A história por trás das peças clássicas dos anos 1970

Os anos 1970 foram marcados por uma mescla de diferentes estilos, criando um visual único para a década, que até hoje influencia nossos closets. Para entender melhor as refêrencias de estilo desse tempo, conversamos com a consultora de moda e professora da Faculdade Santa Marcelina, Mariana Rocha, que contou o que havia por trás das peças setentinhas mais icônicas de nossos guarda-roupas, que marcam presença até hoje em nossos looks. 

“Naquela época a moda podia ser exótica, trazendo elementos de países distantes, como o Marrocos, a Turquia ou o Irã, ou transgressora, misturando peças esquecidas de tempos passados (como os uniformes militares do século 19, popularizados na capa do LP dos Beatles Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band) com peças novas do recém inventado prêt-à-porter, de estampas psicodélicas modernas. Lojas como Granny Takes a Trip e Barbara Hulanicki foram fundamentais para a criação e popularização desses estilos. Os looks andróginos também faziam parte da moda jovem, assim como o unissex”, ela explica. 

Óculos redondos

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“Os primeiros registros de óculos aparecem em escritos de Confúcio e serviam apenas como adorno, por volta do ano 500 a. C. Alguns historiadores contam que Nero teria ‘inventado’ os primeiros óculos de sol quando usou um pedaço de vidro verde para proteger os olhos num dia de sol forte, para acompanhar uma apresentação. Os primeiros óculos que foram criados tinham o formato redondo. Depois do gatinho, do aviador, do Wayfarer, os jovens dos anos 1970 curtiram o estilo ‘antiguinho’ dos óculos redondos de tempos passados, encontrados nos brechós ou em lojas hypadas como as citadas acima, podendo ser usados por homens ou mulheres. Quem popularizou mesmo os óculos redondinhos foi John Lennon, mas a primeira rockstar a usá-lo seria Janis Joplin, que gostava de um tipo maior e colorido”.

Calça boca de sino

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“Surgem nas passarelas femininas nos anos 1960, chamadas de pantalonas, de corte reto até embaixo e com bocas que iam de 18 até 63 centímetros. Acabaram por se tornar símbolos da contracultura, sendo usadas por homens ou mulheres. A mais clássica dos anos 1970 é mais estreita e abre a partir do joelho. A calça jeans com nesgas coloridas, de retalhos variados, vira peça básica do guarda-roupa hippie. A dupla Sonny e Cher e os músicos do Led Zeppelin são exemplos de fãs, mas todos os jovens usavam, era muito comum. As barras normalmente cobriam os sapatos, então era comum que pessoas de mais baixa estatura gostassem de usá-las com saltos para parecerem mais altas, inclusive os homens, James Brown entre eles”.

Chapéu de aba larga

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“O chapéu de aba larga também é chamado de floppy, que significa mole, em inglês, ou mou, em francês. Há controvérsias sobre as origens, mas o livro Le chapeau et la mode de Collin McDowell conta que as hippies londrinas também se inspiraram no passado, na moda vitoriana e trouxeram de volta o chapéu estilo Dolly Varden, mas, com as abas livres de estrutura, caindo no rosto. Foi moda nas praias de Saint Tropez na França e se espalhou quando Brigitte Bardot o popularizou. Depois, foi usado por Jodie Foster no filme Taxi Driver de Scorsese. Virou mania nos festivais de música ao ar livre. Há modelos com a aba um pouco mais curta e firme, mas o mais comum é o de aba grande e molinha. Era comum ser feito de feltro, palha e camurça, mais adequado as estações mais frias”.

Coletes

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“A moda dos anos 1970 era descrita como uma moda sem regras, pois podia misturar lingerie e tricot, peças vitorianas e militares com plumas e estampas lisérgicas, Art NouveauArt Decô e peças do período vitoriano, tudo num só look. A rebeldia e a contra-cultura foram motores dessa postura sem regras. Dentro desse espírito, admirar culturas de países distantes traz um revival dos tempos das primeiras explorações de países longínquos, assim como a exploração de uma estética exótica.

O comunismo também despertava interesse e Cabul, a capital do Afeganistão, foi símbolo de glamour, durante o período comunista, até os anos 1980, pois as mulheres podiam ser livres pela primeira vez sem a opressão da religião. Desfiles de moda, mesclando tradição às tendências europeias eram frequentes, assim como uma vida cultural florescente. Os coletes em geral eram uma peça bastante presente nos anos 1970, por ser uma peça notadamente masculina, era provocativo as mulheres usarem. Era comum o uso de coletes risca de giz ou, no final da década, no estilo oversized, bem masculino Annie Hall, do filme de Woody Allen.

 Os casacos e coletes de pele de cabra e acabamento em pele, bordados com seda, tornaram-se um must have da moda afegã, gerando grande demanda de exportação mundial e aparecendo em diversos editoriais de moda, nos anos 1970. Num dado momento, a demanda por esse material era tanta, que os produtores não conseguiam finalizar a contento todas as etapas de fabricação. Assim, entregavam os produtos com um cheiro muito forte, criando uma fama de malcheirosos. Além de virem do Afeganistão, os casacos e coletes também eram produzidos no Irã e na Turquia. Sofreram também releituras pelos europeus e norte-americanos.”

Flower Power

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“Outra característica do final dos 1960 até meados dos 1970 foi o flower power, o poder da flor, termo usado pela primeira vez pelo poeta Allen Ginsburg, em 1965. Junto com o peace and love (paz e amor), foi um slogan usado pelos hippies como um statement da ideologia da não-violência e de repúdio à Guerra do Vietnã. O flower power teve seu auge em 1967, quando uma horda de jovens se encontraram na Califórnia, no chamado Verão do Amor. A filosofia tinha na música, sua maior expressão. A música California Dreamin conta um pouco dessa utopia, assim como San Francisco.

A ideologia hippie incluía uma vida mais autêntica, ligada à natureza e aos valores de simplicidade e inocência. Negavam a ostentação, o luxo, o capitalismo e a vida consumista e burguesa. Os jovens abandonavam seus lares para viverem essa utopia em comunidades no campo, longe da cidade, onde podiam experimentar o amor livre, a auto-suficiência, a expansão da mente através de drogas lisérgicas, e uma maneira diferente de compartilhar a experiência humana.

A estética hippie vestia homens e mulheres com roupas leves e coloridas. O tecido de algodão substituía os sintéticos e as estampas florais traziam o clima natural, romântico e inocente do campo, era como que um símbolo do movimento. A estampa floral é uma estampa tradicional, bem antiga, mas na leitura dos hippies, trouxe mais do que uma decoração para as peças: trouxe um significado.”

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