“A vida não deveria ser um concurso de beleza”, diz Lagerfeld

O designer falou à ELLE sobre seu processos na alta-costura e sobre seu mundinho criativo muito particular.

Apresentada na Fontana di Trevi, em Roma, em julho, a coleção de alta- -costura da Fendi comemorou o aniversário de 90 anos da marca em um desfile memorável. Com peças inspiradas nas ilustrações do artista dinamarquês Kay Nielsen (1886-1957) para o livro East of the Sun and West of the Moon (1914), uma coletânea de contos de fadas escandinavos, Karl Lagerfeld construiu uma impressionante série de looks que remetem a princesas dos dias de hoje, como as irmãs Bella e Gigi Hadid, que desfilaram para a grife. Em alguns casos, o designer usou imagens inteiras de Nielsen para decorar looks extremamente sofsticados, dignos de uma história mágica. (O ilustrador também é conhecido por seus desenhos para edições especiais de As Mil e Uma Noites e de contos dos irmãos Grimm.) Há 51 anos na Fendi, Karl levou seu trabalho com alta peleteria a um novo nível, com técnicas cada vez mais apuradas e um riquíssimo mix de materiais. A escolha do cenário do desfile consolidou a ligação da marca com a histórica fonte romana, que foi restaurada pela grife, em um processo que levou cerca de um ano e meio e custou quase 2 milhões de euros.

Enquanto muitos designers se queixam do ritmo acelerado da indústria da moda, o poderoso e criativo Karl cada vez mais extrapola seu papel de estilista para se tornar um ícone pop e uma espécie de fenômeno superprodutivo, acumulando funções essenciais em duas grandes maisons (Fendi e Chanel), além de sua própria bem-sucedida label.

Por que se inspirar em contos de fadas?

Em geral, trabalho com inspirações mais atuais, mas dessa vez olhei para essas ilustrações fantásticas de coisas que lia quando era criança. São muito poéticas e, apesar de antigas, há nelas algo forte e moderno. Para interpretá-las, usamos técnicas especiais. Temos, por exemplo, pele misturada com plumas e outros materiais pouco comuns. Cada look merece uma atenção especial porque as peças têm uma grande riqueza de detalhes.

Qual foi o papel de Roma na concepção dessa coleção?

A cidade me influenciou direta e indiretamente, além de ter sido o cenário do desfile. Para mim, a inspiração não é uma via única. É algo que segue muitos caminhos, é um caldeirão. E foi isto que a coleção se tornou: um mix de diferentes inspirações, igualmente belas.

O que é criatividade para você?

A maioria das coisas que faço surge quando estou dormindo. As melhores ideias são as que vêm mais rápido. Têm de ser como um flash. Na verdade, soa muito pretensioso quando digo que sou assim tão criativo. Ser criativo significa ter ideias e trabalhá-las ao lado das pessoas certas, que sabem compreendê-las e têm a capacidade de realizá-las. A criatividade sem uma visão de conjunto, sem indivíduos com talento real para construir alguma coisa, não vale absolutamente nada. É inútil. Criar é o mix da possibilidade de uma ideia e de fazê-la acontecer de forma moderna, bonita e certa.

Quais projetos estão ocupando você, fora os das passarelas?

Desenhei figurinos para a ópera Carmen e para o baile Cinderella, no Palazzo Corsini, durante a Bienal de Florença, por exemplo. Mas também já fz tantas outras coisas. Até capas de caderno. Tenho centenas de rascunhos e croquis porque desenho e tenho ideias muito mais rápido do que consigo falar e não tenho medo da página em branco, de começar do zero.

Como você começou a fotografar?

Foi nos anos 1980, quando tive que fazer um press kit para a Chanel e estava insatisfeito com os fotógrafos oferecidos. Aluguei uma câmera, chamei um assistente e comecei a fazer sozinho. Em pouco tempo, fotografava absolutamente tudo.

Qual é o segredo do seu sucesso como fotógrafo?

Bons profissionais. Boas pessoas para fotografar, bons assistentes. Tenho trabalhado com as mesmas pessoas há 25 anos. Um bom tratador de imagens, maquiadores talentosos, um bom stylist. Na verdade, meu trabalho é simples. Eu só aperto o botão.

Como é um dia normal na sua vida?

Depende muito. Em geral, gosto de ficar em casa de manhã para desenhar, fazer croquis e rascunhos. Durante a tarde, vou a meus compromissos. Às vezes, isso dura até tarde da noite porque o dia é muito curto para tudo o que preciso fazer.

Qual é a coisa mais importante da vida?

Saber que a inteligência dura e que a beleza da juventude é passageira. A vida não é um concurso de beleza.

Você “karlizou” o mundo, se transformando em um ícone pop, que todos conhecem. Como fez isso acontecer?

É um mistério. Talvez o segredo seja oferecer criações com a cabeça nas nuvens, mas manter os pés no chão.

O que a Fendi significa para você?

A marca é a minha versão italiana da criatividade. É uma grife profundamente italiana e, mais do que isso, romana. O que acontece é que aqui eu me desconecto de Paris ou de qualquer outro lugar e me esqueço de tudo. Não tenho uma personalidade única. Tenho três. E a Fendi é a minha personalidade italiana. Chanel é a minha versão francesa. E a Lagerfeld sou eu mesmo, aquilo que sempre quis fazer. E eu nunca misturo os três porque cada um deles tem uma identidade própria.

Como foi seu primeiro dia na Fendi?

Foi em 1965. As próprias irmãs (as cinco irmãs filhas de Adele Casagrande, fundadora da marca, que comandavam a label na época) me convidaram por sugestão de um amigo em comum. Preferi encontrá-las pessoalmente, em vez de enviar meus croquis. Não era como hoje, que posso mandar tudo pelo iPhone. Não existia fax e tínhamos que esperar pelo menos três semanas para receber uma encomenda pelo correio. No primeiro dia de trabalho, usei um chapéu Cerruti, cabelos longos e óculos escuros. Estava com uma gravata estampada e uma jaqueta inglesa, daqueles modelos de caça. Costumava usá-la com culotes e botas no estilo francês e tinha também uma bolsa, que havia comprado em Milão.

Desde quando você trabalha com Silvia Fendi (herdeira da grife e diretora criativa de acessórios)?

Ela esteve presente desde a primeira coleção. Silvia era uma criança e foi uma das modelos da coleção unissex que fizemos em 1967. Havia uma mulher, um homem e uma criança vestindo as mesmas peles, e Silvia era uma das modelos. Não consigo me lembrar da Fendi sem a Silvia.

Para terminar, tem algo que você ainda queira atingir na vida?

Sempre há uma próxima coleção, uma que eu ainda não fiz…

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