Como esta brasileira virou buyer da multimarcas Joseph

De passagem por São Paulo, Sirlene Di Santolo encheu o estilista Reinaldo Lourenço de elogios e falou sobre o sucesso de suas roupas na Inglaterra

Você sabia que a Joseph, uma das multimarcas mais cool de Londres, tem uma buyer brasileira? Morando há mais de 20 anos em Londres (e há 15 como funcionária da loja), Sirlene Di Santolo largou a vida como empresária musical no Brasil para se aventurar pelo mundo da moda na terra da Rainha. Hoje, é ela quem define o que entra no portfólio da loja, responsável por vender marcas como Acne, Balenciaga, Dries Van Noten e Maison Martin Margiela, entre muitas outras.

Sirlene Di Santolo. Sirlene Di Santolo.

Sirlene Di Santolo. (Thomas Rera/)

Em um rasante por São Paulo para acompanhar o desfile de Reinaldo Lourenço e Gloria Coelho no SPFW, Sirlene bateu um papo exclusivo com ELLE e contou um pouco sobre sua rotina de descobrir novos talentos no circuito das principais capitais do mundo. Confira:

Por que você se mudou para Londres?

Queria me casar com meu namorado na época – ele era italiano, trabalhava na indústria do cinema e tinha mais oportunidades na Inglaterra. Antes de ir, era empresária de bandas alternativas e nos finais de semana trabalhava como vendedora de loja na Gloria Coelho. Foi com ela que conheci e aprendi a gostar de moda.

Como você conseguiu o emprego na Joseph?

Sou naturalmente de Brasília e senti muita saudade da arquitetura da cidade em Londres. Um dia, entrei na loja da Joseph e me apaixonei por aquela arquitetura minimalista. Me senti em casa! Pedi um emprego ao próprio Joseph e peguei gosto pela coisa. Dois anos depois de começar a trabalhar lá resolvi aprimorar meus conhecimentos e passei a estudar ‘Textile Design’ na London College of Fashion.

Qual era seu relacionamento com o Joseph Ettedgui, fundador da Joseph?

Ele era muito revolucionário e me ensinou tudo o que sei sobre comprar. A loja foi uma das primeiras a vender Comme des Garçons, por exemplo. Ele sempre foi um curador e acreditava que as pessoas deviam comprar uma roupa em seu endereço, mas também queria que as peças ensinassem e educassem o consumidor sobre moda e mostrassem algo novo que estava acontecendo.

Você já começou a trabalhar como buyer?

Não, fui gerente, depois me tornei gerente regional das multimarcas [só no Reino Unido, a marca própria da Joseph tem mais de 30 pontos de venda] e então comecei a comprar. A minha experiência vem de entender o cliente e a curadoria da loja, como ela funciona. Meu trabalho é basicamente investir nosso orçamento em produtos desejáveis pelos clientes e sempre tentar achar algo novo, além de procurar constantemente por novos talentos. O buyer é um intermediário entre o publico para quem ele está escolhendo as peças e os designers. Para mim, quando entro em um showroom, a primeira pergunta que vem na minha cabeça é: ‘qual mensagem aquela roupa quer passar?’. E a segunda é: ‘o que aquilo tem de novo?’ Estamos sempre atrás de novidades.

Como você faz para descobrir esses novos talentos?

A imprensa é um medidor importante, assim como as redes sociais e os amigos e as pessoas em quem confio na indústria. Também vou a semanas de moda e fico ligada as apresentações de conclusão de curso do pessoal da Central Saint Martins.

Quais as marcas mais bacanas que você descobriu recentemente?

Adoro a Jacquemus, Y/Project e a Koché. Esses são apenas alguns exemplos, mas eu fui uma das primeiras pessoas a comprar Peter Pilotto, Mary Katrantzou e JW Anderson – sou muito fã dele. Eu tenho uma predileção por designers japoneses também, então gosto que os itens tenham design que estejam sempre puxando a moda um pouquinho pra frente e mostrando uma nova forma de criar.

Você vem sempre ao SPFW?

Não, mas acho que vai se tornar um hábito em breve. Como o calendário brasileiro mudou um pouco, agora o timing é perfeito. Eu acompanho o Reinaldo Lourenço e a Gloria Coelho há muitos anos – ela eu conheço há mais de 20 anos. Eu vendia as criações do Pedro Lourenço [filho de Reinado e Gloria] quando ele se apresentava em Paris e vendi o Reinaldo pela primeira vez na estação passada e ele se saiu muito bem. O cliente adorou, pois é uma roupa bonita, colorida, feminina e moderna ao mesmo tempo. Agradou muito meu público.

Você irá levar mais algum designer brasileiro para as prateleiras da Joseph?

Dessa vez será apenas o Reinaldo, e penso na Gloria para um futuro próximo. Para o gosto europeu, tenho a impressão de que eles são os mais apropriados. Conheço muito pouco dos estilistas brasileiros e não vi nada que poderia levar. Mas tenho certeza de que existem vários, seria uma questão de pesquisar também. As minhas preocupações com o Brasil envolvem também problemas com entrega, por conta da distância e do transporte, apesar de nada disso ter acontecido até agora.

Na sua opinião, o que falta na semana de moda paulistana?

Acho que ela precisa de mais investimento em estrutura e divulgação. E precisa também convidar mais buyers internacionais e ter uma associação como o British Fashion Council, que convida profissionais internacionais e os auxilia. Estou aqui e ninguém da organizou falou comigo. Também conheço muitos buyers lá fora e um ou dois foram convidados. Acredito que precisamos de uma assessoria nesse sentido se quisermos expandir esse mercado. O Brasil tem um potencial incrível para moda, pois as pessoas são vaidosas e amam se vestir.

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