“Acredito que a moda seja um campo de luta”, diz Glamour Garcia

Conversamos com Glamour Garcia, uma das modelos do desfile 100 % trans de Ronaldo Fraga e você confere junto a um ensaio exclusivo à ELLE.

O estilista Ronaldo Fraga guardou a sete chaves o tema de sua coleção durante essa temporada, mas deixou bem claro o assunto que queria tratar em um discurso que fez antes do desfile acontecer, no Theatro São Pedro, no bairro da Santa Cecília, em São Paulo.

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Ele lembrou os dados da organização Transgender Europe alertando sobre o fato do Brasil estar no topo da lista de países quando o assunto é a morte de transexuais e travestis, citou as restrições de direitos a essa população em itens básicos, como o acesso a um banheiro público e ao registro de um nome próprio, por exemplo, e terminou dizendo que dessa vez o foco não estaria nas roupas apresentadas – um mesmo modelo de vestido reto com pequenas variações no corte – mas, sim, nas pessoas que estariam dentro delas.

Foi com esse conceito de fundo que, pela primeira, a semana de moda paulistana viu um casting construído apenas com mulheres transexuais. Entre elas, Glamour Garcia que, assim como todas as outras, ficou sabendo de detalhes do show apenas dois dias antes. “Eu já conhecia algumas meninas e descobri outras aqui no ensaio. Foi uma delícia e uma troca incrível porque o Ronaldo é uma pessoa muito delicada e gentil”, contou durante uma conversa sobre gênero e moda, que você confere junto a um ensaio exclusivo para ELLE.

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Para você, qual é a importância de um evento como esse durante o SPFWTRANSn42?

Tem uma importância muito sentimental. Principalmente nesse SPFW que fala de mudanças, de reciclagem de conceitos. A semana de moda precisa passar por novas fronteiras. O mercado de moda precisa se encontrar em um espaço que não seja apenas o do consumo. A ideologia, a luta e a militância são ótimos caminhos para a moda no Brasil. Como o próprio Ronaldo diz: “Otimista só de raiva”. E não é só sobre resistir. Como ele fala, é sobre reexistir. A cada resistência a gente vai aprendendo um pouco mais.

E como começou a sua relação com a moda?

Faz tempo. Já desfilei algumas vezes, já produzi conteúdo e trabalhei com consultorias. Eu tenho uma relação com a moda que veio da vida, mesmo. Eu sempre tive muitos amigos estilistas, modelos, artistas, que me convidam para produzir fotos e participar na passarela. Eu gosto muito porque acredito que a moda seja um campo de luta, um campo onde a gente pode se expressar. E, quando nos expressamos, a gente mostra a nossa essência, o que a gente tem de mais puro.

Glamour Garcia

Como você define a sua própria estética, o seu estilo?

O estilo Glamour Garcia! (risos) Uma Hello Kitty vestida de perua. Eu gosto muito de azul, dourado e rosa, que são as cores que eu mais uso. Gosto de salto, amo roupas curtas, coladas, apertadas, mas não tenho problema em experimentar outros comprimentos. Adoro vestidos, acessórios e coisas com estampas de bichinhos e flores. Resumo meu estilo em uma coisa muito pop com referências que são mais clássicas, mais antigas. Tem o sexy também. Mas eu tenho essa energia e posso estar de saco de lixo que o negócio vem.

Sobre ser uma mulher transexual, você pode nos falar um pouco do processo para você?

Mais do que falar só do meu caso, acho importante abordar o de todas. É preciso entender que existem muitas pessoas que são vítimas de um processo de destituição de direitos, de destituição da própria vida. Se a gente não procurar saber sobre a transexualidade, se a gente não se aliar à questão trans e não torná-la algo parte da nossa sociedade, continuaremos coniventes com todas essas mortes. Sobre o meu processo, especificamente, foi muito difícil, mas eu aprendi sendo muito perseverante. Vi que cada dia é um dia e hoje eu tenho a segurança não só sobre mim mesma, mas de que luto também por muitas outras. Inclusive, hoje, estamos todas juntas.

Glamour Garcia

E por que Glamour?

Glamour era um apelido carinhoso, um jeito que me chamavam há quinze anos. Na época do fotolog, eu queria um nome artístico. Hoje, ele continua como o meu nome próprio e para sempre continuará.

A nossa capa de novembro é com a Valentina Sampaio, modelo transexual que também desfilou para o Ronaldo Fraga. O que você achou disso?

Eu achei incrível e considero importantíssimo. Espero que essa barreira seja superada pela moda, a visibilidade. Eu penso que se não for pela moda, onde é que será? Se a gente não pode contar nem com a moda como uma forma possível de reconstrução social, a gente já pode esquecer.

Além de modelo você também é atriz, pode nos contar um pouco mais sobre os seus projetos de agora e do futuro?

Até o começo do ano que vem estou focada no Meio Fio, que é um projeto da Melissa, onde eu trabalho como uma espécie de artista-criadora. Agora, nós estamos em uma etapa onde eu acompanho o trabalho do Zé Vicente, que é um artista plástico, fotógrafo e designer. Ele é meu orientando e estamos desenvolvendo um trabalho incrível juntos. Além disso, estou na série documental “Liberdade de Gênero” do João Jardim, que vai ao ar na GNT, no dia 23 de novembro, e participo de um longa chamado “As Mortes de Horácio”, do Zé Celso.

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