ELLE decifra as referências estéticas do universo visual e dos figurinos de Bowie

Nenhum outro artista do rock ou da música pop construiu uma identidade visual tão rica, diversa e surpreendente quanto David Bowie.

No início de sua carreira, ainda nos anos 1960, David Robert Jones ainda passava, não fosse sua beleza, despercebido. Usava terninhos e casacos comportados, na estética da primeira fase mod, como milhares de jovens britânicos que amavam os Beatles e os Rolling Stones.

Um dos figurinos de sua primeira banda, The Konrads, no entanto, já tinha algumas pistas do talento do moço: num blazer verde Bowie desenhou listras grossas. Uma delas, provavelmente porque ele tenha errado a pintura, se abre numa espécie de buraco negro no peito. Muitos designers modernos quebrariam a cabeça pra chegar ao mesmo resultado.

Mas Bowie não estava destinado a ser um detalhe na história da música e percebeu que, se quisesse ser notado, teria de trabalhar não só com a música, seu passaporte para fora da vida sem graça que os pais levavam em Brixton, sua chave para o mundo, mas também com a estética.

 As capas de seu segundo disco, de 1969 (lançado como David Bowie e também com o título Space Oddity), e da edição inglesa de “The Man Who Sold the World”, de 1971, foram os primeiros passos. Na primeira, sua cabeça, como se flutuasse, aparece com as madeixas loiras num fundo psicodélico. Deitado de vestido, cabelos longos e chapéu, Bowie parecia um príncipe brincando com cartas ou talvez uma mulher curtindo suas roupas de cetim. O look foi comprado na loja de Michael Fish, um designer especializado em “vestidos para homens”.

Bowie não estava especialmente interessado no gender bender, embora tenha desafiado os limites de gênero, ele estava interessado no mundo. Uma de suas principais influências no período era sua mulher, Angela Bowie. Eles muitas vezes dividiam as mesmas roupas, eram parceiros de vida, de diversão.

Na mesma época, por volta de 1967, Bowie havia conhecido o bailarino e ator Lindsay Kemp, que abriria seus olhos para o mundo da performance. Mímica, kabuki, comédia dell’arte, teatro de vanguarda, parte importante do que ele usaria visualmente nas décadas seguintes, tudo isso passou a fazer parte do repertório do artista a partir desse contato.

A virada musical que rolou com Hunky Dory (1971), um dos discos mais importantes de Bowie, viria ainda mais forte, principalmente no aspecto visual, nos anos seguintes.

Bowie não só daria um significado especial ao termo glam como de fato explodiria num personagem tão fantástico, único, andrógeno e hipnótico que atravessaria décadas influenciando a moda e o imaginário pop sempre como se tivesse sido inventado anteontem.

É o sexy alien Ziggy Stardust, alter ego de Bowie para os discos The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (1972) e Aladdin Sane (1973).

Com corte “mullet” e cabelos vermelhos que ele quis adotar após folhear uma revista de moda, Bowie trabalhou nessa fase com nomes como Freddie, Natasha Korniloff e o japonês Kansai Yamamoto. 

Burretti fez  o famoso macacão de matelassê com botinhas de boxeador e o nada mais que icônico “Ice Blue Suit”, o terno que Bowie usa no belíssimo videoclipe de “Life on Mars?”.

 

 

Kansai fez, além de vários dos macaquinhos colantes e assimétricos de tricô, o famoso macacão preto que imitava as curvas das calças “harém”. Era uma versão maximalista, rígida, dark, dramática. Com Kansai, Bowie pôde explorar as referências japonistas tradicionais e misturar tudo com o que havia de mais pop.

Natasha assinou alguns looks dessa época, embora seu trabalho mais conhecido tenha vindo anos depois, em Scary Monsters and Super Creeps (1980): o Pierrot azul de Ashes to Ashes.

O look foi inspirado numa performance teatral de Bowie, em parceria com Lindsay Kemp, feita no final dos anos 1960, na qual  ele canta enquanto Kemp faz mímica no papel do Pierrot. O figurino de Natasha era uma versão enriquecida deste mais antigo, que ela também havia assinado.

O próprio Bowie dizia que era “um colecionador”, não de coisas, mas de referências, de coisas que as pessoas diziam. O personagem Ziggy tinha referências tão diversas quanto “Laranja Mecânica”, o comportamento da juventude inglesa nos clubes, séries cômicas e anúncios de TV.  

Em 1973, na capa de Pin Ups, apareceu ao lado da modelo Twiggy.

E foi essa capacidade de captar e filtrar o mundo que o levou, para surpresa de muitos, a enterrar Ziggy Stardust e seguir para novos caminhos.

Ainda na primeira metade dos anos 1970 Bowie se encantou com o soul e a funk music nos EUA e entrou com tudo na cena disco, de noitadas e festas turbinadas à base de cocaína. Seu look foi de Ziggy para o personagem batizado de Thin White Duke.  Cabelos loiros penteados para trás e ternos de grifes como Yves Saint Laurent passaram a ser o uniforme do cantor.

 

 

Depois de quase morrer, por conta do abuso de drogas e bebida, Bowie se exilou na Alemanha, onde fez sua famosa trilogia de Berlim, com os discos Low, Heroes (1977) e Lodger (1979). Na companhia de Brian Eno e das paisagens da cidade, ele adotou um look street e minimalista, com peças brancas e pretas e jaquetas de couro.

Apenas nos anos 1980 Bowie fez filmes e personagens tão diversos que preencheriam uma vida. Do rei dos duendes de Labirinto ao vampiro fino de Fome de Viver.

No clipe de Ashes to Ashes ele já provava sua influência. Quem contracena com ele são os clubbers new romantic da nova cena londrina, muitos deles admiradores da fase Ziggy e influenciados por ela.

Nos anos 90 Bowie mergulhou no universo da música eletrônica (e como ela poderia ignorá-la?) e em looks mais mundanos. Mas não menos interessantes e conectados com seu tempo. Na capa de Earthling ele veste um casaco com a bandeira inglesa estilizada. A peça foi feita a pedido dele por um talento então em ascensão: Alexander McQueen.

Depois de desaparecer por um tempo, Bowie lançou The Next Day (2013), disco no qual relembrava alguns momentos de sua carreira enquanto fazia diagnósticos precisos sobre a cultura contemporânea. O clipe de “The Stars Are Out Tonight”, tem tudo: Tilda Swinton, celebridades, gender bender e a estética pastel-vintage-plastificada à Wes Anderson.

Seu último disco “Black Star”, recém-lançado, além da estrela preta que normalmente é estampada para designar a data da morte de alguém, trouxe uma série de imagens apocalípticas e soturnas. Basta ver os clipes de Lazarus e o próprio Black Star.

Fala-se muito em uma mudança de tempos, no fim de modelos e na exaustão do sistema social e econômico. A obra de Bowie permanece como um relato precioso das últimas décadas que nos trouxeram até aqui. Dela saem lições, insights e, acima de tudo, possibilidades.

Bowie embalou sua morte numa obra de arte, assim como da arte tirou combustível para a sua música e para a sua imagem. Seu legado é incalculável e sua capacidade de inspirar, sem limites. 

 

 

 

 

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