do Instagram, a hashtag para a publicação de vídeos com pessoas se abrindo sobre suas complicações do passado. O Tumblr também lançou uma inciativa semelhante, o Post It Forward, juntando as dificuldades de todo mundo numa mesma página.

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There is no one beautiful body type. Skinny bodies are no more beautiful than fat bodies. Able bodies are no more beautiful than disabled bodies. What makes YOUR body beautiful is YOUR attitude towards it. Regardless of what people think or feel or say, ultimately what makes a body beautiful is the fact you love it. If you are conventionally skinny but the hard exercise makes you sad; quit the exercise. If you are happier fatter that is beautiful. If you are happier without the diet, but the physical strain of being less fit worries you, make a compromise. Happiness > fitting into society’s expectations of beauty. Whatever your size, as long as you embrace your own mental wellbeing, as long as YOU are happy with life and YOUR body after looking further than the expectations of society, you are beautiful and valid and worthy. 💛🌿✨💚🌼 ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ #bodypositivity#nobodyshame#selflove#bopowarrior#riotsnotdiets#bodypositive#bodyconfidence#bodyconfident#bopoart#art#bodyart#illustration#body4me#bodypositivepower#inspo#inspiration#mybadassbody

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Grupos menores também geram conteúdo, compartilhando informações e reunindo pessoas. O Black Boy Feelings é um zine produzido apenas por jovens artistas negros. “Queremos que outros meninos entendam que não estão sozinhos nessa”, diz o nova-iorquino Richard Bryan, 23 anos, sobre o projeto, construído com a amiga Jeana Lindo, 22. Siga ainda os perfis Hannah Daisy e Libby Shappy Project no Instagram. Eles funcionam como conselhos, abraços e apoios virtuais – ou apenas como um recado de que está tudo bem quando nem tudo está bem e que existe ajuda. Sentir-se dessa maneira não torna ninguém menor.

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