Pierre Berge com exclusividade para a ELLE Brasil

Pierre Bergé recebeu ELLE com exclusividade em seu apartamento em Paris.

O ano de 2017 anda movimentado para Pierre Bergé. Aos 86 anos, o cofundador da maison Yves Saint Laurent e nome por trás da Fundação Pierre Bergé-Yves Saint Laurent está prestes a entregar ao público dois grandes projetos. Em 3 e 19 de outubro, Paris e Marrakesh ganharão respectivamente museus dedicados à obra de 40 anos do costureiro francês, com quem Bergé viveu uma história de amor que durou meio século. “As duas cidades foram extremamente importantes para a trajetória de Yves. Paris porque foi onde tudo começou e onde ele venceu em sua carreira. E Marrakesh porque era um lugar que ele tanto amava e onde passou grande parte de seus dias”, diz ele, na sede da fundação, em Paris – local que foi também o ateliê de costura do estilista. No segundo andar do famoso prédio no número 5 da Avenue Marceau, entre fotos suas com Yves, retratos desenhados ou fotografados por Andy Warhol e objetos que fizeram parte da história desse casal extraordinário, Bergé recebeu a ELLE com exclusividade para esta entrevista e sessão de fotos.

Leia mais: A obra de Yves Saint Laurent vai ganhar dois novos museus

O homem que entrou para a história como uma das figuras mais importantes da moda francesa está enfraquecido pelo tempo, mas não perde sua característica altivez e elegância, a exatidão nas respostas e o brilho no olhar quando fala de seus projetos. Os novos museus vão revelar ao público um acervo com cerca de 5 mil peças de alta-costura, 15 mil acessórios e uma infinidade de croquis, fotografias e matérias publicadas na imprensa. O de Paris será ali mesmo, onde hoje é a sede da fundação, um prédio comprado pela dupla em 1974 e que Yves ocupou até dizer adeus às criações, em 2002. O espaço, que desde 2004 abriga exposições itinerantes de diversos artistas, deve voltar a ter cara de um ateliê em atividade. No projeto dirigido pela cenógrafa Nathalie Criniére e o decorador Jacques Grange, a ideia é duplicar a área hoje dedicada às exposições.

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(Fe Pinheiro/ELLE)

o museu de Marrakesh fica na rua Yves Saint Laurent, próximo do famoso Jardim Majorelle, lugar que estava em ruínas e foi adquirido e restaurado pelo casal em 1980 e hoje recebe anualmente 700 mil visitas. O projeto tem 4 000 m2 e está a cargo do escritório francês de arquitetura KO2. Ele terá cenografia original de Christophe Martin com salas de exposições temporárias, além de auditório, biblioteca e um café-restaurante.

As novidades na vida de Bergé, porém, não se resumem aos museus: ele acaba de se casar com seu atual companheiro, o americano Madison Cox, a quem vai passar até 2018 o controle dos museus e da Fundação Pierre Bergé-Yves Saint Laurent. “Eu conheço Madison há mais de 40 anos. Ele é o vice-presidente da fundação e meu sucessor.” O casamento aconteceu no dia 31 de março, em Paris, e, segundo Bergé, “já era hora” de ele legalizar a sua situação com Cox, conhecido também por ser o paisagista das celebridades.

Do antigo companheiro, morto em 2008, sua lembrança mais especial data do início da parceria profissional dos dois. “Lembro da alegria de Yves quando abrimos a primeira loja, em 1961, na Rua Spontini. Lutamos muito por isso e ele estava realizado”, conta.

NOS BASTIDORES

Em alguns momentos de nossa conversa, entre uma pergunta e outra, Bergé fechava os olhos, como que para repousar. “O monsieur não passou bem a noite”, avisa um dos assessores, antes de deixar a sala. Mas o homem de olhar forte estava bem presente ali. “Eu entendi. Estou pensando”, responde educadamente quando eu repito a pergunta sobre o que ele acha da moda de hoje. “Não acho nada”, dispara rapidamente.

Apesar de usar essa mesma palavra (“nada”) para definir o legado que deixou à moda, Bergé fez muito. Além de ter sido o mentor de todo o sucesso que fez de Saint Laurent um mito, o homem nascido em Saint-Pierre-d’Oléron, interior da França, foi eleito em 1973 presidente da Câmara Sindical da Moda Francesa, e, sob a sua administração, as semanas de moda de Paris passaram a acontecer do jeito que são feitas hoje. Graças à sua visão, tudo foi organizado de uma maneira diferente do que vinha acontecendo. Os estilistas passaram a apresentar suas coleções em um período determinado pela Câmara e não desordenadamente, como era antes.

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Bergé e Yves em Marrakesh (1976). (Fundação Pierre Berge - Yves Saint Laurent/Reprodução)

Para além da moda, ele fundou revistas como a publicação gay Têtu, é um dos principais acionistas do jornal Le Monde e foi presidente da ação Ensemble contre le Sida, de combate ao HIV, causa à qual doou cerca de 2 milhões de euros destinados a pesquisas – em 2016, sua fortuna foi estimada em 180 milhões. É autor e coautor de oito livros, dentre eles o emocionante Cartas a Yves, lançado em março de 2010 pela editora Gallimard. Com espírito empreendedor e generoso, ele também dedicou parte de sua vida ao mecenato. Ao lado de Yves, acumulou uma fortuna em obras de arte, todas leiloadas em 2009, no Grand Palais. Foram cerca de 8,9 milhões de euros arrecadados com a venda das 730 obras valiosas do casal.

Hoje, ainda presta atenção e emite opiniões em questões ligadas às causas gays, das quais ele foi toda vida militante. Bergé diz denunciar através de seu Twitter os crimes de homofobia que atualmente chocam o mundo, na Chechênia, mas não acredita numa ação por parte da sociedade. “Não é que a sociedade não possa fazer nada contra. Ela não quer fazer, não é do seu interesse.” Sobre qual foi a grande contribuição de Saint Laurent ao mundo, ele não hesita: “As calças compridas”, referindo-se à fase da segunda metade da década de 1960, quando lançou o smoking feminino e as mulheres começaram a frequentar festas de calças, em vez de saias.

Aos jovens que estão começando na moda, dá um conselho: “Diria para eles acreditarem, continuarem e não acharem que estão fazendo algo muito complicado. Eles estão trabalhando em um ofício de beleza, não há nada de ruim nisso, nem de pesado. É tudo muito bonito. Existem coisas bem mais complicadas que essa realidade. Sejam confiantes”. Ele agradece a conversa, me olha novamente nos olhos, aperta a minha mão. Depois, delicadamente, pega o telefone, chama o assistente que aguarda do lado de fora e pede que me mostre o caminho de saída do prédio – onde sua própria história também será, em breve, imortalizada.

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