Perguntamos no SPFW: para que serve um desfile hoje?

Perguntamos para estilistas no SPFW N45 sobre as propostas e funções das apresentações na contemporaneidade.

O papel primordial de um desfile é, em teoria, apresentar roupas da melhor forma possível para vendê-las. Mas graças ao desejo artístico de muitos estilistas e diretores criativos, a apresentação de uma coleção pode ir muito além do intuito comercial. Mesmo que o statement também seja posteriormente transformado em desejo — como acontece com o feminismo na Dior —, é inegável que entre roupas bem costuradas, uma trilha sonora bacana e muito conceito, é possível encontrar verdade nas apresentações. Mas será que tudo isso ainda vale hoje, num momento de crises financeiras, criativas e artísticas mundiais? Percorremos o backstage do SPFW N45 perguntando: para que serve um desfile hoje? Confira a resposta dos estilistas:

Lenny Niemeyer

Eu sempre gosto de contar uma história, e o momento que eu consigo contar a história é no desfile. É sempre desafiador para mim traduzir toda uma inspiração em oito minutos, eu gosto muito. E isso acaba tendo uma repercussão boa em todos os setores e para a internacionalização do produto também importante, porque o mundo vê muito o seu DNA nesses oito minutos. Sem dúvidas, a internacionalização da Lenny tem a ver com os desfiles. Tem uma importância muito grande.

Lívia Cunha Campos, da Beira

O desfile é uma exposição muito grande, você tem uma gama de espectadores muito maior do que você tem sozinho no Instagram, com 4 mil seguidores, por exemplo. É um privilégio estar aqui e acho que o SPFW está se arriscando ao colocar marcas mais novas. Eu sou conhecida por um nicho, não tem muita gente que me conhece, e o foco é exportação porque a gente tem muito concorrente de marca no Brasil, e ainda não temos tanta visibilidade. É uma honra estar aqui.

Renata Alhadeff e Fernanda Niemeyer, da A. Niemeyer

A gente acredita que no desfile conseguimos passar exatamente o que é o nosso universo, o conceito da A. Niemeyer. Não só no desfile, mas ele é uma ferramenta importante. E a gente consegue unir tudo o que acreditamos em 10 minutos, que eu acho que acaba ficando uma imagem forte que ajuda muito essa comunicação com os clientes finais.

Rafael Varandas, da Cotton Project

O mais importante é o storytelling, ter a oportunidade de contar uma historinha. Você pode contar isso através de um vídeo? Pode. Mas são poucas oportunidade de ver 30 looks em uma passarela, com uma trilha específica, cenografia (que no nosso caso, é feita por amigos), tudo do zero. E querendo ou não o SPFW é ainda o epicentro no qual está toda a imprensa localizada. Já se eu postar um vídeo hoje em dia, talvez alguém não vá ver, talvez eu tenha que pagar, talvez eu tenha uma concorrência enorme. Então existe essa centralização da atenção. Principalmente, para nós, é storytelling. Até porque se falarmos que vai chamar um convidado x ou y não funciona pra gente. Isso influencia tanto no final quanto no nosso processo criativo. Antes não fazíamos desfile, não precisávamos contar essa história, as peças eram mais subjetivas. Hoje acabamos arredondando esse processo criativo.

Lino Villaventura

O papel de um desfile é um show. É a maneira que você tem de apresentar um trabalho todo junto. Antes não existiam esses desfiles periódicos, e eu peguei essa época. Mas hoje em dia você se preocupa mais com uma coisa rápida, que tem todo um conceito. Acho bacana a presença da trilha sonora, que é muito importante e é até uma pontuação do trabalho, dá a emoção que ele precisa. Tem toda a história de caracterizar, de você montar um look que quando vai para a arara da loja, ele fica mais normal e você enxerga ele com mais facilidade. Na passarela, no meu caso, eu gosto de fazer com que ele fique muito mais impactante do que ele realmente é. Para assistir desfile de coisas corriqueiras, é melhor ir para rua. Se você senta num barzinho e vê as pessoas passarem, vai ver coisas muito mais interessantes e originais do que colocar um desfile mais comum. Não fica tão bacana quanto ter a verdadeira história de ver na rua, de ver as pessoas passando. O desfile tem que ser impactante, você tem que sair na dúvida. Tem que provocar. Meu sentido na vida com o trabalho de moda é fazer uma moda que provoque e inove as ideias e os pensamentos.

Carô Gold e Pitty Taliani, da Amapô

Então, para gente é tudo sobre diversão. Isso aqui não é um desfile, é uma performance. A gente até conversou que poderia deixar de desfilar por um tempo, se não sentir que precisa fazer. É a realização de uma coisa que está dentro da gente há muito tempo e graças a Deus,  e a todas essas energias e pessoas, a gente está conseguindo fazer. O desfile em si, fazer desfile para vender, a gente não pensa nessas coisas, não é sobre isso. A Amapô nunca foi sobre isso. É sobre nós duas, o que a gente quer. Esse desfile não é meu e da Carô, é dela, dela, dela, é dele, de todo mundo. Então é sobre ser fun, se divertir na vida, fazer o movimento acontecer e passar emoção para as pessoas. A gente gosta que as pessoas venham no desfile da Amapô e fiquem com essa emoção pelo menos uma semana, é uma experiência. A gente também se pergunta muito isso, se vale a pena. Isso acontece sempre, mas dessa vez é mais. A gente também tem coisas para quebrar dentro de nós, e dessa vez quebramos todos os fantasmas dentro de nós, sem preguiça, fazendo até o final do nosso jeito. A gente vê o desfile, é uma explosão de criatividade ver que ele aconteceu e isso dá alimento. É a realização de uma coisa que está dentro da gente há muito tempo. Não pensamos em vender com o desfile, nunca foi sobre isso. É sobre se divertir, fazer o movimento acontecer e passar emoção para as pessoas.

Renato Ratier, da Ratier

O desfile movimenta a indústria e é uma colaboração. Precisamos nos engajar dentro dos espaços que existem e incentivar estes espaços para eles não minguarem.

André Namitala, da Handred

Eu acho que para o estilista, esse momento de ver todo o conceito, com os modelos todos enfileirados, com aquela roupa, é inegável. Acho que o desfile é muito associado a esse período de hoje, algumas pessoas acham que as mídias sociais meio que mataram isso, mataram aquela coisa do que é guardado e segredo, mas eu acho que é algo que se alia muito rápido porque o mundo está sendo alimentado de imagens instantâneas, e o desfile é um ponto instantâneo numa coleção, é um ponto final, um clímax. E é muito importante para gente ver, é uma mídia muito legal pra nós. É um conceito físico que a gente vê, construído naquilo tudo. A gente vê essa roupa em corpos diferentes, em raças diferentes. É só uma maneira de mostrar pra todo mundo ideias nossas de como combinar coisas. Algumas pessoas acham que as mídias sociais mataram o desfile, mas eu acredito que as duas coisas andam lado a lado. O desfile é o ponto final, um clímax. É uma experiência física, a roupa em corpos diferentes.

Ronaldo Fraga

Sabe a importância do palco para o teatro? Você pode fazer o teatro na rua, mas o palco nunca vai perder a sua mágica. Da mesma forma que a passarela nunca vai perder a sua mágica.

 

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