Sofia Coppola se firma como uma das cineastas mais talentosas da sua geração

Adolescentes atormentados, pessoas desacreditadas, falta de comunicação. Entre encontros e desencontros, Sofia Coppola se firma no mundo do cinema como uma diretoras mais talentosas e sensíveis

Sofia Coppola dirigiu Bling Ring: A Gangue de Hollywood, lançado recentemente 
Foto: Getty Images

Sofia Coppola, a filha caçula do cineasta Francis Ford Coppola, debutou ainda bebê nas telas – na cena do batismo de O Poderoso Chefão (1972). Desde então, cresceu no universo dos astros e das estrelas de Hollywood – ambiente que até hoje exerce influência sobre a sua carreira como diretora. “Na infância, eu já percebia que as pessoas agiam de modo diferente quando o meu pai estava por perto”, conta Sofia, 42 anos, conhecida pelo olhar humano e intimista que lança sobre seus personagens e por retratar mulheres (sobretudo jovens) lutando para descobrir o próprio caminho.

Ladrões de celebridades

No seu último trabalho, ela aponta a câmera para uma história verídica: um grupo de adolescentes que roubou, entre 2008 e 2009, várias mansões de celebridades em Los Angeles à caça de sapatos Louboutin, malas Louis Vuitton, itens de maquiagem Chanel e tantos outros artigos de luxo. A gangue cobiçava não apenas as peças de grife do guarda-roupa de Paris Hilton, Lindsay Lohan, Megan Fox, Orlando Bloom e Miranda Kerr mas também o estilo de vida glamouroso dos famosos. “Os ladrões foram instigados pelo mundo dos excessos, pelo fascínio dos reality shows e pelo culto às celebridades dos tabloides”, diz Sofia, que resgatou a série de roubos no filme Bling Ring: A Gangue de Hollywood.

O longa-metragem revisita o caso do ponto de vista dos jovens, que acumularam mais de 3 milhões de dólares em artigos roubados. “Quando ouvi a história pela primeira vez, no noticiário, não prestei muita atenção”, contou a diretora. “Só me dei conta de que isso daria um filme ao ler, numa viagem de avião, um artigo na revista Vanity Fair (escrito por Nancy Jo Sales e intitulado Os Suspeitos Usam Louboutins). A história me fascinou ainda mais quando conversei com a jornalista e ouvi as transcrições de suas entrevistas com os adolescentes. O fenômeno é muito contemporâneo e diz muito sobre a cultura americana.”

Status a qualquer custo
 
Apesar da gravidade dos crimes, que rendeu penas de prisão aos principais envolvidos, Sofia não faz julgamentos. Preferiu a “empatia” pelos ladrões, que medem seu próprio valor pela aparência e pelo status. “Acho melhor o público tirar suas conclusões. Nunca digo como ele deve se sentir. Só quis tentar entender como esses adolescentes foram afetados pela cultura da celebridade a ponto de fazer algo tão absurdo”, afirmou Sofia, que recorreu a um elenco quase todo formado por atores desconhecidos (Katie Chang, Taissa Farmiga, Israel Broussard e Claire Julien). Exceção feita à atriz Emma Watson, que interpreta a ladra Nick.

Os adolescentes sabiam tudo sobre as personalidades que roubavam. Acompanhavam seus passos em revistas, jornais e redes sociais e invadiam as casas quando os proprietários estavam viajando. “O que mais me impressionou foram suas declarações após terem sido presos. Não achavam que haviam feito mal algum. Pareciam ter cometido os crimes num estado de inconsciência ou como se fossem íntimos de suas vítimas. E, para piorar, o que mais os interessava era a fama que os assaltos tinham dado ao grupo”, afirma a diretora, que mudou deliberadamente o nome dos ladrões no filme “para não deixá-los ainda mais conhecidos”.

Um lugar qualquer

Sofia acredita ter vivido uma “infância e uma adolescência quase normais”, embora tenha nascido em uma das famílias mais poderosas do showbiz. Afinal, ela cresceu vendo o pai gritar “ação!” – fosse em Manila, nas Filipinas, locação de Apocalypse Now (1979), fosse no subúrbio de Tulsa, em Oklahoma, cenário de Vidas sem Rumo (1983). “O mundo do reality show e da cultura de tabloide, que abordo em Bling Ring, sempre foi estranho para mim”, conta, lembrando que ela e os irmãos, Roman e GianCarlo, frequentaram uma escola pequena em Napa Valley, na Califórnia, longe do burburinho do showbiz.

Ser a filha de Francis Ford Coppola obviamente teve um preço. Por vezes, alto – como em O Poderoso Chefão 3 (1990), quando a crítica destruiu a atuação de Sofia, que assumiu o papel de Mary Corleone às pressas, após a desistência de Winona Ryder. Talvez por isso a cineasta prefira morar longe de Hollywood. Casada com Thomas Mars, o vocalista da banda de rock francesa Phoenix, com quem tem duas meninas (Romy, 6 anos, e Cosima, 3), ela se divide com a família entre Paris e Nova York. “Há algo muito exótico em Los Angeles. Não é como nenhum outro lugar no mundo”, diz Sofia.

Embora tenha passado a casa dos 20 anos na cidade, ela nunca se sentiu uma local. “Até porque não me vejo como uma figura pública, como meu pai. Tenho uma personalidade muito diferente da dele. Não consigo monopolizar as atenções”, comenta Sofia, famosa pela timidez diante dos jornalistas. “Sou uma pessoa introvertida e vergonhosamente pouco articulada. Talvez por isso não me arrisque a dirigir uma superprodução. Não gosto de muita gente por perto.”

Sofia na moda

Apesar da timidez – ou até por causa dela -, Sofia Coppola virou musa cult no disputado mundinho fashion. Contribuiu muito para isso, claro, o fato de ela ter virado amiga íntima de Marc Jacobs: os dois vivem declarando uma amizade profunda um pelo outro. É tanto amor que a cineasta acabou se tornando a musa da coleção resort 2012 da Louis Vuitton, grife da qual ele é diretor criativo. Além de dar palpites nas estampas, ela desenhou para a marca a bolsa SC Bag e sugeriu a reedição do modelo Saumur. Mais do que homenagens do amigo, Sofia conta com a facilidade de ter sempre à disposição looks by Marc Jacobs para qualquer tapete vermelho que surja no caminho.

FILMOGRAFIA OBRIGATÓRIA

1. As Virgens Suicidas (1999)

Cinco irmãs vivem num subúrbio burguês dos Estados Unidos nos anos 1970 e chamam a atenção dos rapazes por sua beleza. Lux (Kirsten Dunst) é a mais atraente delas. Em casa, as garotas têm que suportar os pais, moralistas e repressores.

2. Encontros e Desencontros (2003)

Em Tóquio, um ator de meia-idade e melancólico (Bill Murray) encontra uma jovem solitária (Scarlett Johansson), casada com um fotógrafo que passa os dias trabalhando fora. Os dois decidem curtir a cidade e desenvolvem uma delicada relação de amizade e compreensão.

3. Maria Antonieta (2006)

Famosa como a rainha fútil e gastadeira, que só pensava em bailes e orgias em plena França pré-revolucionária, Maria Antonieta (Kirsten Dunst) brilha no filme como uma garota simpática e divertida. O figurino, maravilhoso, levou o Oscar da categoria.

4. Um Lugar Qualquer (2010)

Um astro bem-sucedido e entediado de Hollywood (Stephen Dorff) passa os dias dividido entre baladas, bebedeiras e sexo fácil. Num dado momento, sua ex-mulher sofre uma crise nervosa e ele é obrigado a cuidar da filha de 12 anos (Elle Fanning). O contato diário com a adolescente transforma a sua visão de mundo e do sentido da vida.

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