Björk sobre novas gerações: “não estou preocupada com o futuro”

Um dos nomes mais influentes do pop, a cantora fala à ELLE sobre seu novo álbum.

Este é como meu álbum do Tinder”, disse Björk quando anunciou Utopia, seu novo disco, há três meses. Se em Vulnicura (2015), seu penúltimo trabalho, ela refletia sobre sua separação do artista Matthew Barney (com quem tem uma filha), o novo álbum é sobre sua redescoberta do amor. “Em parte, a inspiração foi a sensação de alívio de quando Vulnicura foi concluído: ser atraída por tudo o que era arejado após o sofrimento e a tristeza desse disco”, disse à ELLE. Utopia, que será lançado este mês, é intimista, distante dos arranjos grandiosos e das batidas da década de 1990.

Em uma carreira de quase 25 anos, Björk se formou como uma das cantoras mais vanguardistas do pop, influenciando de Tom Yorke a Lady Gaga. Foi da eletrônica de Post (1995) ao minimalismo de Medúlla (2004), em que usou apenas sua voz como instrumento. Fez história com seus vídeos, do musical de It’s Oh So Quiet (1995), dirigido por Spike Jonze, ao erotismo entre robôs de All Is Full of Love, item da coleção permanente do Museu de Arte Moderna de Nova York, onde ela foi tema de uma retrospectiva em 2015.

“Fui atraída por tudo o que era arejado após o sofrimento e a tristeza.”

Poucas cantoras perseguiram tanto a tecnologia quanto a islandesa: multimídia, o álbum-projeto Biophilia (2011) consistia em dez diferentes aplicativos e contou com engenheiros para sua criação. Ali era possível ouvir suas canções e também interagir com elas. Cinco anos depois, ela avançou em direção à realidade virtual e apresentou a exposição Björk Digital, composta de vídeos em 360º de Vulnicura, que estreou em 2016 e passou por diversos países. Dona de uma estética própria, colaborou com Alexander McQueen (é dele a capa de Homogenic, 1997) e Alessandro Michele (que criou o look de seu novo clipe, The Gate, do qual é co-director criativo). E foi à cerimônia do Oscar de 2001 usando o vestido-cisne de Marjan Pejoski, depois de protagonizar Dançando no Escuro (2000), dirigido pelo dinamarquês Lars Von Trier e pelo qual ganhou o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes.

No mês passado, depois da denúncia de várias atrizes de assédio contra o produtor Harvey Weinstein, ela disparou no Facebook que sofreu o mesmo de um “diretor dinamarquês”: “Vamos interromper isso. Há uma onda de mudança no mundo”. Confira a seguir a entrevista que Björk concedeu por e-mail à ELLE.

bjork-entrevista

Vulnicura trata sobre o fim do seu casamento e você disse que seu novo álbum é também sobre estar apaixonada. Você acha que sua música é mais biográfca hoje em dia?

Não, acho que é a mesma de sempre, parcialmente biográfica. A magia da música pop é sobre como é fácil acessar esse sentimento universal. Por exemplo, se quisesse escrever uma música sobre gratidão, poderia criar o primeiro verso do ponto de vista de um amigo. O segundo, de uma nação inteira, e o terceiro, do meu próprio. E ainda assim a faixa seria coesa e todos os três versos se aplicariam a todos os pontos de vista. Às vezes, escrevo uma música de amor sobre um país e as pessoas a tomam como inspirada em uma pessoa, e vice-versa.

Utopia é seu nono disco. Seu processo criativo muda a cada novo álbum?

Em geral, acho que não mudou muito. Tenho um ritmo lento, em que escrevo uma música por mês ou a cada dois. São aproximadamente oito faixas por ano. Isso quase não muda, qualquer que seja meu humor ou a situação. O que altero é a instrumentação. Arranjei coros para Biophilia, cordas para Vulnicura, flautas para esse álbum e assim por diante. Eles são processos muito diferentes para arranjar, ensaiar e gravar. No entanto, cerca de 80% do meu trabalho é edição: eu, sentada no computador, editando batidas, vozes e instrumentos. Cada música pode levar meses só para finalizá-la.

Leia também: Se você não gosta de Björk, o que é bonito para você?

O que aprendeu sobre você mesma depois de ver sua carreira em retrospectiva na exibição do MoMA e lançar um livro este ano com suas partituras? Isso deu novas visões sobre seu trabalho?

Talvez o mais generoso da retrospectiva do MoMA foi ver o fio condutor, o quanto usei máscaras. Definitivamente, isso inspirou a mim e a James Merry (artista inglês que produz bordados a mão e codirigiu vários clipes da cantora) a levar tudo ainda mais longe. Talvez tenha visto no livro que tenho algum tipo de DNA nos arranjos que fiz ao longo dos anos.

A colaboração com outros artistas parece ser uma ferramenta essencial no seu processo criativo. O que você acha que Arca, produtor dos seus dois últimos discos, trouxe para a sua música?

Em boa parte do tempo que dedico aos meus álbuns, sou eu fazendo minha edição solitária e trabalhando as melodias. Provavelmente, não falei tanto sobre isso antes e queria manter segredo. Mas, como sempre e em tudo, sou muito atraída pelos extremos. Então, nas poucas vezes que colaborei, fui fundo e dei 100%. Arca trouxe um entusiasmo incrível e uma conversa musical festiva. Tem sido tããão divertido!

“As jovens gerações são genuinamente criativas. Não estou preocupada com o futuro.”

Você sempre parece antecipar o futuro, procurando interagir com novas tecnologias. É algo que persegue conscientemente?

Acho que parte grande do que faço é conservador. Como uma vocalista, minha voz não muda tanto. É quase a mesma por toda a minha vida. E como islandesa continuo muito interessada na natureza do país e ainda vivo cercada pela maioria dos meus amigos e familiares desde a infância. Tudo isso me dá impulso e curiosidade para desejar o futuro, querer sentir o momento e estar em sintonia com ele. Isso provavelmente encoraja meu apetite por isso.

bjork-entrevista

(Maisie Cousins/Divulgação)

Você atua em quase todos os aspectos artísticos de sua carreira. Isso é algo natural para você?

Agora é. No começo não. Primeiro, só queria cantar com os pés descalços e sem palavras. Alguns anos depois, adicionei letras. Mais para a frente, passei a usar sapatos. Depois, incluí a parte  visual, arranjos e assim por diante. Tem sido muito lento e gradual, como o curso mais longo de todos os tempos.

Recentemente, você mostrou apoio aos catalães que votaram a favor de se separar da Espanha. Você acha que há falta de engajamento político na música hoje em dia?

Não. Celebro a diversidade e acho que todos devem fazer o que é natural, especialmente os músicos. Venho de uma nação de pouco mais de 300 mil habitantes, que declarou independência há 74 anos. No início, todos diziam que nunca sobreviveríamos. Simpatizo especialmente com nações que não conseguiram manter seu idioma. Falar islandês era uma forma importante de dignidade, identidade e independência para nós nos 600 anos em que fomos uma colônia (da Dinamarca).

Você esteve no Brasil três vezes. O que você lembra dessas viagens?

A praia no Rio de Janeiro, o Carnaval em Salvador e o show de Milton Nascimento. Vivi momentos mágicos!

O que você está escutando?

Amo Kelela, Serpentwithfeet (projeto do norte-americano Josiah White), Anohni (ex-Antony Hegarty, do Antony and the Johnsons), Jurg Frey e Arca. Acho que a música está extremamente fértil, as jovens gerações são genuinamente criativas e essa é uma das razões pelas quais não estou preocupada com o futuro. Os humanos e a natureza sempre encontram um caminho.

 

 

Newsletter Conteúdo exclusivo para você
E-mail inválido warning
doneCadastro realizado com sucesso!
Comentários
Deixe um comentário

Olá, ( log out )

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s