Coleções conceituais com teor emocional se destacam na Casa de Criadores

No terceiro dia de evento, a apresentação confessional de Fernando Cozendey e a estreia da Ken-gá Bitchwear chamaram a atenção.

Para que serve um desfile? No terceiro dia de Casa de Criadores, podemos dizer que, muitas vezes, eles existem para expurgar os demônios interiores dos estilistas e, de alguma maneira, aliviar a alma de quem tem a sorte de assistir a essas apresentações. Essa é a proposta do simultaneamente intenso e delicado desfile de Fernando Cozendey. Nesta temporada, ele apresenta a segunda parte de uma trilogia. Se na primeira ele falava sobre políticas corporais ao afirmar que corpo perfeito é simplesmente qualquer um com o qual a gente nasça, agora é a infância de seu próprio corpo que entra em foco. Como release, ele distribuiu um poema de sua autoria no qual uma cena de pedofilia é descrita sob a perspectiva da vítima que tem sua inocência roubada.

Leia mais: Desfiles em homenagem à cultura LGBTQ+ roubam a cena na Casa de Criadores

Fernando Cozendey

 (Marcelo Soubhia/Agência Fotosite)

“Estou muito realizado em finalmente conseguir falar sobre isso. Essa, na verdade, deveria ter sido a primeira parte da trilogia, mas eu ainda não me sentia pronto para isso”, revelou no backstage. Sem a chance de viver a doçura da infância e todas as suas cores, sobra só o bege. “É bege, não é nude”, reafirma. “É uma não-cor.” O tema é dolorido e , por isso mesmo, é impossível não aplaudir a coragem do designer de exorcizar um trauma como esse na passarela. Fernando, mais do que nunca, serve de prova viva de que a arte e a moda também curam.

Curar muitas vezes também significa reescrever histórias e foi essa a abordagem que a Ken-gá Bitchwear deu ao seu primeiro desfile no evento. A marca que, assim como Fernando Cozendey, é especializada em looks colados ao corpo usou como ponto de partida um vídeo em que Elke Maravilha relembra a história do Papai Noel. Dizem que a lenda surgiu de uma tradição nórdica na qual um pinheiro fica queimando enquanto os garotos vão caçar ursos polares. Aqueles que voltarem vestindo a pele do urso passam a ser vistos como homens. “E se as meninas tivessem que passar pelo mesmo ritual?”, perguntam as estilistas da grife.

Ken-gá Bitchwear

 (Marcelo Soubhia/Agência Fotosite)

Por isso, tudo começa com um vestido branco com uma vagina tridimensional na saia de tule. Ao fundo, Elis Regina canta Fascinação como quem remonta a descoberta da mulher com seu próprio corpo. A partir disso, ela vai a guerra e para isso, ela se apoia no figurino poderoso da Ken-gá. Super-heroínas neolíticas desfilam pela passarela em meio a performances de Vogue e closes infinitos. Por fim, uma modelo nua, toda de vermelho, deixa o casaco “de urso polar” no chão e mostra pendurado em seu corpo o colar que Elke Maravilha passou a vida inteira construindo. Um espetáculo de cair o queixo.

Rafael Caetano também fala de ativismo, mas de uma maneira mais bem humorada. A cultura LGBTQ+ tem sido tema e força criativa para ele já há algumas coleções. Nesta não é diferente. O ponto de partida foi uma viagem a Madrid, onde estilista se apaixonou pela atmosfera acolhedora do bairro Chueca (ponto de encontra da cultura gay local). A partir daí o olhar foi atrás das regiões paulistanas com o mesmo clima. Saem daí as estampas Frey CaNeca, Hunter (com o logo do app Grindr) e todo um arco-Iris de cores.

Rafael Caetano

 (Marcelo Soubhia/Agência Fotosite)

E falando em cor, quem também está começando abrir as suas possibilidades cromáticas é o estilista Alex Kazuo. Pela primeira vez, o estilista trabalha uma cartela de cores para além do preto que sempre marcou seu trabalho. Herdeiro do estilo dos japonistas clássicos da moda, o designer traz a sua passarela peças minimalistas que prometem agradar quem é fã do bom corte. A coleção, apesar de não ter tema, tem de sobra o estilo rigoroso do estilista que não abre mão de suas vontades de moda. Destaque para os acessórios — alguns deles são feitos de uma trama criada a partir de tiras de couro reutilizado — e para o jacquard que decora algumas de suas peças mais interessantes.

Alex Kazuo

 (Marcelo Soubhia/Agência Fotosite)

Para terminar, Diego Fávaro está em festa! Ele chegou à sua 10ª coleção e decidiu fazer uma viagem com amigos. Pensou principalmente numa trip para praia, com direito a muito surfe, mergulho e mais outros esportes radicais. É esse cenário que influencia as formas e clima do desfile. A imagem é aquela já conhecida do estilista, com peças esportivas com pegada street, cor a fortes e muita logomania, além dos acessórios que várias fashionistas já são fãs, como as bolsas e os sapatos (que, aliás, foram criados com a Passarela e já estão à venda, see now, buy now!). A novidade agora é no mood, mais leve e divertido. Afinal, férias.

Diego Favaro

 (Marcelo Soubhia/Agência Fotosite)

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