Casa de Criadores: tudo o que rolou no quarto dia de evento

A moda afrobrasileira de Isaac Silva e o pocket show de Ney Matogrosso roubaram a cena.

Isaac Silva

O desfile de Isaac Silva não fala só de roupa. Para explicar do que se trata a sua apresentação, o estilista convidou vozes poderosas do movimento negro. A performance começa com uma poesia de Mel Duarte sobre empoderamento feminino e negro. Depois, a arquiteta e ativista Stephanie Ribeiro chega para lembrar da invisibilidade dos assassinatos contra negros no Brasil enquanto uma artista amarra um turbante na sua cabeça. Uma voz em off, inclusive, também explica a importância do acessório para a mulher negra. Reforçando o coro, chega Victor Apolinário, estilista da Cemfreio que participou por duas temporadas da Casa de Criadores.

Isaac-Silva

A poetisa Mel Duarte no começo do desfile de Isaac Silva. (Marcelo Soubhia)

“Vocês acharam que eu não viria, não é?”, disse logo que entrou na passarela antes de começar um discurso fervoroso que responde aos questionamentos incitados por Stephanie. Se ela pergunta “por que os brancos estão mais interessados em saber sobre apropriação cultural do que em entender o genocídio negro que acontece no Brasil e no mundo?”, Apolinário, com altas doses de ironia, vira a mesa.

Isaac-Silva

Que tal essas cabeças floridas que apareceram no desfile? Lindas! (Marcelo Soubhia/Agência Fotosite)

Ele demanda 50% de participação negra na atividades culturais do Brasil, ordena a todos que se levantem para aplaudir as mulheres negras e brada o início de um movimento de guerra para tomar de volta tudo aquilo que foi tirado da população negra pela cultura eurocêntrica e embranquecida: sua cidadania, seu espaço, seu poder social, sua beleza… É aqui que entra em cena o desfile de fato. Com casting majoritariamente negro e com diferentes tipos de corpos, a apresentação recupera vários elementos de ancestralidade e resistência negra. As cores fortes, a mistura de estampas, os ornamentos de cabeça e tudo o que fez parte daquele cenário plural e otimista de Isaac Silva fez com que a “turma da moda” entendesse o racismo envolvido nas noções a respeito do que é belo. No backstage, Isaac disse que é comum ouvir que não existe moda brasileira. Sua apresentação, então, serve como lembrança de que ela existe sim, mas a sua versão mais original ganha um prefixo: moda AFRObrasileira. Respeite.

Hangar 33 por Rafael Varandas

Ao conversar com a ELLE no backstage, Rafael Varandas — estilista da Cotton Project e que assina os desfiles da Hangar 33 há duas temporadas — tivemos uma aula rápida sobre Nose Art: “Durante a Segunda Guerra Mundial, as batalhas aeronáuticas de popularizaram. Ao mesmo tempo, tudo aquilo era muito experimental e muita (muita gente, mesmo) morria. Assim, começou a surgir uma crença de que, se você sobrevivesse a uma batalha, era porque você estava predestinado a isso de alguma maneira. Para se provarem grandes heróis, muitos dos pilotos pintavam a parte da frente de seus aviões, principalmente com pin-ups, das quais poderiam se orgulhar caso saíssem vivos”, explicou.

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Tricôs destroyed marcaram presença no desfile da Hangar 33. (Marcelo Soubhia/Agência Fotosite)

Por isso, na passarela, aparece o street delicado pelo qual o designer ficou famoso, mas, desta vez, em tons de marrom, verde militar e toques de laranja – tudo remetendo aos uniformes desses soldados. Tricôs com buracos e puídos também estavam entre as apostas mais interessantes, além de ótimos casacos. A Nose Art entra nas estampas, principalmente as desenhadas nas costas que davam um charme a mais as roupas da etiqueta.

Heloisa Faria

Heloisa-Faria

As padronagens geométricas da Bauhaus também inspiram as viagens de Heloísa Faria. (Marcelo Soubhia/Agência Fotosite)

Heloísa Faria é uma estilista que mantém os seus olhos sempre abertos. É daquelas artistas que nunca param de trabalhar: ver e viver a vida é o mote de seu trabalho. Por isso, seu tema para esta temporada é “deslocamentos“. “Eles podem ser físicos ou psíquicos. Estou falando de viagens dessas que a gente sai de um lugar e vai para outro, mas também daquelas que fazemos dentro da nossa própria imaginação”, explicou no backstage. Dessa forma, aparecem na sua passarela uniformes de esqui, capas de chuva, mas também os desenhos infantis de sua filha, os presentes artesanais de Dia das Mães que ela já ganhou dela… O universo prático do viajar se combina ao romance e à delicadeza de suas rendas, tricôs e brilhos. Uma coleção com muita informação e com muita poesia que, surpreendentemente, fez com que tudo entrasse em harmonia — ainda mais com a ajuda do styling de Flavia Pommianosky e Davi Ramos.

Martins.Tom

Apesar de extremamente jovem, a Martins.Tom estreia na Casa de Criadores como uma grande promessa. A primeira coleção da etiqueta surpreende pelo acabamento refinado, pela escolha certeira de tecidos que combinam perfeitamente com as modelagens alongadas e gigantes características da marca e pela delicadeza dos acessórios de conchas e búzios. Com styling de Marcell Maia, o intuito de trazer “um cheirinho de mar para a cidade”, como nos revelou Bruno Dalto, sócio do estilista Tom Martins que dá nome a neo label, foi 100% realizado. Vale a pena também ficar atento ao casting: “fazemos roupas para qualquer um poder usar”, os modelos — de cores e tamanhos diferentes — são prova disso.

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“Queremos fazer roupa para todo mundo poder vestir”, disse Bruno Dalto, sócio de Tom Martins. (Marcelo Soubhia/Agência Fotosite)

A Martins.Tom conseguiu montar uma apresentação simples que foi capaz de enfatizar todos os seus pontos mais fortes: moda conceitual para tamanhos inclusivos, shapes oversized e bons materiais. Com preços até R$ 800, a grife (impressionantemente) trabalha no modelo “see now, buy now“. Boa parte do que foi visto no desfile já está à venda no site, chega hoje na multimarcas Pair, em São Paulo, e sábado na Choix.

Martins-Tom

Além do jeans, o linho também foi um dos materiais mais usados pela marca. (Marcelo Soubhia/Agência Fotosite)

Mar, o mar pra cidade, roupas bem urbanas com cheirinho do mar, inspiração na Clara Nunes, acessórios. Contar a história da marca, modelagens clássicas da marca, reeditando modelagens clássicas em várias peças, presença do jeans. Ela é tamanho único, toda gigantesca, nosso DNA, roupas oversized. Bastante camisaria em linho, vestidos em musseline rosa e azul. Acessórios eles mesmo que fizeram. A coleção já está no ar. E amanhã, Pair recebe as roupas amanhã

Cartel 011 por Cristian Resende

O Cartel 011 chegou na Casa de Criadores com o pé na porta. O desfile da marca criada por uma das multimarcas mais cool de São Paulo apresentou um streetwear rico em sobreposíções e detalhamento. A cada look, por onde o olho corre há o que ser visto. Cada aviamento, cada zíper, cada cadarço, cada barra, manga ou gola carregava um desenho diferente.

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O desfile do Cartel 011 impressionava pelo nível altíssimo de detalhamento. (Marcelo Soubhia/Agência Fotosite)

Assim, muita coisa acontece ao mesmo tempo. No entanto, a estética urbana da etiqueta amarra toda a coleção que pisa na passarela criando desejo em quem parou para assistir. No final, para deixar ainda mais claro o seu poder, a grife ainda convocou ninguém menos que o icônico Ney Matogrosso para fechar o desfile poderoso. Bravo!

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Ney Matogrosso encerrou o desfile da Cartel 011 com pocket show emocionante. (Marcelo Soubhia/Agência Fotosite)

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