Decotes e curvas também podem ser imagens de poder

Conheça as ideias de feministas negras que estão derrubando padrões estéticos e de comportamento dentro e fora do movimento.

O feminismo não é um bloco inteiro, homogêneo e unânime em suas ideias. Entre os muitos questionamentos internos ao movimento, as questões estéticas e de estilo têm um papel que vai muito além da vaidade. Devemos ou não exaltar a nossa sensualidade, exibir nossos corpos e mesmo usar cores que viraram clichê de delicadeza?

Quando falamos de feminismo negro, essas questões tomam outras proporções, que envolvem elementos como a hipersexualização estereotipada da mulher negra. “Somos vistas por estereótipos que são difundidos para nos manter em lugares subalternos. Além disso, também tiram a humanidade dessas mulheres, pois as renega a uma condição de objeto”, analisa Djamila Ribeiro, intelectual feminista e colunista da ELLE. “O problema não é a sensualidade, mas achar que a mulher negra só pode ser isso.”

Leia mais: Djamila Ribeiro: “A mãe que me permito ser”

Então, como as feministas negras estão lidando com essa discussão atualmente? Como analisar o discurso de Beyoncé, a estética afrontosa de Rihanna, as referências de obras pop, como o blockbuster Pantera Negra?

rihanna-mattemoiselle

 (Fenty Beauty/Divulgação)

Para a especialista em estudos de gênero, mulheres e feminismo Carla Akotirene, a reflexão começa com a ancestralidade. Da tradição religiosa africana, ela resgata o poder feminino das yabás – termo dado a todos os orixás femininos, como Iemanjá e Oxum.

A reconstrução do feminino por meio dos orixás não é uma ideia nova e vem sendo desenvolvida por mulheres como Jurema Werneck, diretora executiva da Anistia Internacional, a filósofa e militante antirracismo Sueli Carneiro e pela intelectual Lélia Gonzalez. “Com base no olhar da feminista Oyèrónké, uma nigeriana que escreveu um livro sobre Oxum, percebemos que o arquétipo das nossas ancestrais foi divulgado com as considerações de Pierre Verger, um antropólogo que fez a etnografia da África baseado no olhar masculino. Em seu trabalho, ele acabou subtraindo detalhes importantes em termos de gênero”, explica Akotirene.

Ser uma dona de casa, por exemplo, não tira de nós a autoridade de participar dos espaços públicos e políticos. Esse pensamento bate de frente com certas categorias analíticas do feminismo branco ocidental e sustenta que não existe divisão nas nossas experiências ancestrais”, afirma Akotirene, que também rejeita a ideia que liga o gênero feminino a estereótipos de fragilidade.

Carla e tantas outras feministas negras estão bem distantes do estereótipo da feminista ocidental. Usam fartos decotes, muitas cores, acessórios vistosos, tudo o que se afasta do estereótipo feminista de berço ocidental (criado em parte por homens que se opunham a essa luta). É com o feminismo negro, inclusive, que muitas feministas brancas estão aprendendo a se libertar das amarras de seu próprio discurso, que não só as oprimem como também segregam as companheiras de luta negras. Diante das evidências, muitas estão finalmente abraçando os fundamentos do feminismo com abordagem interseccional – um que considera e discute diferenças, opressões e vivências sem querer passar como um trator por cima delas.

A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, que virou queridinha da moda depois de sua parceria com a Dior, explica basicamente que, quando se trata de aparência, nosso paradigma é masculino. “Muitos acreditam que, quanto menos feminina for a aparência de uma mulher, mais chances ela terá de ser ouvida”, refletiu Ngozi em uma de suas publicações.

Não é difícil constatar isso. Nos anos 1980, as mulheres quiseram bater de frente com os homens no campo profissional e para isso se armaram de uma nova indumentária: os power suits. Eles nada mais eram do que ternos que exageravam ombros e escondiam curvas, como se a mulher precisasse se vestir ou simular o corpo de um homem para conquistar respeito.

Potência e as redes sociais

Segundo a poeta e ativista política Alzira Rufino, o resgate das potências femininas negras está na reapropriação de seus espaços e estéticas, como as festas e os desfiles de Carnaval.

Recentemente Kenia Maria, escritora e defensora pelo direito das mulheres negras da ONU, sofreu críticas em sua página no Facebook por postar fotos de sua filha, musa da Escola de samba Unidos da Tijuca. Para rebater os haters, ela resgatou um fragmento do livro Yansã, de Helena Theodoro, que relaciona as coreografias das escolas de samba e a dança dos orixás.

lupita-look-sereia

 (Ethan Miller/Getty Images)

“Nasci dentro de uma casa de Exu no subúrbio do Rio de Janeiro, venho de uma família de herança africana e do candomblé”, explica Kenia. “Então, ao debater a hipersexualização da mulher negra no Carnaval, devemos refletir sobre os diversos aspectos desse espaço.” Ela acrescenta que o diálogo entre gerações é fundamental. “É preciso ouvir as mais novas, olhar as mais velhas e perceber que o desejo de todas é a liberdade”, diz.

Eu sofro e passo por repressão dentro da minha família, que questiona a exposição do meu corpo e a minha militância”, diz a figurinista e stylist Suyane Ynaya sobre os comentários negativos em posts do seu corpo nu no Instagram. “Já sofri de depressão por causa da minha aparência. Meu ex-marido não achava que eu era a mesma mulher depois da maternidade e me fez rejeitar meu corpo”, recorda.

O processo foi acompanhado pela família, que, no entanto, não aceitou a forma de luta de Suyane. Foi quando ela e a mãe decidiram ter uma conversa séria. “Disse a ela para, antes de olhar o meu corpo nu, pensar no que eu quero dizer com essa imagem e nas outras mulheres que se inspiram em mim e se fortalecem com essa corrente de apoio.”

Na arena das redes, os julgamentos apressados, o apedrejamento virtual e a falta de diálogo e solidariedade começam a dividir espaço com a comunicação e o entendimento. “É muito complicado quando somos julgadas por mulheres que passam pelos mesmos problemas que nós”, diz a cantora Iza. “Vejo como elas também são alvo de machismo e como absorvem o que a sociedade fala. Então tento conversar, mesmo que não as conheça. Se tem um comentário na minha página, por exemplo, eu entro em contato”, explica. “Às vezes, o julgamento é automático. Elas nem sabem por que estão julgando.”

União para transformar

“Quando substituo a crítica negativa pelo reconhecimento positivo, sinto-me mais forte para começar o dia”, escreveu Bell Hooks no texto Vivendo de Amor. Tassia Reis compartilha pensamentos similares. “Quando nós, mulheres negras, experimentamos a força transformadora do amor em nossa vida, assumimos atitudes capazes de alterar as estruturas sociais existentes. Assim poderemos acumular forças para enfrentar o genocídio que mata diariamente tantas pessoas negras. Quando conhecemos o amor, é possível enxergar o passado com outros olhos, transformar o presente e sonhar o futuro.

Tassia Reis

 (Divulgação/Divulgação)

“Eu vejo muito o feminino como potência. Acredito que nós temos coisas que só nós temos e é importante valorizá-las. Faço parte do grupo que acredita que ser mulher, por inteiro, junto com todas as nossas vulnerabilidades, também é uma forma de protesto”, reforça Iza.

Para a arquiteta e feminista Joice Berth, a potência do feminino aumenta quando há uma desconstrução da ideia de essência feminina que foi imposta e limitada pela estrutura social atual. “Precisamos desconstruir o feminino como se ele fosse algo involuntário. Temos que entender por que estamos encaixadas nessa categoria. É biológico? É institucional? É social? Ou é tudo isso e mais?”, questiona.

Pensar no poder das redes de mulheres negras é uma das premissas do projeto Diálogos Insubmissos de Mulheres Negras, idealizado por Dayse Sacramento, professora de língua portuguesa no Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia da Bahia. Ao resgatar autoras negras, ela também resgata personagens, visões de beleza, de comportamento e de poder muitas vezes apagadas pelos padrões vigentes.

A literatura brasileira nos negligenciou o lugar de fala e de escrita”, explica ela, que também é candomblecista. “Nossos passos vêm de longe. Todas as nossas conquistas são frutos de mulheres que vieram antes e estão passando o bastão para jovens negras que estão pautando questões que dizem respeito a gênero, raça, classe, religião, beleza e sexualidade. Trata-se da nossa história.

Comentários
Deixe um comentário

Olá, ( log out )

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s