Casa de Criadores: tudo o que rolou no último dia de evento

Fernando Cozendey faz um lindo desfile repleto de diversidade e Brechó Replay fecha o evento com musical manifesto.

Karin Feller para Di Gaspi

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(Marcelo Soubhia/Agência Fotosite)

O último dia de Casa de Criadores começa em tom emocional e particular. No backstage, Karin Feller contou para a ELLE que esta é uma de suas primeiras experimentações em moda que parte de uma inspiração absolutamente calcada em experiências pessoais. “Eu sou de Israel, vivi lá até os nove anos de idade. Nessa ponte, percebo que existe uma diferença grande do pôr-do-sol daqui e do pôr-do-sol de lá. É olhando para o céu que eu me lembro onde estou”, disse. Esse cenário da natureza é que empresta as cores para as aquarelas da estilista que, tradicionalmente, tornam-se estampas em suas coleções. A delicadeza de suas pinturas casa perfeitamente com as modelagens que, mesmo se leves e soltinhas, são super complexas. Destaque também para o bordado que aparece pontual, mas certeiro. Nada de desvios óbvios para o “brilho pelo brilho”, aqui, o efeito é o de colorir, redesenhar e decorar detalhes da roupa que dão um acabamento incrível para as peças idealizadas por Karin. Sem dúvida, uma de suas melhores investidas à frente da DiGaspi.

Fernando Cozendey

“Essa coleção é a primeira de uma trilogia”, explica o carioca Fernando Cozendey. “Ela se chama ‘Perfeita’ e a minha ideia é que ela fale sobre a vida adulta. Depois, vou fazer outra sobre adolescência e infância.” A maturidade que o estilista conhecido por suas roupas elásticas sempre coladas ao corpo projeta em suas novas peças é aquela de entender que, independente de como anda a vida dos outros, é preciso encarar a “perfeição” de nossas alegrias, nossas tristezas, nossas falhas. “Ainda mais hoje em dia, com as redes sociais, ficamos completamente viciados em nos comparar com as outras pessoas. Achamos que todo mundo é mais sarado, mais rico, mais bonito, mais bem-sucedido, mais tudo do que nós. No fim das contas, essa busca cansa e não tem o menor valor”, diz.

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(Marcelo Soubhia/Agência Fotosite)

Assim, o seu desfile começou com um casting de corpos padronizados, com as tradicionais “altas e magras” – para representar um primeiro momento iludido com esses ideais de beleza – e depois segue com um casting espetacular no quesito diversidade. Teve negros, brancos, homens, mulheres, gordas, magras, altas, baixas e até uma atleta paralímpica que foi ovacionada ao pisar na passarela.

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(Marcelo Soubhia/Agência Fotosite)

Quanto à roupa, Fernando segue com seus collants, mas com um toque 20’s. “Foi naquele momento que as mulheres começaram a sair sozinhas para dançar jazz noite afora. Toda subversão começa com elas, então achei que seria legal recuperar um pouco do figurino da época.”

Igor Dadona

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(Marcelo Soubhia/Agência Fotosite)

No backstage de sua apresentação, Igor brinca dizendo que voltou “a ser gótico”. Depois de algumas temporadas mais coloridas, o designer — que sempre se apoia em elementos lúdicos — viajou para o mundo mais obscuro do misticismo. “Fiquei muito interessado em bruxas, recentemente. Elas eram perseguidas e queimadas simplesmente por serem mulheres, por serem quem elas eram. O mundo não estava preparado para entender coisas tão simples como a menstruação. Hoje, em diferente medida, vivemos algo parecido. Ser quem se é, de certa forma, acaba sendo motivo de perseguição. Por isso, decidi fazer minha coleção em cima desse tema”, justifica. Assim, o preto volta a dar às caras em roupas que são um mix entre a alfaiataria e o esportivo. Se a jaqueta tem um shape do tipo bomber, o tecido é um jacquard invertido com padronagem de símbolos astrológicos, bichos fantásticos e plantas desconhecidas. Por fim, o fogo, representação máxima das dores dessas vidas marginais, aparece na beleza “carbonizada” do desfile, como quem pintou o rosto com carvão, e em pontos de vermelho e amarelo na cartela de cores.

 

Neriage

Apaixonada por literatura e filosofia, Rafaella Caniello sempre parte de uma leitura para criar as coleções de sua marca. Dessa vez, o ponto de partida é o livro “A água e os sonhos”, do francês Gaston Bachelard. Nesta obra, o pensador se dedica a um paralelo entre as diferentes formas da água e a vida. Assim, o raso e profundo são reinterpretados pela designer que vai do bordô ao azul clarinho explorando minusciosamente cada tecido que decide utilizar.

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(Marcelo Soubhia/Agência Fotosite)

São roupas pesadas e luxuosas, sempre trabalhadas com técnicas artesanais que surpreenderam quem veio assistir a sua primeira apresentação fora do Projeto LAB. Os casacos com barras em pregas que criavam um efeito de saia, as blusas com bordados feitos a partir de diferentes materiais e as calças com várias camadas eram alguns dos exemplos que pisaram na passarela. Além disso, vale ressaltar um rápido momento beachwear: uma vez que o tema é água, um maiô azul bebê também apareceu por lá.

Brechó Replay

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(Marcelo Soubhia/Agência Fotosite)

A 42ª Casa de Criadores encerra com o coletivo em uma importante apresentação dividida em três atos. Assim como um musical, e com referência à peça Cats, logo no início, os integrantes cruzaram a passarela olhando nos olhos de cada convidado, usaram collant e unhas compridíssimas e se movimentaram ao som da cantora Linn da Quebrada, com as músicas de seu recente álbum Pajubá.

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(Marcelo Soubhia)

No segundo momento, um slam foi montado e nas falas poderosas, que levaram boa parte do público às lagrimas: se falou de vivências enquanto mulher, enquanto negro, enquanto LGBT, enquanto índio, enquanto pessoa com deficiência física, enquanto gordo. Ficou clara a necessidade de se ter empatia a realidades diversas. Foi sublinhada a importância de ouvir o outro e de entender os próprios privilégios. Ao final, todos percorreram a passarela, que já tinha virado palco, com as roupas amarradas umas às outras. No último discurso, o grupo falou que a contracultura acontece aqui e agora e que, se depender desta geração, muita coisa vai mudar. Ou melhor, já está mudando.

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