Desconstruindo clichês de perfeição no Instagram

Perfis no Instagram trocam a estética da perfeição por imagens mais cruas em busca de uma vida digital mais autêntica e menos tóxica.

Um novo espectro estético ronda o Instagram: o do superrealismo. Marcas de moda, estilistas, modelos, artistas e influenciadores digitais estão cada vez mais próximos de uma geração sem filtro, que se contrapõe aos clichês de perfeição criados ao longo de quase sete anos de aplicativo.

A trend vem de um movimento natural de usuários cansados das fotos de pratos perfeitos, looks do dia, nunca repetidos e sempre impecáveis, ou das selfies cheias de facetune, nem um pouco reais. Tem a ver com registros mais crus e pouco editados, um espírito que é menos de carão e muito mais de ironia consigo mesmo e um feed que conta com a sinceridade. Supostos ruídos, sujeiras e erros se tornam detalhes não apenas bem-vindos como também desejados.

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A procura por autenticidade pede, além de situações mais reais, posts baseados na vulnerabilidade da existência. “A vida pode ser uma bagunça. Ela nem sempre é perfeita”, comenta Eva Chen, diretora de parcerias de moda no Instagram, em texto publicado na ELLE UK de setembro. “Por que o nosso perfil deveria mostrar algo diferente?”, pergunta. Eva afirma que esse movimento é um caminho sem volta e que ferramentas como o Instagram Stories e o Live, mais recentemente incorporadas à plataforma, facilitaram a criação de uma narrativa menos fake. “O Instagram mudou mais nos últimos 12 meses do que em toda sua história”, confirma Melissa Amorim, gerente de comunicação do app na América Latina. O jogo virou, e quem se escorava em imagens pouco palpáveis de moda e de lifestyle acabou ficando obsoleto.

Leia mais: O novo movimento de beleza rima menos com perfeição e mais com aceitação

Até Kim Kardashian, quem diria, compartilhou uma espécie de crise existencial em sua rede. “Por favor, me ajudem!”, escreveu no começo de agosto. “Preciso de mais consistência no meu feed, uma mudança em minha página”, confessou a matriarca da selfie, do duckface e do contour. A resposta para Kim não mora em outras possíveis ferramentas de megaedição, que se somam ao Instagram, mas aparentemente na negação de todas elas.

Pense em Fernanda Oliveira, com seu sugestivo nickname @___noangel. Ela é modelo de prova de Anthony Vaccarello, foi rosto da campanha de inverno da Saint Laurent, mas no Instagram é simplesmente uma garota de 19 anos que vai a festas, lava o carro, acorda sem make. Adicione a essa lista outros garotos e garotas que desfilam nas principais semanas de moda do mundo e nem por isso retratam uma vida pasteurizada, como Sylvester Ulv Henriksen, Adwoa Aboah, Paul Hameline, Mica Arganaraz, Hari Nef, Lily-Rose Depp e Slick Woods, a top rainha da jogação. Eles são influenciadores, talvez até mais poderosos do que as blogueiras engessadas, porque geram uma identificação maior com seus seguidores.

Good weather + styling 🔥🌹

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Entre os artistas, também existe uma seara de novos fotógrafos, com produção específica para a plataforma. Eles se libertam dos filtros e incorporam criatividade na construção de suas linguagens próprias e realistas. Estão aí nomes como Tom Gale, John Yuyi, Erica Segovia e Mayan Toledano, só para citar alguns. Eles entram num mix que envolve moda, artes visuais e as supostas banalidades da vida, agora valorizadas por serem justamente as partes mais autênticas do todo.

Estilistas e marcas também estão nessa onda. A tríade ultrarrealista da Europa Oriental, com Demna Gvasalia, Gosha Rubchinskyi e Lotta Volkova, e a visão mais fresca da mulher francesa e quase naïf, de Jacquemus, são bons exemplos. Os três primeiros foram chamados pelo jornal Te New York Times de o “contraponto realista ao tradicional folclore decorativista do balé russo”. Segundo a publicação, assim como a “dança falou de uma Rússia do passado, hoje são eles que falam de uma Rússia real e do presente”. As análises podem ser exageradas, mas é inevitável dizer que os três trouxeram esse realismo cínico para os holofotes.

ORANGE CITRON, plus classique pour vos pots de départ ,mariages et autres cérémonies.

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No Brasil, você precisa seguir as gêmeas Tasha e Tracie Okereke. Elas são do Jardim Peri, periferia da Zona Norte de São Paulo. Os cliques das irmãs mostram seu cotidiano em ambientes nada editados. É assim que a relação das duas com a moda e com a música conseguiu despertar o interesse da revista britânica i-D e de marcas como Nike e Melissa.

E por que essa nova estética é relevante? Mais de 40 bilhões de fotos e vídeos já foram produzidos e publicados no Instagram, em todo o mundo desde o lançamento. Ao menos 32 minutos do dia, em média, de cada usuário, são reservados para uma olhada nas linhas do tempo. Você pode não ter uma conta na plataforma, mas mais de 700 milhões de pessoas se mantêm ativas na rede em todo o globo e é inegável o seu impacto em várias indústrias.

De acordo com o #StatusOfMind, publicado pela United Kingdom’s Royal Society for Public Health, o aplicativo é avaliado como a ferramenta digital mais tóxica no que diz respeito à saúde mental. Um grupo de 1 479 jovens, entre 14 e 24 anos, identificou a rede de fotos como a mais propensa a gerar ansiedade, depressão e, inclusive, fomo (fear of missing out), fenômeno conhecido como “o medo de ficar por fora”. Isso significa que passar parte do dia vendo imagens de uma vida inatingível para a maioria das pessoas do mundo e se sentindo derrotado não é bom para o seu cérebro.

Como ser, então, mais autêntico no Instagram? Para Eva Chen, a solução é simples. “Mora na espontaneidade e na honestidade o maior engajamento de todos”, diz. “Nós podemos levar pessoas para várias jornadas com a gente, via Instagram, e não precisa ser até Bali. Pode ser até a loja da esquina. Existe beleza em todos os lugares”, finaliza.

Esse novo momento incentiva um novo jogo, talvez mais saudável, que podemos fazer com nossa própria imagem. Com certeza, alguma foto sua está parada no celular em função de alguma imperfeição, mas você adoraria compartilhá-la com seus amigos. Experimente publicar. Lidar com a realidade pode ser libertador.

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